GCAD_Palavreados

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GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO – Palavreados

 [GCAD Vol III - pg  1.855 > 1.864]

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Cantiga-bónus de abertura:

PIM PRLIM TRABALHAR FAZ CALOS
Pim prlim trabalhar faz calos
Pim prlim trabalhar faz calos
Pim prlim trabalhar faz calos
Pim prlim trabalhar faz calos
Pim prlim trabalhar faz calos
Pim prlim trabalhar faz calos
Pim prlim trabalhar faz calos
Pim prlim trabalhar faz calos
Pim prlim trabalhar faz calos
Pim prlim trabalhar faz calos
Pim prlim trabalhar faz calos
Pim prlim trabalhar faz calos
Pim prlim trabalhar faz calos
Pim prlim trabalhar faz calos
Pim prlim trabalhar faz calos
Pim prlim trabalhar faz calos….
… Trabalhar….. faz calos!…..

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Expressões Populares

Existem vários níveis de linguagem, uns acima do nível a que se convenciona chamar NORMA e outros mais ou menos desviados, quer acima quer abaixo da norma.

Vamos exemplificar alguns casos de desvios, eruditos, metafóricos, simbólicos, etc., outros mais ou menos ‘criativos’… terminando com uns exemplos de desvios no fundo da tabela, ou lá perto: os piropos dos trolhas.

(…) A nossa civilização, incluindo a popular, está cheia de simbolismos e conotações herdadas das mais remotas e inauditas culturas. (…) As letras das cantigas e suas conotações podem ser formas literárias de um conteúdo muito mais rico e civilizacional do que as aparências fariam prever. [Cf as cantigas de amigo do galego-português].

Mas a própria linguagem do dia-a-dia popular (e não apenas a expressão literária ou culta) encerra conotações e ligações históricas dignas de serem inventariadas, sistematizadas e estudadas a fundo. Vão aqui apenas alguns exemplos, que parecem significativos dessa riquíssima intertextualidade com outras épocas e civilizações:

À grande e à francesa = viver com luxo e ostentação.

Relativa aos modos luxuosos do general Jean Andoche Junot, auxiliar de Napoleão, que chegou a Portugal na primeira invasão francesa, e dos seus acompanhantes exibicionistas, que se passeavam vestidos de gala pela capital.

Andar à toa = andar sem destino, despreocupado, passando o tempo.

Toa é a corda com que uma embarcação reboca a outra. Um navio que está “à toa” é o que não tem leme nem rumo, indo para onde o navio que o reboca determinar.

Ave de mau agouro = diz-se de pessoa portadora de más notícias ou que, com a sua presença, anuncia desgraças.

O conhecimento do futuro é uma das preocupações inerentes ao ser humano. Quase tudo servia para, de maneiras diversas, se tentar obter esse conhecimento. As aves eram um dos recursos que se utilizava. Para se saberem os bons ou maus auspícios (avis spicium) consultavam-se as aves. No tempo dos áugures romanos, a predição dos bons ou maus acontecimentos era feita através da leitura do seu voo, canto ou entranhas. Os pássaros que mais atentamente eram seguidos no seu voo, ouvidos nos seus cantos e aos quais se analisavam as vísceras eram a águia, o abutre, o milhafre, a coruja, o corvo e a gralha. Ainda hoje perdura, popularmente, a conotação funesta com qualquer destas aves.

Acordo leonino = contrato desproporcionado, aquele em que um dos contratantes aceita condições desvantajosas em relação a outro contratante que fica em grande vantagem.

É, pois, uma expressão retórica sugerida nomeadamente pelas fábulas em que o leão se revela como todo-poderoso.

Coisas do arco-da-velha = coisas inacreditáveis, absurdas, espantosas, inverosímeis.

A expressão tem origem no Antigo Testamento; arco-da-velha é o arco-íris, ou arco-celeste, e foi o sinal do pacto que Deus fez com Noé: “Estando o arco nas nuvens, Eu ao vê-lo recordar-Me-ei da aliança eterna concluída entre Deus e todos os seres vivos de toda a espécie que há na terra.” (Génesis 9:16). Arco-da-velha é uma simplificação de Arco da Lei Velha, uma referência à Lei Divina.

Há também diversas histórias populares que defendem outra origem da expressão, como a da existência de uma velha no arco-íris, sendo a curvatura do arco a curvatura das costas provocada pela velhice, ou devido a uma das propriedades mágicas do arco-íris – beber a água num lugar e enviá-la para outro, pelo que velha poderá ter vindo do italiano ‘bere’ (beber).

Cair da tripeça = qualquer coisa que, dada a sua velhice, se desconjunta facilmente.

A tripeça é um banco de madeira de três pés, muito usado na província, sobretudo junto às lareiras. Uma pessoa de avançada idade aí sentada, com o calor do fogo, facilmente adormece e tomba.

Comer muito queijo = ser esquecido; ter má memória.

A origem desta expressão portuguesa pode explicar-se pela relação de causalidade que, em séculos anteriores, era estabelecida entre a ingestão de lacticínios e a diminuição de certas faculdades intelectuais, especificamente a memória.

A comprovar a existência desta crença existe o excerto da obra do padre Manuel Bernardes “Nova Floresta”, relativo aos procedimentos a observar para manter e exercitar a memória:

«Há também memória artificial da qual uma parte consiste na abstinência de comeres nocivos a esta faculdade, como são lacticínios, carnes salgadas, frutas verdes, e vinho sem muita moderação: e também o demasiado uso do tabaco».

Sabe-se hoje, através dos conhecimentos provenientes dos estudos sobre memória e nutrição, que o leite e o queijo são fornecedores privilegiados de cálcio e de fósforo, elementos importantes para o trabalho cerebral. Apesar do contributo da ciência para desmistificar uma antiga crença popular, a ideia do queijo como alimento nocivo à memória ficou cristalizada na expressão fixa «comer (muito) queijo».

Do tempo da Maria Cachucha = muito antigo.

Origem: A cachucha era uma dança espanhola a três tempos, em que o dançarino, ao som das castanholas, começava a dança num movimento moderado, que ia acelerando, até terminar num vivo volteio. Esta dança teve uma certa voga em França, quando uma célebre dançarina, Fanny Elssler, a dançou na Ópera de Paris. Em Portugal, a popular cantiga Maria Cachucha (ao som da qual, no séc. XIX, era usual as pessoas do povo dançarem) era uma adaptação da cachucha espanhola, com uma letra bastante gracejadora, zombeteira.

Dose para cavalo = quantidade excessiva, demasiada.

Dose para cavalo, dose para elefante ou dose para leão são algumas das variantes que circulam com o mesmo significado e atendem às preferências individuais dos falantes.

Supõe-se que o cavalo, por ser forte; o elefante, por ser grande, e o leão, por ser valente, necessitam de doses exageradas de remédio para que este possa produzir o efeito desejado.

Com a ampliação do sentido, dose para cavalo e suas variantes é o exagero na ampliação de qualquer coisa, sobretudo aquelas que só se tornam desagradáveis com o exagero.

Dar um lamiré = sinal para começar alguma coisa.

Trata-se da forma aglutinada da expressão «lá, mi, ré», que designa o diapasão, instrumento usado na afinação de instrumentos ou vozes; a partir deste significado, a expressão foi-se fixando como palavra autónoma com significação própria, designando qualquer sinal que dê a uma actividade um começo sincronizado. Historicamente, a expressão «dar um lamiré» está, portanto, ligada à música (cf. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).

Nota: Escreve-se lamiré, com o r pronunciado como em caro.

Erro crasso = erro grosseiro.

Na Roma antiga havia o Triunvirato: o poder dos generais era dividido por três pessoas. No primeiro destes triunviratos, tínhamos: Caio Júlio, Pompeu e Crasso. Este último foi incumbido de atacar o pequeno povo dos Partos. Confiante na vitória, resolveu abandonar todas as formações e técnicas romanas e simplesmente atacar. Ainda por cima, escolheu um caminho estreito e de pouca visibilidade. Os partos, mesmo em menor número, conseguiram vencer os romanos, sendo o general que liderava as tropas um dos primeiros a cair. Desde então, sempre que alguém tem tudo para acertar, mas comete um erro estúpido, dizemos tratar-se de um “erro crasso”.

Embandeirar em arco = manifestação de alegria.

Na Marinha, em dias de gala ou simplesmente festivos, os navios embandeiram em arco, isto é, içam pelas adriças ou cabos (vergueiros) de embandeiramento galhardetes, bandeiras e cometas quase até ao topo dos mastros, indo um dos seus extremos para a proa e outro para a popa. Assim são assinalados esses dias de regozijo ou se saúdam outros barcos, que se manifestam da mesma forma.

Fazer tábua rasa = esquecer completamente um assunto para recomeçar em novas bases.

A tabula rasa, no latim, correspondia a uma tabuinha de cera onde nada estava escrito. A expressão foi tirada, pelos empiristas, de Aristóteles, para assim chamarem ao estado do espírito que, antes de qualquer experiência, estaria, em sua opinião, completamente vazio. Também John Locke (1632-1704 ), pensador inglês, em oposição a Leibniz e Descartes, partidários do inatismo, afirmava que o homem não tem nem ideias nem princípios inatos, mas sim que os extrai da vida, da experiência:

«Ao começo», dizia Locke, «a nossa alma é como uma tábua rasa, limpa de qualquer letra e sem ideia nenhuma. Tabula rasa in qua nihil scriptum. Como adquire, então, as ideias? Muito simplesmente pela experiência.»

Fazer tijolo = morrer

Segundo se diz, existiu um velho cemitério mouro para as bandas das Olarias, Bombarda e Forno do Tijolo. O almacávar, isto é, o cemitério mourisco, alastrava-se numa grande extensão por toda a encosta, lavado de ar e coberto de arvoredo. Após o terramoto de 1755, começando a reedificação da cidade, o barro era pouco para as construções e daí aproveitar-se todo o que aparecesse. O cemitério árabe foi tão amplamente explorado que, de mistura com a excelente terra argilosa, iam também as ossadas para fazer tijolo. Assim, é frequente ouvir-se a expressão popular em frases como esta: ‘Daqui a dez anos já eu estou a fazer tijolo ‘.

Fila indiana = enfiada de pessoas ou coisas dispostas uma após outra.

Forma de caminhar dos índios da América que, deste modo, tapavam as pegadas dos que iam na frente.

Gatos-pingados = tem sentido depreciativo usando-se para referir uma suposta inferioridade (numérica ou institucional), insignificância ou irrelevância.

Esta expressão remonta a uma tortura procedente do Japão que consistia em pingar óleo a ferver em cima de pessoas ou animais, especialmente gatos. Existem várias narrativas ambientais na Ásia que mostram pessoas com os pés mergulhados num caldeirão de óleo quente. Como o suplício tinha uma assistência reduzida, tal era a crueldade, a expressão ”gatos pingados” passou a denominar pequena assistência sem entusiasmos ou curiosidade para qualquer evento.

Já a formiga tem catarro = diz-se a quem pretende ser mais do que é, sobretudo dirigido a crianças ou inexperientes, que engrossam a voz para impor os seus caprichos.

Lágrimas de crocodilo = choro fingido.

O crocodilo, quando ingere um alimento, faz forte pressão contra o céu da boca, comprimindo as glândulas lacrimais. Assim, ele chora enquanto devora a vítima.

Mal e porcamente = muito mal; de modo muito imperfeito e sujo.

Inicialmente, a expressão era “mal e parcamente”. Quem fazia alguma coisa assim, agia mal e eficientemente, com parcos (poucos) recursos. Como parcamente não era palavra de amplo conhecimento, o uso popular tratou de substituí-la por outra, parecida, bastante conhecida e adequada ao que se pretendia dizer; e ficou “mal e porcamente”.

Meter uma lança em África = conseguir realizar um empreendimento que se afigurava difícil; levar a cabo uma empresa difícil.

Expressão vulgarizada pelos exploradores europeus, principalmente portugueses, devido às enormes dificuldades encontradas ao penetrar o continente africano. A resistência dos nativos causava aos estranhos e indesejáveis visitantes baixas humanas. Muitas vezes retrocediam face às dificuldades e ao perigo de serem dizimados pelo inimigo que eles mal conheciam e, pior de tudo, conheciam mal o seu terreno. Por isso, todos aqueles que se dispusessem a fazer parte das chamadas “expedições em África”, eram considerados destemidos e valorosos militares, dispostos a mostrar a sua coragem, a guerrear enfrentando o incerto, o inimigo desconhecido. Portanto, estavam dispostos a ” meter uma lança em África”.

Não poder com uma gata pelo rabo = ser ou estar muito fraco; estar sem recursos.

O feminino, neste caso, tem o objectivo de humilhar o impotente ou fraco a que se dirige a referência. Supõe-se que a gata é mais fraca, menos veloz e menos feroz em sua própria defesa do que o gato. Na realidade, não é fácil segurar uma gata pelo rabo, e não deveria ser tão humilhante a expressão como realmente é. No passado, os chineses costumavam satisfazer as suas necessidades sexuais com gansos. Pouco antes de ejacularem, os homens afundavam a cabeça da ave na água, para poderem sentir os espasmos anais da vítima.

Passar a mão pela cabeça = perdoar ou encobrir um erro cometido por algum protegido.

Costume judaico de abençoar cristãos-novos, passando a mão pela cabeça e descendo pela face, enquanto se pronunciava a bênção.

Que massada! = exclamação usada para referir uma tragédia ou contra-tempo.

Origem: É uma alusão à fortaleza de Massada na região do Mar Morto, Israel, reduto de Zelotes, onde permaneceram anos resistindo às forças romanas após a destruição do Templo em 70 d.C., culminando com um suicídio colectivo para não se renderem, de acordo com relato do historiador Flávio Josefo. Também pode relacionar-se com ‘maçada’ (de maço), o que é menos cultural, mas mais lógico e directo.

Queimar as pestanas = estudar muito.

Usa-se ainda esta expressão, apesar de o facto real que a originou já não ser de uso. Foi, inicialmente, uma frase ligada aos estudantes, querendo significar aqueles que estudavam muito. Antes do aparecimento da electricidade, recorria-se a uma lamparina ou uma vela para iluminação; a luz era fraca e, por isso, era necessário colocá-las muito perto do texto quando se pretendia ler o que podia dar azo a “queimar as pestanas”, mesmo.

Ter para os alfinetes = ter dinheiro suficiente para viver.

Em outros tempos, os alfinetes eram objecto de adorno das mulheres e daí que, então, a frase significasse o dinheiro poupado para a sua compra porque os alfinetes eram um produto caro. Os anos passaram e eles tornaram-se utensílios, já não apenas de enfeite, mas utilitários e acessíveis. Todavia, a expressão chegou a ser acolhida em textos legais. Por exemplo, o Código Civil Português, aprovado por Carta de Lei de Julho de 1867, por D. Luís, dito da autoria do Visconde de Seabra, vigente em grande parte até ao Código Civil actual, incluía um artigo, o 1104, que dizia:

«A mulher não pode privar o marido, por convenção antenupcial, da administração dos bens do casal; mas pode reservar para si o direito de receber, a título de alfinetes, uma parte do rendimento dos seus bens, e dispor dela livremente, contanto que não exceda a terça dos ditos rendimentos líquidos.»

Ter memória de elefante = ter boa memória; recordar-se de tudo.

O elefante fixa tudo aquilo que aprende, por isso é uma das principais atracções do circo.

Ter ouvidos de tísico = ouvir muito bem.

Antes da II Guerra Mundial (l939 a l945), muitos jovens sofriam de uma doença denominada tísica, que corresponde à tuberculose. A forma mais mortífera era a tuberculose pulmonar. Com o aparecimento dos antibióticos durante a II Guerra Mundial, foi possível combater este doença com muito maior êxito. As pessoas que sofrem de tuberculose pulmonar tornam-se muito sensíveis, incluindo uma notável capacidade auditiva. A expressão «ter ouvidos de tísico» significa, portanto, «ouvir tão bem como aqueles que sofrem de tuberculose pulmonar».

Verdade de La Palisse = uma verdade de La Palice (ou lapalissada / lapaliçada) é evidência tão grande, que se torna ridícula.

O guerreiro francês Jacques de Chabannes, senhor de La Palice (1470-1525), nada fez para denominar hoje um truísmo. Fama tão negativa e multissecular deve-se a um erro de interpretação. Na sua época, este chefe militar celebrizou-se pela vitória em várias campanhas. Até que, na batalha de Pavia, foi morto em pleno combate. E os soldados que ele comandava, impressionados pela sua valentia, compuseram em sua honra uma canção com versos ingénuos:

“O Senhor de La Palice
Morreu em frente a Pavia;
Momentos antes da sua morte,
Podem crer, inda vivia.”

O autor queria dizer que Jacques de Chabannes pelejara até ao fim, isto é, “momentos antes da sua morte”, ainda lutava. Mas saiu-lhe um truísmo, uma evidência. Segundo a enciclopédia Lello, alguns historiadores consideram esta versão apócrifa. Só no século XVIII se atribuiu a La Palice um estribilho que lhe não dizia respeito. Portanto, fosse qual fosse o intuito dos versos, Jacques de Chabannes não teve culpa.

Disfemismos (= asneiras = palavrões…)

O ritmo instintivo e sempre alerta do pensamento do nosso povo revela-se na fala popular, que está cheia de expressões pitorescas e atrevidas! Será oportuno referir aqui mais alguns espécimes, além dos que aparecem nas cantigas, tenções (de maldizer) e rimances  populares, por ex. nos rimances de cordel e, sobretudo, nos de caserna, transcritos ao longo desta obra.
Muitos dos ditos e maneiras de traduzir as complexas realidades da vida vêm directamente dos instintos primários do povo.
Era frequente (ainda será?) ouvir, lá do alto de umas cepas, uma mãe berrar, para o próprio filho, que se esqueceu das horas do ‘jantar’ [= almoço]:
– Ó Manel, quando é que vens pra lebar o jantar ó teu pai à binha? Se te apanho, ponho-te um pé na morca, que até botas a merda pla boca, meu filho da puta!
Um camponês zangado dirá «estou arreliado!». Se estiver mais zangado, já dirá «estou cozido!» Mas, se estiver mesmo zangado, a sério, só dirá «estou fodido!»! E não faltam razões ao camponês para se irritar: é com a vinha, é com a bola, é com a mulher, é com os filhos, é com a falta de dinheiro, é com a ‘puta da vida’…
Veja-se esta historieta, que creio se contava no tasco do Napoleão (ou no Medeiros? ou na Cataninha? ou no Cá te espero?):
Um caixeiro-viajante do Porto vem ao Douro em trabalho, perde na estação da CP de Godim-Régua os transportes para Vila Real, já a tarde ia adiantada. De maleta na mão, quer chegar a Vila Real ainda de dia.
Dizem que, ali no ‘tanque redondo’, a uns 100 metros da estação, pergunta a um homenzinho que andava a rapar umas ervas ao pé do matadouro [hoje está por lá o quartel da GNR]:
– Olhe lá, ó senhor, daqui a Santa Marta é longe?
– Poijé! é loinge comó catano! Primeiro é em recta até ó Ribeiro da Meia Légua, mas despois é sempre a assubir prós Incambelados!
– E daqui a Vila Real?
– A Bila Riali?! A pé?! Porra!… isso é loinji cumó caralho! Vosmecê não chega lá huije com de dia, nem que se foda!
Com efeito, a expressividade profunda da Língua não se manifesta nas tiradas dos escritores (sobretudo os ditos “regionalistas”, mas que nunca pisaram bosta de vaca nem escutaram uns/umas aldeões irritados/as); manifesta-se, sim, nestas expressões, a que muitas vezes nem se dá atenção, nem os dicionários as catalogam, porque os dicionaristas, pudicamente, não têm coragem para as mostrar ‘en su sitio’.
Algumas estão perfeitamente situadas na norma, mas contêm ou conotam hipóteses de desvio para sentidos ou compreensões diferentes, devido a um fenómeno da ambiguidade. Estas hipóteses são sinal de criatividade e vitalidade linguística: só as conservam as línguas vivas, sujeitas a uma dinâmica de progresso e, até, explosão,
social que as força a adaptações urgentes a factos, objectos e realidades em constante evolução. Veja-se a chegada dos computadores: de um momento para o outro a Língua ficou crivada de bites, draives, printes, baikapes… e, até, um rato novo, electrónico!
Assim se fixam os disfemismos e, até, o calão asneirento, que, de tão utilizados, são como a roupa muito lavada e, de tão batidos, perderam a brejeirice, ou, até, a maldade – pois o povo ‘tem dias’ de um realismo muito cru.
Os trabalhos do campo, juntam as pessoas e as pessoas conversam, segundo o meio e a condição.
Tal como o musicólogo que quer recolher cantigas, nenhum estudioso da língua pode dispensar a fonte rural campesina, em que a alma popular anda à solta e se desata em músicas e ditos, instintivos, naturais e verdadeiros, por vezes até geniais.
Mas a aproximação ao mundo rural exige Cultura – a mesma palavra pode conter-se no significado da norma ou expandir-se em conotações, até ofensivas, que requerem atenção e bases. Por vezes nem toda a gente percebe todo o alcance do que se está a dizer, nomeadamente as crianças, a quem a experiência ainda não facultou a chave dos
segredos e meandros da vida.

Talvez seja boa metodologia tentar agrupar estas formas marginais de dizer em duas grandes categorias ou situações:

A – Situação de MALDIZER:
– CHUPA-PITOS
Um chupa-pitos é um homem de aparência frágil, sem força e também sem personalidade. A parte essencial de toda a estratégia do acasalamento (de que as danças são montra muito importante) é que as mocetonas rurais escolham os melhores exemplares de homens, mancebos, machos, com capacidade para procriar e gerir uma lavoura, um negócio. Ficar apurado para a tropa era, por ex., uma prova de hombridade e motivo de festa. Quando, por isso, as moças viam um homem sem altura, de aparência engelhada, sem porte e personalidade, um fracotes (e ainda por cima sem dinheiro…) cochichavam entre elas, com risinhos cruéis e chamavam-lhe desdenhosamente isso mesmo: ‘chupa-pitos’. Ora o ‘pito’ é uma denominação popular da vulva. Ainda por cima, uma laranja ‘com pito’ nem se pode comer. Nem toda a gente saberá o que é o ‘pito’ de uma laranja…
Um ribatejano, para se exibir perante a moça mais linda da terra, devia atrever-se a arriscar uma pega de caras com um toiro, ou, ao menos, a apanhar uma cornada de uma vaca mais atrevidota e atravessada; um pescador travar uma luta de vida e morte com as ondas do mar; um homem do Douro devia ter o porte altivo de um mancebo, capaz de ir aos cestos na vindima (uns 70kg às costas) e mostrar todo esse potencial às raparigas.
– VAI MORDÊ-LA! VAI LAMBER SABÃO! VAI LEVAR NO CU! VAI PRÁ CONA (COISA) DA TUA MÃE (OU DA TUA AVÓ)! VAI TE FODER! VAI PRÓ CARALHO! VAI BODAMERDA! OU BERDAMERDA!
São respostas bastante ofensivas em resposta a outra ofensa. As expressões ‘Vai mordê-la!’, ou ‘Vai lamber sabão!’ estão muito relacionadas com sexo oral, como em ‘chupa-pitos’.
Ofendem a partir da insinuação de impotência, geralmente masculina, embora também se apliquem a mulheres. Quando alguém se sente incomodado com alguma insinuação, atira, em resposta:
– MORDE AQUI, A VER SE EU DEIXO! e aponta para o pénis. Também se levanta e aponta um dedo da mão: o mais pequenino, o mindinho (repare-se bem na antítese!). A impotência está mais directamente expressa em: PANELEIRO. Também de diz AZEITEIRO. Não se usa muito no Douro o termo MARICAS, ou MARICONÇO. Mas todos os termos arrastam o abandalhamento da atitude homossexual.
A resposta a uma ofensa pode ser procurada em outro campo que não o sexual:
– MERDA-SECA, por ex. exprime o desprezo por quem não vale nada: e, pelos vistos, se é seca, a merda ainda é mais desprezível do que a merda ‘fresca’. Também se lhe chama ‘frasca’ – e não parece que ‘frasca’ signifique essa ‘frasca’ em outra região. Também se diz simplesmente: ó seu MERDEIRO!
O medo é criticado. De forma hiperbólica diz-se:
– BORRADO DE MEDO; e do medroso também se diz MERDOSO, TER CAGAÇO, UM CAGAÇAL, SER CAGUINCHAS… Indo mais além, o desprezo, real ou fingido, nas discussões menos engalfinhadas, está contido na expressão:
– CARA DE CU, ou um ‘cara de cu do caraças’, é uma pessoa antipática. Muito usada no Douro, indiscriminadamente, é
– FILHO-DA-PUTA. Até as mães chamam isso aos próprios filhos, numa hora de grande irritação; e, quando assim era, ‘chovia porrada como cisco’! [Ver, acima, a fala daquela mãe para o Manel ir ‘à binha lebar o jantar’ ao pai…]
A fama de garanhão era associada por vezes ao cognome
PICHA DE BURRO e, também, PICHA DE PORCO (como a rosca completa daquele tipo de parafuso….
Uma grande admiração, espanto, por causa de algo escandaloso merece que o aldeão (e a aldeã) duriense diga:
OLHA O CARALHO!
Mas, se há circunstâncias atenuantes, ou a presença de crianças, modula-se para uma fórmula mais suave: OLHA O CARELHO! ou, ainda, para uma forma mais esbatida: OLHA O VERGALHO! Uma zanga com alguém de má pinta originaria: “Ó seu cara de caralho!”
Uma expressão em que ‘caralho’ é superlativo é: ‘fica longe como o caralho!’
Tudo derivado de ‘pénis’, mais conhecido por ‘gaita’. Mas com muitas conotações!
– Chamar BANDALHO a alguém tem, sobretudo, a ver com falhas de honra ou moralidade.
Chama-se ‘bandalho’ a uma puta, e também a um homem que, com certa gravidade, não cumpre os seus deveres sociais, familiares… Mas, originalmente, ‘bandalho’ é um elemento de um ‘bando’.
Curiosamente, um elemento de uma BANDA (de música) é totalmente isento de ser ‘bandalho’.
Curiosamente, ainda, um TUNANTE é muito parecido com esse ‘bandalho’ de que estávamos a falar. Então, os tocadores das TUNAS são mais bêbedos e bandalhos do que os das próprias BANDAS?
Havia mulheres notáveis pela sua personalidade irascível. Uma mulher assim,
FERVIA EM POUCA ÁGUA, expressão transposta da culinária. Ou ainda.

– TEM PÊLO NA BENTA.

Mas o nosso Povo duriense diz ainda melhor, de uma forma inexcedível em imagística e pitoresco: tal mulher é
ENXERTADA EM CORNO DE CABRA.
Se uma mulher dessas mantinha o marido obediente e submisso, dizia-se que lhe tinha dado
ÁGUA DO CU LAVADO. Dava-se como mezinha aos homens por ocasião da PINGADEIRA, para os fidelizar.
A propósito do mando das mulheres, há o dito:
VARÃO – manda ele e ela não; VARUNCA – manda ela e ele nunca; VARELA – manda ele, quando não manda ela.

B – Situação de IRONIA
A sedução sempre foi e será uma arte, difícil, cujo fim, afinal, é o utilitário acasalamento para a propagação da espécie. Haja ou não pelo meio cantigas e poemas, pois ‘de poeta e louco todos nós temos um pouco’…
PINGA-AMOR é aquele que nunca mais se decide a avançar, chegando a fazer enjoar aquela, ou aquelas, que escolheu para fazer uma corte choradinha, mesmo sem lágrimas a pingar.
Curiosamente, o ‘pinga-amor’ também se chama ao conquistador, ao ‘don Juan’. E aqui cabe a etimologia desse ‘pingar’, que está ligado aos sonhos [e ‘partes’] húmidos, às gotas de ‘esporra’ adiantada…
– É o que significa a expressão DERRETER-SE TODO (ou TODA), aplicada à atracção entre um homem e uma mulher, que facilmente dá nas vistas. Daí passou a um estado de adulação, também chamado ‘dar graxa’ ou ‘lamber as botas’, sinal de dependência exagerada.
– A expressão PRESO PELO BEICINHO também se inter-relaciona com este tema da dependência amorosa: é sabida a ansiedade com que um namorado (ou uma namorada) anseia pelo primeiro beijo, e pelos seguintes… É um ‘estado de graça’ de enorme espectativa, felicidade e prisão (= compromisso).
DAR-LHE A VOLTA, ou PASSAR-LHE A PERNA são expressões sinónimas que se devem situar basicamente numa linguagem de cama. Ela mostra-se (instintivamente? fingidamente?) esquiva, mas ele, com arte e jeito, lá consegue o que quer: ‘dá-lhe a volta’ ou ‘passa-lhe a perna’… Depois a situação generalizou-se a outras situações, de muito maior disputa e muito menos amores.
IMBELA-ME! (=embala-me) é uma expressão que se usa para identificar e afastar os exageros laudatórios (‘graxa’ e outros piropos). A pessoa que os recebe, faz saber que não está a ser aliciada e a estratégia não resulta, embora por dentro esteja a gostar e, até, disposta a ceder. As raparigas bonitas do Douro costuma(va)m incluir este ‘imbela-me’ nas suas reacções (iniciais) aos piropos dos pretendentes.
Uma expressão também muito conhecida é
À RASCA. ‘Rascas’ são os restos da lenha, os chamiços. A lenha para a lareira do inverno tinha de ser cortada, recolhida e preparada com tempo, a fim de a cozinha e o aquecimento do lar ficarem desde logo prevenidos, incluindo tempo para secar. Se havia descuido, a ida à lenha era ir ‘à rasca’, pois os outros já tinham levado os melhores nacos.
Para o fim fica uma expressão muito típica da gíria popular:
COAR AS CASTANHAS.
Aos testículos chama(va)m-se vários nomes, nomeadamente ‘bolas’, ‘sacos’, ‘tintins’,colhos’, ‘colhões’ e, sobretudo, ‘tomates’. Mas há quem lhes chamasse ‘castanhas’, associadas à expressão que significa ‘mijar’: COAR AS CASTANHAS.
Claro que se trata de uma expressão fácil numa região de castanheiros; mas parece exagero machista associar implicitamente os picos dos ouriços a a essas castanhas.
Observação:
Muitos outros vocábulos e expressões (de carácter disfemístico ou eufemístico), circulam no Alto Douro! Apenas se seleccionou meia dúzia para publicar.., o que basta para agitar curiosidades ou espantos (até aos gatos e gatas…).

3. Versos de Escárnio e Maldizer
Um investigador amigo, Manuel Leal Freire, compilou no seu livro TROVAS DE ESCÁRNIO EM VERNÁCULO muitos versos e ditos pitorescos, em que o carácter jocoso, atrevido e satírico do nosso povo se exprime livremente, não sendo necessário sequer falar da literatura licenciosa de cordel, que circulava libertária e anonimamente no ‘bas-fonds’ de marinheiros de Lisboa e do Porto. E explica:
“…os chorrilhos de disparates que atravessam a colectânea, mesmo as expressões com palavras banidas do linguajar das pessoas de boa educação, são de genuina criação popular, e quando empregam o palavrão o fazem, umas vezes, num espírito de catarse, outras na convicção de que não haverá vocábulo capaz de transmitir com igual força essa ideia, outras ainda na pressuposição de que se trata de vocábulo bem nascido, mas transviado pelos baldões da semântica.
O ‘pisces foderunt conas’ é uma construção latina inocentíssima que apenas traduz as consequências da excessiva pressão dos peixes sobre as fragilidades da rede. E, no entanto, todos aqueles três termos do mais clássico latim acabaram por cair no caldeirão das obscenidades. O particípio passado do verbo que se enunciava pelos vocábulos fodio, fodis, fodere, fossi, fossum e que neste último termo veio a tornar-se muito usual na terminologia militar – sendo cova aberta em torno de praça forte, pelo lado de fora, para que o atacante não chegasse facilmente ao muro, o que se dificultava ainda mais, transformando a cova em canal alagado, não esconde a génese. De resto, há regiões, onde o verbo, nos seus diferentes modos e tempos significa atribulação, sofrimento:
– Senhor Compadre, disse-me uma velhinha extraordinariamente virtuosa – depois que morreu a sua afilhada, ando para aqui fodidinha de cansaço, que o trabalho da horta e cortelhos é muito…
“No que concerne à poesia popular, escabrosa ou simplesmente lírica, é difícil extrair uma certidão de idade. Quanto à erudita, tributária de Eros e Sátiro, encontramo-la logo nos primitivos cancioneiros – Vaticana e Colocci-Brancuti – e podemos acompanhá-la depois no de Garcia de Resende e em sucessivas antologias, mais ou menos divulgadas, mais abertas, clandestinas ou semi-clandestinas (…). Os filólogos, os folcloristas, os amantes de poesia, a gente de bem que aprecia uma boa risada, certamente que rejubilarão com a antologia que não ofende os moralistas que sejam indemnes ao farisaísmo.”

Escolhemos deste livro vernáculo uma pequeníssima amostra, apenas três quadras:

As mulheres são o diabo
Parentes do Inimigo
Que nos fazem estender
O que temos encolhido.

As mulheres são o diabo
Levam às penas eternas
Basta que abanem o rabo
E finjam que abrem as pernas

Toda a mulher que se escapa
À meia-noite prá rua
O que ela quer à socapa
É um palmo de carne crua.

4. Poesia de andaime, ou a arte do piropo popular
O trolha típico tradicional (do Douro e de qualquer lado) era [ah! já não é?] uma instituição etilizada, se não logo depois da aguardente e broa do mata-bicho, pelo menos depois daquela litrada de tinto ao ‘jantar’. As tardes eram animadas: não havia frio ou calor que entrasse em competição com uma boa anedota, um bom Benfica-Porto de bancada, ou… um bom piropo às mulheres transeuntes.
Desde tempos primatas, onde um cru puxão de cabelos simbolizava a paixão selvagem do macho pela fêmea, passando pelas serenatas estudantis à janela da amada e pelas tradicionais cartas de amor [e agora os sms e os emails…], o homem sempre procurou cativar o sorriso da sua amada de tantas formas quantas as que a imaginação permite.
Quando o poeta diz:
O amor é fogo que arde sem se ver,
o povo distorce:
O que é bom é para se ver.
Hoje, tempo de ‘chavalos’ e ‘garinas’, quando a mulher modernaça se deleita com os seus passeios vespertinos, pode escutar a voz da admiração e do desejo bradar, de improviso, fulgurantemente, do alto poleiro de um andaime:
Eh, carapau!
Eh, fanequinha!
Se o andaime e a crueza da frase sugerem o primata latente e trepador, que não raro se faz acompanhar de um porno-calendário no local de trabalho e incomoda a mulher séria (e também as pessoas normais), já a poética de muitas tiradas indicia algo do ‘homo sapiens sapiens’ virtual. De facto, há piropos que são autênticos versos, baseados num engenhoso trocadilho ou numa criativa metáfora, apuradas por uma ou outra hipérbole e com um ritmo aceitável.
A improvisação da oralidade aumenta-lhes o impacto; e, talvez, lhe dê, não raro, a graça de um encanto misterioso, selvático e apelativo. Não precisam de muito, estes poetas – pedreiros, trolhas, carpinteiros – basta-lhes uma simples rima, ou um trocadilho, para ‘embrulhar’, ou ‘metaforizar’, a inspiração:
– Ó flor, dá para pôr?
– Ó musa dás-me tusa.
– Ó bomboca, mostra a toca!
– Ó doce, era onde fosse.
– Ó beleza, deixas-ma tesa.
– Ó boneca, vai uma queca?
– És como um helicóptero: gira e boa.
– Ó febra, junta-te aqui à brasa.
– Ó jóia, anda aqui ao ourives.
– Ó “morcona”, comia-te o sufixo.
– Ó filha, aperta aqui que é mais fofo.
– Ó jeitosa, és mais apertadinha que os rebites de um submarino.
– Andas na tropa? É que marchavas que era uma maravilha.
– Tantas curvas e eu sem travões.
– A tua mãe só pode ser uma ostra para cuspir uma pérola como tu.
– Tens um cu que parece uma cebola, é de comer e chorar por mais.
– Só queria que fosses uma pastilha elástica para te comer o dia todo.
– Tanta carne boa e eu em jejum.
– Ó filha, agora já percebo porque é que tenho a talocha nas mãos.
– Belas pernas, a que horas abrem?
– A ti não te custava nada e a mim sabia-me tão bem.
– Até davas uma boa actriz mas és muito melhor atrás.
– Ainda dizem que as flores não andam.
– Ó filha, com um cuzinho desses deves cagar bombons.
– Só custa a cabeça que o resto é pescoço.
– Que rica sardinha para o meu gatinho.
– Ó filha, o teu pai devia ter a régua torta para te fazer com curvas assim.
É pena que alguns piropos, e dos poeticamente mais engenhosos, empreguem uma linguagem excessivamente ‘hard core’, que não cabe aqui, com pena nossa.
– Só queria que fosses um cavalinho de carrossel, para te montar todo o dia por 50 cêntimos.
– Contigo, filha, era até ao osso.
– Posso tocar no teu umbigo da parte de dentro?
– Caiava-te toda de branco por dentro.
– Contigo era até encontrar petróleo.
– És tão quente que até se me grelham os tomates.
– Diz-me quem é a tua ginecologista para eu lhe ir chupar o dedo.
– Ainda dizem que a fruta verde não se come.
– Ó boneca, era a estrear.
– Só a mim é que não me calha uma destas na rifa.
– Se cair, já sei onde me agarrar.
– Acreditas em amor à primeira vista, ou tenho que passar por aqui outra vez?
– Não te esqueças do meu nome, mais logo vais gritá-lo.
– Minha senhora, troco a sua filha por um piano, assim, podemos tocar os dois.
– És um bilhete de primeira classe para o pecado.
– Queria ser um patinho de borracha para passar o dia na tua banheira.
– Deves estar tão cansada, passaste a noite às voltas na minha cabeça.
– Com uma montra dessas, imagino como é o armazém.
– Ó filha, contigo era até partir os pés à cama.
– Ó doce, anda cá a cima fazer uma festinha ao tareco.
– Não és nada de se deitar fora, já tive pior e a pagar.
– Podes não ser a rapariga mais gira, mas com a luz apagada também é bom.
– Ó filha, tens carinha de Modelo mas o teu cu é um Continente.
– Com umas bóias dessas o Titanic não tinha ido ao fundo.
– Com um piso desses deves ser mais rodada que a 2ª Circular.
– Ó filha, anda cá dar um beijinho ao trolha.
– Ai, não queres? Eu vi logo, gorda como estás, é porque não suas muito.
– És mesmo esguia, pareces uma sereia: metade mulher, metade baleia.
– Ó filha, com esse atrelado só com carta de pesados.
– Sabias que te fica muito bem a cara?
– Ainda pensei levar-te no meu coração, mas depois topei que era muita areia para o meu camião!

Também há piropos destes com vocabulário de ‘inspiração’ religiosa:
– Ai, Jesus, que és tão boa!
– Diz-me lá como te chamas para te pedir ao Menino Jesus.
– Ó filha, queres ir ao céu? Sobe os andaimes que o resto do caminho é por minha conta.
– Ó filha, se não acreditas que Deus é feito de carne e osso sobe os andaimes.
– Abençoados pais que fabricaram esta coisinha linda.
– Por acaso és católica? É que tens um cu que valha-me Deus.

As chamadas «bocas foleiras»
Não se conhece documentação de reacções por parte das musas destinatárias destes poemas de andaime. Mas, num ambiente mais ‘bebido’, como uma discoteca, um concerto, ou um lugar público de arraial ou de festas populares, será possível escutar diálogos como estes, a que vamos chamar ‘bocas foleiras’:

1. Boca foleira: Como eu queria ser esse sorvete!
Resposta: Além de ser fresco, queres ter o pau enfiado no rabo também?
2. Boca foleira: Se a beleza desse cadeia você apanhava prisão perpétua.
Resposta: Se feieza fosse crime, você apanhava pena de morte.
3. Boca foleira: Gata, você é muito linda, só tem um problema: a sua boca tá muito longe da
minha!
Resposta: Questão de higiene.
4. Boca foleira: Qual o caminho mais rápido pra chegar ao seu coração?
Resposta: Cirurgia plástica, lavagem cerebral e uns 3 meses de porrada.
5. Boca foleira: Você é a mais bela das belas das flores, uma rosa. Quer florescer no meu
jardim ?
Resposta: Eu ia morrer de sede com o tamanho do seu regador!
6. Boca foleira: Eu não acreditava em amor a primeira vista; mas quando te vi mudei de
ideias.
Resposta: Que coincidência! Eu não acreditava em fantasmas.
7. Boca foleira: Você tem uma boca! Deve ter um gostinho… Posso provar?
Resposta: Pode… (cospe no chão e vira as costas)
8. Boca foleira: Se tivesse uma mãe como você mamaria até os 30 anos.
Resposta: Se eu tivesse um filho como você mandava-o pró circo!
9. Boca foleira: Olha, eu não sabia que uma boneca andava!
Resposta: E eu não sabia que um macaco falava!
10. Boca foleira: Olá, o cachorrinho tem telefone?
Resposta: Tem, porquê? A sua mãe está no cio?
11. Boca foleira: Este lugar está vago?
Resposta: Está, pois, e este aqui onde estou também vai ficar se você se sentar aí.
12. Boca foleira: Então, o que faz você na vida?
Resposta: Sou travesti.
13. Boca foleira: Será que eu já não te vi em algum lugar?
Resposta: Claro! Eu sou a recepcionista do hospital dos malucos… não se lembra?
14. Boca foleira: A gente já não se encontrou em algum lugar antes?
Resposta: Já! e é exactamente por isso que eu não vou mais lá.
16. Boca foleira: Eu gostava de te ligar, qual é o teu telefone?
Resposta: Está na lista.
Réplica: Mas eu não sei o seu nome.
Tréplica: Também está na lista, na frente do telefone.
17. Boca foleira: Ora, vamos parar com isso, nós dois estamos aqui neste baile pelo mesmo motivo.
Resposta: É, pra arranjar mulher…
18. Boca foleira: Eu quero me dar por completo a si.
Resposta: Sinto muito, eu não aceito esmola.
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GCAD_Ritmos, entreténs…

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GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO – RITMOS, ENTRETÉNS, LENGALENGAS…
[GCAD VOLUME III - pgs  1.867 > 1.882] 

EXEMPLOS [GCAD, Pg. 1.867]

Assim, outro aspecto que tem de ser referido diz respeito à total ausência de comunicação escrita e, muito menos, áudio-visual. E, na província de Trás-os-Montes e Alto Douro, ainda agora não chega toda a comunicação social escrita e, quanto às novas tecnologias, existem ainda muitas e grandes zonas mortas para os telemóveis, a internet e, até, a televisão (e cabo só por satélite) e a rádio. [Escrito em 2008]
Teremos de nos situar em épocas em que as horas de leitura de livros e jornais, rádio e, sobretudo, as muitas horas diárias de televisão (estatisticamente são 3 horas cada pessoa, na actualidade) eram passadas a trabalhar, ou em convívios com familiares e amigos. Quer no trabalho, quer em casa, quer com amigos, falava-se ou dialogava-se muitíssimo mais do que actualmente e a transmissão de vivências e saberes realizava-se de forma, por regra, informal e inconsciente.
Assim, grande parte dos processos de aprendizagem (e diversão) passavam pelo convívio pessoal e empático, interactivo, mas sem intervenção exterior e, ainda, sem escolas nem mestres.
A tradição oral baseia-se em fórmulas rimadas e também em ritmos próprios, nem sempre rimados, que possibilitam a transição das memórias através dos séculos, sem serem escritas.
A título de curiosidade, apresento uma listagem de descobertas que o progresso pôs diante da Humanidade em pouco mais de… 50 anos – meio século – e ficamos admirados com a sua quantidade e qualidade [Escrito em 2008]:
– televisão,
– vacinas contra a poliomielite,
– comidas congeladas,
– fotocopiadora,
– lentes de contacto,
– radares,
– cartões de crédito,
– raio laser,
– patins on-line,
– ar condicionado,
– máquina de lavar,
– secadoras (as roupas simplesmente secavam ao vento),
– o homem nem havia chegado à lua,
– rapazes não usavam piercings,
– computador,
– duplas carreiras universitárias,
– terapias de grupo,
– fast food, ou “comida rápida”,
– telefones sem fio (muito menos telemóveis),
– música estereofónica,
– rádios FM,
– fitas K-7,
– CDs,
– DVDs,
– máquinas de escrever eléctricas,
– calculadoras (nem as mecânicas quanto mais as portáteis),
– “Notebook” era um livreto de anotações,
– relógios a pilhas,
– tecnologia digital,
– indicadores com números luminosos,
– rádio-relógios-despertadores,
– máquinas de jogos,
– cafeteiras automáticas,
– micro-ondas,
– videocassetes,
– câmaras de vídeo,
– As fotos não eram instantâneas nem coloridas (somente p/b e a revelação demorava mais
de três dias.
– As fotos a cores não existiam (e, ao aparecerem, a revelação era muito cara e demorada),
– Se em algo lêssemos “Made in Japan”, era de pouca qualidade,
– não havia “Made in Korea”,
– nem “Made in Taiwan”,
– nem “Made in China”,
Não havia também:
– “Pizza Hut”,
– “McDonald’s”, Zara, Corte Inglês
– café instantâneo,
– gelados, passagens de autocarro, refrigerantes, tudo por 10 centavos,
– “erva” cortava-se para os animais (e não para se fumar),
– Não havia “hardware” e “software”,
– nem pílula anticoncepcional,
– a virgindade não ‘produzia cancro’,
– e uma senhora precisava de um marido para ter um filho.
(Autor desconhecido)

Sem esta panóplia de inventos, que hoje até já consideramos primitivos e obsoletos, quer as crianças quer os adultos podiam dar largas à sua imaginação e espírito criativo, para inventarm brinquedos e reinventarem maneiras agradáveis e (sempre) instrutivas de utilizar o tempo.
Seria mais adequado dizer que antigamente se inventava o Tempo.
De facto, já se vão perdendo nas brumas da memória os costumes individualizados com que as crianças eram criadas e educadas. Mas, embora em grau estatisticamente cada vez mais diminuto, ainda vai havendo famílias, em que, para as crianças, as mães e avós ainda vão buscar coisas bonitas e eficazes às arcas da memória, geradora de saudades, de sonhos e de música interior.
Os ritmos familiares dos gestos quotidianos contribuem para o crescimento fisico e psíquico dos homens e mulheres do Futuro, que cada vez mais está descaracterizado, massificado e depressa calcinado, pois os sonhos não lançam raízes no cimento.

ENTRETÉNS
Como ensina o Dr. Joaquim A. Ferreira, excelente pedagogo e investigador regionalista (Vila Real), a actividade lúdica é essencial para o desenvolvimento integral e harmonioso da psico-motricidade da criança. Como não o pode fazer por ela própria, vão  aprendendo com as mães e os familiares, que desempenham essa função utilizando gestos, palavras (geralmente rimadas e ritmadas) e canções apropriadas.
Daí nasceram os entreténs, que têm um grande valor físico, psíquico e pedagógico, pois auxiliam poderosamente a criança a crescer mais sã, a aprender mais cedo, a exercitar as suas actividades corporais e a desenvolver mais rapidamente as suas
faculdades mentais.
Eis alguns exemplos dessas actividades:

Para divertir as crianças
Bichinha gata,
Que vens tão farta,
Que comeste hoje?
Sopinhas de leite.
Gardaste-me delas?
Gardei, gardei.
Adonde?
Atrás da caixinha.
Com que a tapaste?
Com o rabo do gato.
Sape, gata, para casa da
madrinha.
Comer pão sardinha.

Dizem-se estes versos ritmadamente, afagando com as mãos o rosto da criança, correspondendo a cada verso um movimento descendente. Os últimos dois versos são acompanhados de cócegas no peito, ou pancadinhas no rosto.

Bichinha gata,
Donde vens tão farta?
De casa da madrinha.
Que te deu ela?
Pão e sardinha.
Sape gata, prá cozinha.
*
Bichaninho gato,
Donde vens tão farto?
De casa do tio Marto.
Que comeste lá?
Sopinhas com mel.
Sape, rabeja,
Pra casa do ti Miguel.
*
Foste à vila?
Fui.
Compraste panelas?
Comprei.
Quebraste-as pelo caminho?
Quebrei.
A tua mãe ralhou?
Ralhou.
Vamos também nós ralhar?
Vamos.
Depois, bufam na cara um do outro:

_________

Para adormecer
O menino mau
Tem o cu de pau.
Não quer ir prà cama,
Mas leva tau, tau,
*
Papão, papão, vai-te embora,
Lá de cima do telhado.
Deixa dormir o menino
Um soninho descansado.
*
Nana, nana, meu menino,
Que já lá vem o Tutu,
Com um cacho de bananas
E um prato de peru.
Nana, nana, meu menino,
Que a mãezinha logo vem.
Foi levar os cueirinhos
À fontinha de Belém.
*
João Pestana, João Pestana,
Faz dormir o menino
na cama.
Para mamar
Rola, rola, catrapula,
Que te quero dar a mama.
O teu pai foi pró moinho,
Tua mãe ficou na cama.
*
Palmadinhas, palmadinhas,
Palmadinhas e palmocas.
A mãe dará maminhas,
A mãe dará mamocas
E o papai, quando vier,
Te dará o que trouxer.
*
Palminhas,
Palminhas,
A mãe dá maminhas
E o pai, quando vier,
Dará do que trouxer.
Para comer
Enganei-te, enganei-te,
Com as sopinhas de leite,
A comer uma cereja,
À porta da nossa igreja.
Ó Zé , põe-te a pé,
Vem tomar o teu café.
Tim, trelim, meu cafezinho,
Tim, trelim, eu vou tomar.
Só me dói a barriguinha,
Quando é para trabalhar.
*
Põe, põe, pitinha o ovo,
Que a menina papa o todo.
Ela o coze, ela o assa,
Ela o vai vender à praça.
*
Faz um bolinho
Pró meu manquinho.
Quem o mancou?
Foi um a velha
Que aqui passou.
*
Acabou-se a papa doce,
Quem a comeu
regalou-se.
Para por no chão
Cadeirinha, cadeirão,
Sapatinho de algodão,
Leva o bebé à mãezinha
Que lhe dará a maminha,
Se o menino for pró chão.
*
Orelhita purigenha,
Onde vais buscar a lenha?
À ribeira da canhota,
Onde a lenha é mais torta.
Roça, roça no chão, roça,
Vai pró chão andar de gatas,
Mas não rompas as sapatas.
Para andar
Mão, mão, mão.
Pé, pé, pé.
Roda, roda, roda,
Caranguejo peixe é.
*
Chi coração,
Caixa de pão,
Pipa de vinho,
Para o menino
Ir à lição.
Dá cá a mão.
Para contar
Tu tens uma bonequinha?
Tenho.
Ela é engraçadinha? É.
Quantos anos ela tem? Cinco.
Vamos lá contá-los:
Um, dois, três, quatro, cinco…
*
O teu pai fez uma casa? Fez.
Quantos pregos lhe pregou?
Dez.
Vamos lá então contá-los:
Um, dois, três, quatro, cinco,
Seis, sete, oito, nove, dez.

_______________________________________

LENGALENGAS
Se as crianças se divertiam com os entreténs e os jovens com os jogos, os adultos também podiam entrar no grupo, sobretudo nos jogos das palavras, uma brincadeira
que não foi apanágio exclusivo da literatura oral, mas que entrou também na literatura escrita, atingindo o seu ponto mais alto na escola gongórica, no século XVII. E foi
assim que surgiram as lengalengas, em grande quantidade, das quais deixo alguns exemplos muito curiosos e bem significativos. (Outras lengalengas: no Vol II)

Aos dedos da mão
a.
Este é o mindinho,
Este é o vizinho,
Este é o pai de todos,
Este é o fura bolos,
E este o matraca-piolhos!
b.
Este foi à lenha,
Este o ajudou,
Este achou um ovo,
Este o cozinhou
E este o papou.
c.
Este diz que quer pão,
Este diz que não lho dão,
Este diz que o vai ganhar,
Este diz qe o vai roubar,
E este diz que roubar não,
Porque é feio e dá prisão.
d.
Ana, Magana,
Rabeca, Susana,
Lázaros, Ramos,
E na Páscoa estamos!

Aos dias da semana
a.
Os dias que há na semana

Eu tos vou a referir,
Com palavras excelentes,
Escuta, se queres ouvir:
Segunda-feira, águas claras,
Que regam toda a verdura,
Pra alegrar esses teus olhos,
Amor de pouca ventura.
Terça-feira, alecrim verde.
Bem puderas tu, menina,
Ser agora o meu amor,
Já que amar-te é minha sina.
Quarta-feira, uma rosa,
Por ser a flor desmaiada;
Nossa amizade, menina,
É firme, nunca se acaba.
Quinta-feira, uma açucena,
Por ser a flor excelente;
Não sei se fala verdade
Ou se a menina me mente.
Sexta-feira é um trevo,
Que anda rentinho do chão,
Bem puderas tu, menina,
Andar em meu coração.
Sábado é um rosmaninho,
Por ser a flor mais alegre:
Nossa amizade, menina,
É fiel e nunca se perde.
Quem me dera cá domingo,
Dia de tanta alegria!
O meu gosto é ir buscar-te
Para a minha companhia!
b.
Na segunda eu me deito
E na terça me levanto;
Na quarta é da santo;
Na quinta vou para a feira;
Na sexta vou ver a leira;
Sábado, vou passear
E, no domingo, missar.
Diga-me agora, comadre,
Quando hei-de descansar!
c.
Não há sábado sem sol
Nem há domingo sem missa,
Nem segunda sem perguiça,
Nem terça sem haver feira,
Nem convento se ter freira
Não há menina bonita
Sem ter vestido de chita.

Aos meses
Eu sou o Janeiro
Que espalho o meu grão
E peço a Deus
Aceso tição.
Eu sou o Fevereiro,
Mês dos temporais,
Descubro as casas,
Derrubo os portais
E eu sou o Março
Que sempre marcejo
E farto as terras
De água e desejo.
E eu sou o Abril,
O tempo das flores,
Gorjeiam as aves,
Despertam amores.
E e sou o Maio
De pouca ventura,
Jã não tenho grão
Nem tenho assadura.
E eu sou o Junho,
Já não tenho nada:
Só mato a fome
Com pão de cevada.
E eu sou o Julho,
O mês mais sisudo,
Que farto cidades,
Aldeias e tudo.
Eu sou o Agosto,
Que toco guitarra
E que vendo o vinho
A meia canada.
Eu sou o Setembro
Que tudo recolho:
O trigo, o milho,
O grão e o restolho.
Eu sou o Outubro,
O Mês do Outono,
Estrumo as terras
Para bem do dono.
Eu sou o Novembro,
O mês dos santinhos,
Em que os lavradores
Provam os seus vinhos.
Eu sou o Dezembro
Engordo o meu porco
Como os meus torresmos,
Regalo o meu corpo.
Trinta dias tem Novembro,
Abril e Junho e Setembro;
De vinte e oito só há um,
Tudo o mais tem trinta e um.

Às vogais
a.
A mãezinha leva já – á
O leitinho com café – é
Prá merenda da Lili – i
Que está na casa da avó – ó
A brincar com a Lulu – u
A – E – I – O – U
b.
Sor polícia venha cá – á
Venha ver o que isto é – é
O barulho é aqui – i
O neto bateu na avó – ó
Deu-lhe um pontapé no cu – u.
c.
Eu conheço a letra á
Onde quer que a veja escrita,
Junto-lhe um pê, fica pá
Oh, que letra tão bonita!
E também conheço o é,
Até o sei escrever;
Junto-lhe pê, fica pé,
É muito fácil de ler.
Conheço também o i,
É uma bonita letra,
E até a sei desenhar:
Tem uma pintinha preta.
A letra ó, redondinha.
É bem fácil de escrever:
Até a mina maninha
Dorme, ao ouvi-la dizer.
E a letra u, é, enfim,
Das vogais a derradeira,
Faz lembrar uvas maduras,
Penduradas na videira.

Aos números
a.
Um, dois, três,
Macaquinho do chinês.
b.
Um, dois, três, quatro,
A galinha e o pato
Fugiram da capoeira;
Atrás foi a cozinheira,
Que lhes deu com um chanato:
Um, dois, três, quatro!
c.
A galinha da pousada
Põe os ovos à manada:
Lá põe um e lá põe dois,
Lá põe três e lá põe quatro,
Lá põe cinco e lá põe seis,
Lá põe sete e lá põe oito,
Lá põe nove e lá põe dez.
Um, dois, três, quatro, cinco,
Seis, sete, oito, nove, dez!
d.
Pus-me a contar às avessas
As pedras duma coluna:
Dez, nove, oito, sete, seis,
Cinco, quatro, três, duas, uma.
e.
Quem ganha um e gasta dois
Nada tem para depois;
Quem ganha dois e gasta três
Nada tem pra outra vez;
Quem ganha três e gasta quatro
Escusa de bolsa e saco;
Quem ganha quatro e gasta cinco
Tem de andar sempre faminto;
Quem ganha cinco e gasta seis
Nunca juntará dez reis
Quem ganha seis e gasta sete
Não sabe no que se mete;
Quem ganha sete e gasta oito
Nunca pode andar afoito;
Quem ganha oito e gasta nove
De rico torna-se pobre;
Quem ganha nove e gasta dez
Perde os sapatos dos pés.
f.
Quatro com cinco são nove,
Para doze faltam três;
Se te faltei algum dia
Aqui me tens outra vez.
g.
Doze e redoze,
Com mais quatro são catorze,
Com mais sete vinte e um
Faz a conta menos um.
h.
Doze e redoze,
Vinte e quatro e catorze,
Desasseis e vinte e um
Dão um cento, menos um.
i.
Cifra vai,
Cifra vem,
Toma lá dez reis,
Bota cá um vintém
E volta pró ano,
Porque eu pago bem.
j.
Três vezes nove vinte e sete,
Quem não pode não promete.
Quem morreu foi o Baeta
À porta da Castanheta.
Temas vários
Arco-da-velha
Põe-te na quelha
Fita Vermelha
Não é para velha.
––
Arco-da-velha
Não bebas aí
Burros e burras
Mijaram aí.
––
O tempo pergunta ao tempo
Quanto tempo o tempo tem;
O tempo responde ao tempo
Que o tempo tem tanto tempo
Quanto temo o tempo tem.
––
Ó solzinho, vem, vem,
Ganharás um vintém;
Se vieres pelo telhado
Ganharás um cruzado.
––
Rei, capitão,
Soldado, ladrão,
Orelhas de gato
Focinho de cão.
––
Sapateiro, remendeiro,
Come tripas de carneiro:
Bem lavadas, mal lavadas
Tudo vai para o pandeiro!
––
Quem parte e reparte
E não fica com a maior parte,
Ou é tolo ou não sabe da arte.
––
O pretinho dà Guiné
Lava a cara com café
Tem vergonha de ir à missa
Com sapatos de cortiça.
––
Chi-chi-ri-chi… onde vais, velha?
Chi-chi-ri-chi… vou para a serra
Chi-chi-ri-chi… que vais fazer?
Chi-chi-ri-chi… vou buscar lenha
Chi-chi-ri-chi… pra que é a lenha?
Chi-chi-ri-chi… pracender o lume.
Chi-chi-ri-chi… pra que é o lume?
Chi-chi-ri-chi… pra fazer o caldo
Chi-chi-ri-chi… pra que é o caldo?
Chi-chi-ri-chi… pra dar ao moço
Chi-chi-ri-chi… pra que é o moço?
Chi-chi-ri-chi… pra sachar milho
Chi-chi-ri-chi… pra que é o milho?
Chi-chi-ri-chi… é prás galinhas
Chi-chi-ri-chi… pra que são as galinhas?
Chi-chi-ri-chi… pra pôr os ovsos
Chi-chi-ri-chi… pra que são os ovos?
Chi-chi-ri-chi… pra dar ao padre.
Chi-chi-ri-chi… pra que é o padre?
Chi-chi-ri-chi… pra dizer a missa.
Chi-chi-ri-chi… pra que é a missa?
Chi-chi-ri-chi… pra ir pró céu da carriça.
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Chi-chi-ri-chi… casou Maria
Chi-chi-ri-chi… com quem seria?
Chi-chi-ri-chi… C’um sapateiro
Chi-chi-ri-chi… que lhe daria?
Chi-chi-ri-chi… umas chinelas
Chi-chi-ri-chi… de que são elas?
Chi-chi-ri-chi… de cordovão
Chi-chi-ri-chi… casou João.
__
Cá-cá-rá-cá… põe-te na pá,
Faz um bolinho pró meu manquinho.
– Quem o mancou?
– Foi a pedra.
– Que é da pedra?
– Está no monte.
– Que é do monte?
– O lume queimou-o.
– Que é do lume?
– A água apagou-o.
– Que é da água?
– Os patos beberam-na.
– Que é dos patos?
– Estão a pôr ovos.
– Que é dos ovos?
– Os padres comeram-nos.
– Que é dos padres?
– Estão a dizer miss.
– Que é da missa?
– Já está dita.
––
Cá-cá-rá-cá… põe-te na pá,
Faz um bolinho pró meu manquinho.
– Quem o mancou?
-Foi uma velha que aqui passou.
– Que é da velha?
– Caíu à água.
– Que é da água?
– Beberam-na os bois.
– Que é dos bois?
– Foram semear trigo.
– Que é do trigo?
– Comeram-no as pitas.
– Que é das pitas?
– Foram pôr o ovo.
– Que é do ovo?
– Comeram-no os padres.
– Que é dos padres?
– Foram dizer missa.
– Por quem é a missa?
– É pela carriça.
Era uma velha que tinha um gato
Era uma velha que tinha um gato
Debaixo da cama o tinha.
O gato miava e a velha dizia:
– Mal haja o teu miar
Que não me deixa dormir
Nem tão pouco descansar.
Era uma velha que tinha um cão
E debaixo da cama o tinha
O cão ladrava, o gato miava
E a velha dizia:
– Mal haja o teu ladrar e o teu miar
Que não me deixam dormir
Nem tão pouco descansar.
Era uma velha que tinha um galo
Debaixo da cama o tinha.
O galo cantava, o cão ladrava,
O gato miava e a velha dizia:
– Mal haja o teu cantar,
O teu ladrar, o teu miar
Que não me deixam dormir
Nem tão pouco descansar.
Era uma velha que tinha um porco
E debaixo da cama o tinha.
O porco roncava, o galo cantava,
O cão ladrava, o gato miava
E a velha dizia:
– Mal haja o teu roncar, o teu cantar,
O teu ladrar e o teu miar
Que não me deixam dormir
Nem tão pouco descansar.
Era uma velha que tinha um burro
Debaixo da cama o tinha.
O burro rinchava, o porco roncava,
O galo cantava, o cão ladrava,
O gato miava e a velha dizia:
– Mal haja o teu rinchar,
O teu roncar, o teu cantar,
O teu ladrar e o teu miar
Que não me deixam dormir
Nem tão pouco descansar.
Era uma velha que tinha um boi
Debaixo da cama o tinha.
O boi berrava, o burro rinchava,
O porco roncava, o galo cantava,
O cão ladrava, o gato miava
E a velha dizia:
– Mal haja o teu rinchar,
O teu roncar, o teu cantar,
O teu ladrar e o teu miar
Que não me deixam dormir
Nem tão pouco descansar.
A velha, obrigada, então,
Tomou esta decisão:
Mata o boi, e mata o burro,
Mata o porco, e mata o galo,
Mata o cão, e mata o gato…
E, satisfeita, dizia:
– Acabou-se o teu berrar,
Acabou-se o teu rinchar,
Acabou-se o teu roncar,
Acabou-se o teu cantar,
Acabou-se o teu ladrar,
Acabou-se o teu miar…
Agora posso dormir!
Também posso descansar!
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GCAD_Simbologias e Conotações

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GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO

– Simbologias e Conotações

Ver no GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO, Vol III - pgs 1655 > 1724

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Os símbolos são utilizados em todas as Civilizações da História, quer pelos intelectuais com formação literária e científica, quer pelo povo anónimo e analfabeto.
Existe uma infinidade de símbolos e multiplicidade de interpretações, pelo que apenas aqui deixamos alguns espécimes (preferentemente ainda ‘vivos’ no Alto Douro) e aconselhamos a leitura das muitas páginas dedicadas ao assunto no GCAD, Vol III.
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Mocho: É tido como uma ave agourenta, nocturna, núncia de infortúnios, que os romanos procuravam apanhar quando entrava em alguma casa, pregando-a nas portas, «para expiarem por seu tormento as desgraças de que ameaçavam as famílias com os seus nefastos voos». (ver Simbologia, (GCAD Vol III – pg 1.655)
Espirros: Os romanos deixaram-nos uma saudação dirigida aos que espirravam: Dominus tecum=’domisteco’=o Senhor seja contigo – Para o céu, diz-se também, em resposta, como se vê em Apuleio. Em Sanhoane diz-se ainda “Domisteco”. Os espirros deviam ser dirigidos para a direita e não para a esquerda (“sinistra”), de onde provinham agouros nefastos.
Feiticeiras: Têm uma fórmula e untura para se tornarem invisíveis, marcharem para onde querem ou se transformarem noutros animais. O povo tem vários remédios contra feitiços, entre os quais se conta a figa, ou seja,
o phallus (= falo, membro viril entre os Gregos), correspondente ao Deus Príapo entre os romanos. (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655)
Fogueiras: Em algumas localidades ainda se faz a fogueira de Natal que dura vários dias.
Nas noites de São João e São Pedro queima-se marrolho (erva de flor amarela), rosmaninho, uma erva que se cria na primavera nos sequeiros dos lameiros e dança-se à roda das fogueiras, cantando loas aos ditos santos. (ver Simbologia, c. III)
Funerais (culto dos mortos): Em determinadas aldeias há jantaradas nos enterros e funerais, que se prolongam pela noite dentro: as pessoas vêm de longe e nas aldeias  não há onde dormir. Ou, pelo menos, são servidos comes e bebes, pão e vinho. O culto aos mortos – reservado ao Purgatório, pois no Céu já não precisam e no Inferno é escusado… – é de origem católica e tem o nome de ’Finados’. É comemorado no dia 2 de Novembro de cada ano, logo depois do dia de Todos-os- Santos. No início era mais íntimo, litúrgico e eclesial, com missas adequadamente
solenes; depois estendeu-se aos cemitérios, evoluindo para aspectos mais sensoriais, com velas (símbolos de presença entre nós e de fé – (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655), flores (crisântemos) e outros ornamentos.
O culto dos mortos existe ancestralmente em todas as culturas do mundo. Em Portugal e Europa, o Dia de Finados é celebrado com tristeza, mas no México, que também é um país católico, fazem uma enorme e alegre festa! (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655)
Judeus: Era comum fazer aos judeus a acusação de ‘abafarem’ os doentes sem esperança de cura, para lhes abreviarem o sofrimento; hoje, a esse ‘abafo’ (que livraria o Estado de mais um reformado) chamar-se-ia, finamente, ‘eutanásia’.
Lobisomens: Segundo uma lenda popular trasmontana, nascem com o fadário de lobisomens os filhos gerados em sexta-feira santa e também os de compadre e comadre. A crença em lobisomens – homens transformados em lobos – é muito antiga; por vezes readquire a personalidade humana, readquirindo-a ao fim de certo tempo (uma noite,
uma lua, alguns anos). (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655)
Malmequer: desfolhar o malmequer dá aos namorados informaçõs sobre se um deles tem ou não amor ao outro. Tal usança já vem do paganismo que, para isso utilizava a flor da papoila, colocando na mão fechada e batendo com a outra em cima. Conforme o estalo da flor, era grande, pequeno ou nulo, assim significava o grau de amor. (ver
Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655)
Mandrágora: Apuleio também a menciona, dizendo que «o soporífero da mandrágora é famoso pela modorra que causa e eficaz para produzir um sono semelhante à morte». São-lhe atribuídas propriedades medicinais: afrodisíaca, alucinógena, analgésica, narcótica e fecundante. O uso da raiz da planta é muito antigo, encontrando-se citado nos textos bíblicos (Génesis,30:14 e Cantares,7:13).
Segundo lendas medievais, as raízes da mandrágora deveriam ser colhidas em noite de lua cheia, puxadas para fora da terra por uma corda presa a um cão preto; se outro animal ou pessoa fizesse esta tarefa, a raiz “gritaria” tão alto que o mataria.
Outra lenda refere que a mandrágora tinha como semente o gozo de um homem enforcado; o fruto, idêntico a uma pequena maçã, exala um odor forte e fétido; a raiz tem uma forma humana.
Essa planta também é citada em importantes obras literárias:
– Shakespeare, em Romeu e Julieta, acreditando-se que o remédio que Julieta tomou para fingir estar morta tenha sido extraído dela.

– J K Rowling, em Harry Potter, pelas suas raízes e aparência humana.

– Também é citada no filme O Labirinto do Fauno, onde é usada para amenizar as complicações da gravidez da mãe da personagem Ofélia.

– Citada, ainda, no jogo Odin Sphere para o console Playstation 2, onde se devem arrancar da terra para a confecção de poções com diferentes finalidades.

– No mangá (história em quadrinhos japonesa) Mx0, as mandrágoras assumem forma “humana”, num fictício  campo mágico, devido ao facto de a sua forma se assemelhar à figura humana. (ver Simbologia, c. III)

Olhar para trás: Nas crendices populares, encontra-se a de não olhar para trás ao andar.
Pé esquerdo: Entrar em casa com o pé esquerdo, é de mau agoiro. Nos templos gregos, a escadaria para subir ao altar tinha três degraus, número mágico. Mas bastaria construí-las em qualquer número ímpar, pois naturalmente se inicia a subida com o pé direito e esse seria automaticamente o mesmo da entrada em casa. (ver Simbologia, c. III)
Pregos nas portas: Os romanos cravavam nas portas pregos arrancados dos sepulcros, ou colocavam nelas o phalus (polegar metido entre o indicador e o médio), para afugentar de seus jardins malefícios e ladrões. (ver Simbologia, c. III)
Culto da pedra (ver Simbologia, c. III)
Raio: Não há muita gente que não tenha respeito pelos raios, faíscas e relâmpagos, pois não prenunciam nada de bom. (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655)
Culto da serpente: A serpente é um símbolo de sabedoria para filósofos, alquimistas, médicos e sacerdotes. Representa o cúmulo de conhecimento conseguido através dos tempos e a reciclagem constante nas suas infinitas trocas de pele. Tem o poder de matar e curar com o mesmo veneno. A serpente mais velha de todas é a do Éden bíblico, que enfeitiçou e seduziu o primeiro casal humano. (ver Simbologia, c. III)
Sonhos: (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655)
Tabus: São preceitos considerados religiosos ou supersticiosos que envolvem conceito de sacrilégio para quem os transgride, atraindo pesados castigos sobre os transgressores. (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655)
Totemismo: (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655)
Varinha de condão: (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655)
Vassoura: pôr uma vassoura com o cabo para baixo atrás da porta faz as visitas indesejáveis irem embora depressa; a vassoura deve ser guardada na posição vertical para evitar desgraças; crianças que montarem em vassouras serão infelizes; varrer a casa à noite expulsa a tranquilidade. (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655)
Número 13: é tido como sinal de infortúnio, e, também, de bom agouro. Se uma sexta-feira cair no dia 13 é um sinal de perigo e, nesse dia, todo o cuidado é pouco. O número treze é tão temido que há lugares onde os prédios não possuem o décimo terceiro andar. (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655)
Cabelos: Existiam mulheres que ofereciam as cabeleiras aos santos, como o fim de recuperar o amor dos seus maridos. Aquiles corta a sua cabeleira para ser queimada na fogueira fúnebre de Pátroclo (Homero, Ilíada, conto XXIII).
Elefantes: ter um elefante de enfeite, sobre um móvel qualquer, sempre com a tromba erguida mas de costas para a porta de entrada, evita a falta de dinheiro. (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655)
Orelha: se uma orelha aquecer de repente, alguém está falando mal; se for dizendo os nomes suspeitos a orelha parará de arder. (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655).
Gatos: na Idade Média, acreditava-se que os gatos pretos eram bruxas transformadas em animais; por isso a tradição diz que ver um gato preto é azar. Mas há quem diga que, quando um gato preto entra em casa, é sinal de dinheiro; por isso, acariciar um gato atrai boa sorte e ter um gato em casa atrai fortuna. Se um gato dobrar as patas e se deitar sobre elas deixando-as escondidas, é sinal de tempestade. (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655).
Espelhos: quem quebrar um espelho terá sete anos de azar. Ficar a olhar-se num espelho quebrado, significa quebrar a própria alma. Ninguém se deve também ver ao espelho à luz de velas. Nem duas pessoas se devem olhar ao mesmo tempo no mesmo espelho. (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655).
Aranhas: aranhas, grilos e lagartixas representam boa sorte para o lar; matar uma aranha pode causar infelicidade no amor. (ver Simbologia, (GCAD Vol III- pg 1.655).
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GCAD_Lendas Durienses

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 Algumas lendas do Douro medieval

Ver: GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO, Vol III - pgs 1.895 > 1.898

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História e a Lenda de

Santiago de Compostela

De entre todos os discípulos que acompanharam Jesus Cristo, Santiago pertence ao grupo dos mais íntimos, ele esteve presente nos momentos mais importantes da sua vida. Após a morte do Profeta, Santiago participa na evangelização da palestina. Faz parte, com os outros apóstolos, do núcleo central da Igreja primitiva de Jerusalém antes de ser decapitado por ordem de Hérodes Agripppa, neto de Heródes O Grande, aproximadamente em 44 dc, sendo o primeiro apóstolo mártir.

A tradição atribui a Santiago a evangelização da Espanha. Partindo da Palestina ele terá chegado num barco de transporte de Ouro e Estanho, comércio que se desenvolvia nessa época entre a Galiza e a Palestina, à Andaluzia, onde iniciaria a sua pregação até chegar a Iria Flavia (actual Padrón). O seu regresso à Terra Santa seria feito pela via romana de Lugo que atravessa a península passando por Saragoça, dirigindo-se para Valença de onde embarcaria para reentrar na Palestina.

Contudo, sobre este episódio nunca foi encontrado nada escrito pelo que muitos e reconhecidos historiadores medievais duvidam da sua veracidade.
O Breviarium Apostolorum, um registo de biografias dos apóstolos, redigido em Grego e posteriormente restaurado em Latim, fornece um detalhe importante sobre a descoberta do túmulo de Santiago na Galiza o que contribuiria para o nascimento do santuário e das peregrinações.

Após o seu martírio o corpo de Santiago foi, segundo a lenda, transportado por dois dos seus discípulos e enterrado nos confins da Galiza. A sepultura é descoberta no reinado de Alonso II (759-842). A partir do século IX encontram-se alusões a este acontecimento. Porém, não há certezas quanto à data da descoberta do sepulcro apostólico, mas a maioria das fontes católicas apontam datas entre 813 e 820.

A lenda conta que um ermitão do bosque de Libredón, de nome Pelágio (ou Pelaio), observou durante algumas noites seguidas uma “chuva de estrelas” sobre um monte do bosque. Avisado das luzes, o bispo de Iria Flávia,

Teodomiro, ordenou escavações e encontrou uma arca de mármore com os ossos do santo e dos seus discípulos. Informado, o Rei das Astúrias mandou construir 3 Igrejas no lugar indicado, dando-se início às primeiras peregrinações.
Em 872 Afonso III, perante o número crescente de peregrinos manda construir uma majestosa Igreja no lugar da primitiva. Paralelamente, a reputação das peregrinações a Santiago levaria à mudança da sede episcopal de Iria Flavia para Compostela.
Em 951 é registado o primeiro peregrino estrangeiro, na pessoa do Bispo de Puy, Goldescalc.

Os Franceses são os primeiros peregrinos estrangeiros a deslocarem-se ao túmulo do apóstolo no século XI, na segunda metade desse século o carácter internacional afirma-se com a chegada de Alemães e dos primeiros Ingleses.

Nesse tempo a Galiza metamorfoseia-se em Palestina Ocidental.

Contudo, após ter sido um fenómeno religioso durante a idade média, as peregrinações a Santiago conhecem uma progressiva erosão a partir do século XIV, parando mesmo no século XVII por falta de peregrinos. No século XX dar-se-ia o renascer das peregrinações fazendo com que Santiago de Compostela seja o 3.º lugar Santo do cristianismo após Jerusalém e Roma.

Os Caminhos de Santiago

O Caminho de Santiago tem 7 rotas históricas: o Caminho Francês, o Caminho do Norte, a Vía de la Plata, a Rota Marítimo fluvial, o Caminho Inglês, o Caminho Primitivo e o Caminho Português. Para alem destas rotas existe ainda o Caminho de Finisterra que faz a ligação entre a cidade de Santiago e Finisterra.

O Caminho Português

Em rigor não se pode apontar apenas um Caminho Português, antes da marcação do Caminho pelas várias associações e entidades competentes – o que só começou a acontecer nos últimos anos: não havia nem início, nem um percurso definido. Há vários relatos de peregrinos que viajaram para Santiago do sul do nosso país, mas ainda não foi feito o levantamento de nenhum percurso a Sul de Lisboa embora saibamos que existiam.

A partir de Lisboa podemos falar de dois grandes Caminhos que atravessam o país de Sul a Norte, um na costa e um no interior. De Lisboa seguem em direcção a Coimbra (existem duas variantes por Tomar – que corresponde, até Santarém ao Caminho do Tejo – ou por Leiria).

Em Coimbra existem também duas alternativas, pelo interior (por Viseu e Chaves que sai de Portugal em Feces de Abaixo e se junta à Via da Prata em Verin), ou pela costa (em direcção ao Porto).

No Porto temos opção entre Barcelos e Braga. Em Braga segue para Ponte de Lima ou para a Portela do Homem, em Barcelos segue para Viana do Castelo ou para Ponte de Lima. De Ponte de Lima segue para Ponte da Barca e Vilarinho das Furnas ou para Valença.

Existe ainda uma outra alternativa entre Caminha e Vila Nova de Cerveira.
A sinalização do Caminho é feita com setas amarelas e placas de identificação (não confundir com as setas azuis que marcam o Caminho de Fátima).
A via da Prata passa também por Portugal mas não podemos considerar o Caminho Leonês como um Caminho Português.

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Lenda de Nossa Senhora de Cárquere

O culto de Nossa Senhora de Cárquere, em terras de Egas Moniz, actualmente no concelho de Resende-Douro Sul, já se fazia na época anterior à nacionalidade, em que D. Rodrigo perdeu a Espanha para os Mouros, e sendo provavelmente muito mais antiga. Durante a invasão moura, a pequena imagem da Senhora foi escondida num carvalho oco, juntamente com uma caixa de relíquias, os sinos da ermida e uma cruz de prata. Estes objectos foram aí esquecidos.

Muitos anos depois, nasceu D. Afonso Henriques com um grave problema de saúde: o pequeno infante não tinha acção nas pernas, dos joelhos para baixo. O seu aio, Egas Moniz, teve um sonho em que lhe apareceu Nossa Senhora: a Virgem mandou-o ir a Cárquere e cavar em  determinado local, onde encontraria os restos da ermida e a sua imagem.
Deveria então mandar construir uma nova igreja e sobre o altar colocar o infante, passando aí uma noite de vigília.

A construção terminou quando D. Afonso Henriques tinha cinco anos e as indicações da Virgem foram cumpridas. No dia seguinte, o infante andou e correu como uma criança saudável.
O conde D. Henrique, perante este milagre, agradeceu à Virgem mandando construir, junto à igreja, um mosteiro, que doou aos cónegos regrantes de Santo Agostinho.

Ver mais em: Altino M Cardoso – D. AFONSO HENROQUES – OS MISTÉRIOS E A LÓGICA (2011) e Altino M Cardoso – D AFONSO HENRIQUES – A LÓGICA SEM MISTÉRIOS (2022 – em publicação

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Lenda do 25 de Abril (Mosteiro de S. João de Tarouca)

Depois de D. Afonso Henriques lhes ter dado o terreno solicitado pelo abade João, e ainda o couto, os monges brancos de Cister vão para Tarouca e, no dia 25 de Abril, foi-lhes dado a um sinal indicativo do local preciso onde deviam construir o seu convento, como narra o “Exordium Cistercii”:
…bonus Princeps Alfonsus Portugalensium Rex, a quo Abbas Joannes postulavit locum in quo Monasterium construeret, et Princeps supradictus dedit ei, et monachis qui cum eo ibant supradictam chartam, et cautum.
Tendo localizado o sítio ideal, chegaram às margens do Varosa, onde no dia 25 de Abril lhes aconteceu algo de estranho e milagroso:
Inito enuto sic accepto rederunt iuxta fluvium Varosa, et in declive montis construunt sacellum, ubi per aliquot dies permanserunt in oratione, Dei sperantes misericordiam suam, ut opere ad impleret quod promiserat servo suo Bernardo, et quodam nocte die 25 Aprilis frater Boemundus dum coelum aspicit, micantem radium in imo vallis iuxta fluvium conspicit.
Do céu viram cair um sinal luminoso que se repetiu durante toda uma semana (…)
et sic per septem alias noctes mirantibus reliquis,
indicando um lugar, onde, na sua opinião, deveriam construir o seu mosteiro
qui vocati ab ipso eundem radium videbant el credentes quod hoc erat signum ostensum a Deo, ut monasterium construerent.
Rapidamente, foi avisado o abade João (Cirita?) para participar e testemunhar o milagre, que reforçaria a transcendência do alvo.
scribunt omnia Abbati Joanni, qui tunc erat in Romitorio de Lafun (…). His transactis dum fratres obtemperam Abbati Joanni, iterum lux imicat in pristino loco, quem fratres deligenter consignaverunt, et vallarunt, et paucis posi diebus venii Abbas, et cum esset in oratione apparvit similis lux (:..).
De novo, marcharam todos em busca do rei que, por aqueles tempos, se tinha passado a Braga,
dominum Regem, qui erat in Bracara.
Explicando o milagre, pediram-lhe aquele lugar para construir o seu novo lar.
O monarca, feliz com os acontecimentos, tudo lhes deu:
et ipse Rex fecit illis bonam acolnensam, et dedit eis facultarem construendi monasterium, et ipsi venerunt, et caeperunt facere,
doando-lhes igualmente dinheiro (Rex dedit septuaginta quatuor frisantos de argento.)
Egas Moniz, grande terratenente da comarca taraucense, não foi menos generoso que o seu senhor e também lhes forneceu uma importante soma:
Egas Moniz pro auditorio, et servitio Dei dedit illis septuaginta marabetinos auri.
Concluída a primeira fase da instalação dos monges cistercienses nas margens do Varosa, o Exordium Cistercii continua a sua narração, explicando que, pouco depois, os mouros atacaram a vila de Trancoso (Post paucos dies Mauri venerunt, et depopulaverunt Trancosum). D. Afonso Henriques, temeroso de que esta surtida muçulmana pudesse desencadear males maiores, aprestou logo seus exércitos para repelir a sua investida.
Passaram seus soldados por Lamego ao encontro do inimigo (et ipse Rex cum suis cohortibus venit per Lamecum) e, quando atravessaram as margens do Varosa, recordou-se D. Afonso Henriques da existência daqueles monges brancos estrangeiros ali perto.

Pediu-lhes que um deles acompanhasse a sua empresa guerreira, orando a Deus pelas hostes, celebrando missas e administrando sacramentos:
et iransibal iuxta Varosam, el recordaius esl frairum qui cranl in illis locis (…) el rogmil ut millereni cum co frairem Adeberium, ul oraret Dominum pro sua hoste, el miserunl eum, et unam crucem, el unum calicem, ut celebraret, quia sacerdos erat.
Adalberto foi o escolhido, pois possuía a ordem de presbítero, e a sua acção foi tão bem conduzida que o Rei lhes concedeu a construção do próprio mosteiro.

Ver mais em: Altino M Cardoso – D. AFONSO HENROQUES – OS MISTÉRIOS E A LÓGICA (2011) e Altino M Cardoso – D AFONSO HENRIQUES – A LÓGICA SEM MISTÉRIOS (2022 – em publicação)

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Lenda de Moura Morta

A freguesia de Mouramorta (Peso da Régua) é objecto de uma lenda: trata-se de uma moura ali assassinada pelos Templários, por não querer renunciar ao Crescente e abraçar a Cruz. A lenda explica o nome: Mouramorta.
A Princesa morava num castelo, em Cidadelhe. Um Emir, por tacto político, aconselhou-a a receber o baptismo para não ser morta pelos impiedosos templários; mandou-a mesmo encerrar numa torre, tendo a princesa fugido. Por aqueles caminhos agrestes acima, foi ter a um penhasco próximo do sítio onde actualmente se situa a freguesia de Moura Morta, ali tendo morrido, varada pelos ferros nazarenos. Acabou é como quem diz: ficou encantada. Na manhã de S. João há quem a tenha visto a pentear-se e a expor o ouro no cume do penhasco.
Assim, as origens da freguesia de Moura Morta, estrategicamente situada entre a serra do Marão e o Douro, são muito antigas, ainda do tempo em que ainda coexistiam mouros e cristãos. É provável que os Templários se tenham aí estabelecido até 1319, altura em que D. Dinis, por ordem do Papa Clemente V, dissolveu a Ordem de Malta.
São vários os vestigios da presença árabe ao longo do rio Douro (ver: GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO, III):
– Arquitectonicos (castelo, muralha e cisterna de Lamego, túmulo moçárabe de Cinfães, castelo de Penedono…);
– Usos e costumes (manifestações sociais populares, símbolos, barco rabelo, cultura da oliveira e da vinha, socalcos, lendas e historias de mouras encantadas…);
– Toponímia: Montemuro (Monte Mouro?), Almedina, Fafel, Almacave, Almofala, S. Martinho de Mouros, Fazamões, Boassas, Açougues, Arribada, Alcáçova, Alqueives, Arrabaldes, Barbeita…).

Mouramorta englobava os lugares que, pelo lado nascente, se estendiam até Ariz (hoje em Jugueiros-Godim-Peso da Régua), os quais lhe foram desanexados, dando origem à actual freguesia de Loureiro.
Situada nas encostas que, do Douro levam à serra do Marão, Mouramorta ostenta a Ponte Medieval de Cavalar, as ruínas da Casa da Ordem de Malta e, também, as da Câmara e da Cadeia, pois chegou a ser vila e concelho, com foral de D. Manuel em 1514. Cidadelhe fica a menos de uma légua a sul, descendo, por caminhos ínvios e passando a ponte Cavalar em Vilamarim, em direcção ao rio Douro.

Ver mais em: Altino M Cardoso – D. AFONSO HENROQUES – OS MISTÉRIOS E A LÓGICA (2011) e Altino M Cardoso – D AFONSO HENRIQUES – A LÓGICA SEM MISTÉRIOS (2022 – em publicação)

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Lenda da Princesa Ardínia

Lê-se em Fr. Bernardo de Brito, historiador de Alcobaça, que D. Tedon, tantas gentilezas fez em armas, que uma filha de Alboazan, Rei de Lamego chamada Ardínia, se enamorou de sua fama em tanto excesso, que não podendo resistira à grande força do amor, se saiu em companhia de uma colaça sua, e depois de ter caminhado alguns dias por caminhos ocultos, veio ter à ermida de São Pedro das Águias, onde estava um monge velho e de vida santíssima, chamado Gelásio, a quem descobriu quem era e ao fim para que vinha. Instrui-a o santo monge das coisas da fé e lhe deu água de baptismo prometendo-lhe servir de medianeiro com D. Tedon, para que a recebesse por mulher, assim que viesse da conquista em que andava. (…) Mas Alboazan veio escondidamente, trucidando-a e afogando-a no rio Távora, e, sendo D. Tedon sabedor disto, por amor dela não quis mais casar.
OUTRA VERSÃO – DE VÁRIAS:
Em muitas noites, noutros tempos, nos céus de Lamego, quando não havia o clarão da lua cheia, podia ver-se pairando sobre o castelo da cidade, uma alva pomba que enebriava de suave aroma todo o ambiente. Era a alma de Alcanides, a irmã colaça de Ardínia. Aquela, prodigiosamente, teria salvo os agarenos em difícil empresa. Estes, haviam enterrado na Capela de Nossa Senhora da Paz a imagem desta Senhora. D. Tedon, que teria jurado vingar a morte de Ardínia, mandou colocar a Imagem de Nossa Senhora numa balança e exigiu o seu peso em prata. Por mais metal precioso que os mouros deitassem no outro prato, a balança não se equilibrava.
Pedida a intervenção de Alcanides que estava presa nas masmorras do Castelo, como cúmplice na fuga de Ardínia, logo a presença daquela teve a arte de fazer equilibrar a balança e, assim, foram libertados os reféns de D. Tedon.
Mas ela não quis a libertação que lhe foi oferecida. Após a morte a sua alma passou a pairar sobre o castelo.

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Lenda de D. Mirra de S. Leonardo de Galafura

No lugar do Fragão, em S. Leonardo, diz-se que um rei mouro encantou a sua filha, com a seguinte fórmula:
– “Abre-te, fraga, aqui fica minha filha até ao dia em que semearem linho sobre esta rocha, fizerem com ele uma toalha e sobre ela comerem um jantar”.
Um pastor, ao ouvir isto, tratou de deitar terra sobre o fragão, semeou-lhe linho e regou-o todos os dias. Do linho fez uma toalha e lá jantou. Mas, porque não soube empregar bem a fórmula, a menina para sempre lá ficou encantada.
Uma mulher, levando de comer ao seu marido, que fazia carvão nas vertentes de S. Leonardo, encontrou uma menina muito bonita, que atava a ramagem das giestas embaraçando o caminho a quem passava. Quando esta lhe perguntou:
– Menina, que andas a fazer?
Ela respondeu:
– Desata as giestas, alcança-me e me desencantarás!
A mulher, por maior que tenha sido o seu esforço, não foi capaz.
A menina moura continua a amarrar as giestas, impedindo a passagem aos caminhantes.
OUTRA VERSÃO:
D. Mirra é uma moira encantada, que vive numa gruta (ou mina) do maciço rochoso em que assenta a ermida de S. Leonardo. Durante o dia passeia-se, invisivelmente, pelo matagal; à noite recolhe-se na gruta, cuja entrada é guardada por dois dragões – monstruosos lagartos, que habitam escondidos na montanha.
Será desencantada, um dia, pelo jovem que ouse, ao bater da meia-noite, no gélido primeiro de Janeiro, enfrentar a matar os dragões. Bela e prenhe de desejo, entregar-se-á em sôfrego acto de amor no silêncio da noite e à luz do luar.
Quebrado o encanto, a pequena gruta mostra-se como antecâmara de um luxuoso palácio subterrâneo.
Quem arriscar-se um dia a quebrar esse encanto?…
QUEM FOI SÃO LEONARDO?
Leonardo de Noblac (ou de Noblat) foi um nobre franco nascido no séc. V, no reinado do imperador Anastácio I, sendo afilhado do Rei Clóvis, com ele convertido ao Cristianismo no Natal de 496.
Destinado a ocupar um alto posto entre os nobres guerreiros francos, recusou e consagrou a vida ao serviço de Deus. Foi-lhe oferecida pelo rei a dignidade episcopal, mas Leonardo recusou, pedindo-lhe apenas autorização para visitar os presos do reino e libertar quantos quisesse.
Depois de libertar e converter os presos do norte, tomou o caminho do sul; foi detido em Limoges pelo exército do rei da Aquitânia, que lhe falou da rainha que se encontrava em trabalhos de parto havia cinco dias. Logo que Leonardo orou, ela pôs o prisioneiro que retinha no seu seio em liberdade. Como recompensa foram-lhe dados terrenos na Floresta de Pauvan, onde foi construída uma capela, dedicada a Nossa Senhora, e mais tarde um mosteiro a que Leonardo deu o nome de Noblac, em torno do qual se ergueu a cidade de Saint-Léonard-de-Noblat na Haute-Vienne, actualmente Património Mundial da UNESCO e atravessada também por um dos muitos caminhos de Santiago.
S. Leonardo é o patrono dos presos e das parturientes. O único templo, de estilo romano-gótico, dedicado a este santo, em Portugal, encontra-se em Atouguia da Baleia, perto de Peniche, erigido durante o século XIII. Conta a tradição, que ao tempo do repovoamento das terras de Tauria (grande porto de pesca), um barco que se dirigia para cá com um carregamento de prisioneiros se afundou à entrada do porto, salvando-se todos os presos. Estes traziam a bordo, uma imagem de S. Leonardo que também se salvou com eles. Agradecidos de tão grande milagre, resolveram construir a linda igreja, a única dedicada a S. Leonardo, não existindo mais nenhuma paróquia com este nome. A festa é a 6 de Novembro, na Vila de Atouguia.
Em Galafura, concelho de Peso da Régua, no miradouro do alto do monte, existe a capela dedicada a São Leonardo. A maravilhosa paisagem que dali se avista serviu de inspiração a Miguel Torga para o célebre poema homónimo, do seu Diário IX.

Ver mais em: Altino M Cardoso – D. AFONSO HENROQUES – OS MISTÉRIOS E A LÓGICA (2011) e Altino M Cardoso – D AFONSO HENRIQUES – A LÓGICA SEM MISTÉRIOS (2022 – em publicação

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Lenda de Britiande – versão 1 (da Câmara)

“como coração ou cabessa de toda ella, fundou esta sempre nobre e leal villa de Britiande, cujo nome se diz, sertamente por tradição, que en seus abitadores corre, que nasceu de que, passando, por o sitio donde hoje está, o grande conde Dom Enrrique en seguimento dos Mouros, sucedeo meter húa pedra antre a ferradura da mão do cavalo em que hia e advertindo Egas Monis, que sempre o acompanhava, que esperasse para se tirar aquella pedra, respondera lhe dizendo ‘Brite e ande’, donde o dito fundador tomou ocasião para lhe por o dito nome de Britiande con que ficou em nobrecida por seu fundador e pela ocazião do nome com que foi sempre conhecida por ser pátria de muitos e grandes sugeitos que em ella tem nascido”.

Lenda de Britiande – versão 2 (Aquilino e Almeida Fernandes)

Chama-se assim porque quando D. Afonso Henriques ali passou à frente das tropas, havia nozes pelo chão. Vinha com pressa, mas os soldados arregalaram o olho. E ele deu esta ordem: Brite e ande».
Também o filólogo José Pedro Machado, Dicionário Onomástico, I, p. 286, apesar de aludir à filiação antroponímica germânica, não teve escrúpulo, em obra científica, de referir uma tal «explicação», sem minimamente a refutar: também dá por isso a ideia de admiti-la – sendo, pelo menos, cúmplice na sobrevivência do multifário disparate.
A.A.Fernandes – A História de Britiande

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Lenda dos Távoras

A tradição diz que os irmãos D. Tedo e D. Rausendo, os protagonistas desta lenda, que se terá passado em 1037, eram descendentes de Ramiro II de Leão. Os corajosos irmãos já há muito tempo tentavam tomar o castelo de Paredes da Beira que estava na posse do emir mouro de Lamego, sem qualquer sucesso. Mas um dia, esgotados todos os outros recursos, D. Tedo e D. Rausendo decidiram usar a astúcia para conseguirem apoderar-se da fortaleza. Numa manhã do dia de S. João em que os mouros saíam habitualmente do castelo para se banharem nas águas do Távora, os dois irmãos e o seu exército disfarçados de mouros prepararam uma emboscada e entraram no castelo, matando a maior parte dos mouros que lá tinham ficado. Avisados por alguns mouros que tinham conseguido fugir do assalto, os que festejavam no rio prepararam-se para voltar ao castelo, mas foram atacados e dizimados no rio por D. Tedo e os seus guerreiros. O vale do rio onde se travou a sangrenta luta ficou a ser chamado por Vale do Amil em lembrança dos mouros que tinham sido mortos aos mil. A lenda diz que os dois irmãos tomaram a partir da batalha o apelido de Távora, em memória do rio onde se tinha desenrolado a vitória.
Adoptaram nas suas armas um golfinho sobre as ondas simbolizando D. Tedo que, com o seu cavalo, tinha vencido os Mouros nas águas do rio.
O topónimo do Concelho deriva da importante “pesqueira” no rio Douro, à qual fazem alusão documentos antigos, relacionados com a Ordem de Cister e S. Pedro das Águias. Ainda mais antigo é o povoamento, que remonta a tempos ancestrais, que deixaram inúmeros vestígios arqueológicos de diversos castros e castelos: Castro de Paredes da Beira, Castelo Velho, Castelos da Chã, de Reboredo, da Fraga de Alcaria, de Chã de Trovisco, Castelo Alto, Castelinho, Castelos de Gramejo, da Senhora do Monte, da Cocheira, Monteiras, da Sra. Do Viso e do Vento…
O Vale do Amil, que a lenda refere, é hoje referido pela abundância de espécies cinegéticas, que atrai caçadores de diversas áreas circundantes.
Afonso III das Astúrias conquistou a Vila acastelada aos mouros. O primeiro Foral da Vila é já do reinado de Fernando “O Magno”, entre 1055 e 1065 – portanto um dos mais antigos do país. Outros forais ou confirmações: D. Afonso Henriques ainda Infante, em 1110, D. Sancho I em 1198, D. Fernando em 1376 e, ainda, D. Manuel I, no ano de 1510.
A poderosa linhagem de D. Pedro Ramires, dos ricos-homens de Ribadouro, deteve terras nesta região, tendo o couto de S. Pedro de águias ultrapassado os limites do actual Concelho.
Soutelo do Douro, Várzea de Trevões, Paredes da Beira, Trevões, Valongo dos Azeites e Ervedosa do Douro foram, outrora, “Villas” e terras importantes do “Julgado de Sanhoane (S. João) de Pescarias”, apesar de Paredes e Trevões terem tido julgados próprios.
A Casa de Távora foi uma das mais ilustres Casas nobiliárquicas portuguesas. O apelido deriva do Rio Távora, ou de uma vila ribeirinha com o mesmo nome, como sugerem as ondas desenhadas no brasão. A expansão da família Távora terá tido origem na vila de Trancoso, e posterior fundação da aldeia de Souro Pires, em Pinhel, onde existe um belo solar senhorial, construido no final do seculo XV por Soeiro Peres de Távora, e que representa o mais importante exemplar de um solar senhorial em Portugal.
Esta família tem origens antiquíssimas, que alguns estudos genealógicos fazem remontar a um dos filhos de Ramiro II, Rei de Leão. O primeiro Senhor de Távora é Rozendo Hermingues, um nobre hispânico que viveu algures nos finais do século XI, principios do século XII. O senhorio do morgado de Távora permanece na linha varonil desta casa. O hexaneto de Rozendo Hermingues é Lourenço Pires de Távora (c.1350-?), 8º Senhor de Távora, cavaleiro do Reino de Portugal e Senhor do Minhocal e do Couto de S. Pedro das Águias por mercê do Rei D. Pedro I. Diz-se, mesmo, que foi esta nobre família trasmontana a fundadora do Mosteiro de S. Pedro das Águias.
É curiosa a explicação regionalista do ódio lendário aos Távoras, por parte do Marquês de Pombal:
Sebastião José (mais tarde primeiro-ministro de D. José), em menino e moço, estudou no convento franciscano de S. João da Pesqueira, onde um tio padre ministrava lições de Latim. O namoro e desejado enlace matrimonial entre Sebastião, filho de gente humilde (plebeia), e a formosa e rica descendente dos prestigiados Távoras foi radicalmente proibido. Daqui a tremenda vingança passional do moço, carrasco dos marqueses, quando chegou a ministro plenipotenciário.

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Lenda da Praga de D. Teresa

Depois da Batalha de São Mamede (1128), em que foi derrotada pelo filho, D. Afonso Henriques, D. Teresa de Leão é presa e acorrentada com ferros nos pés. Nessa altura roga ao filho a seguinte praga: “D. Afonso Henriques, meu filho, prendeste-me e puseste-me a ferros. Tiraste-me a terra que me deixou o meu pai e separaste-me do meu marido [2º marido, Fernão Peres de Trava]. Rogo a Deus que venhas a ser preso assim como eu fui. E porque puseste ferros nos meus pés, quebradas sejam as tuas pernas com ferros. Manda Deus que isto seja !”.
Assim se justificaria o acidente que o primeiro rei sofreu em Badajoz, no qual partiu uma perna, aos sessenta anos, já na parte final do seu reinado.
A tradição também comenta que ela não tinha qualquer autoridade moral para pedir a Deus uma coisa dessas: com a mancebia com os dois Travas galegos, elã tinha posto em perigo a independência do território e a própria herança do filho – o que tinha sido dado à mãe e o que foi conquistado pelo pai, o Conde D. Henrique.
A tradição acrescenta, ainda, que D Afonso Henriques era santo e estava imune a pragas. Com a perna partida em Badajoz, Deus apenas quis castigá-lo por alguns pequenos pecados, próprios de um homem: o orgulho, as mulheres...

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Lenda do Zé do Telhado

É célebre uma ‘lenda’ passada com o Zé do Telhado – que actuava mais ou menos naquela zona de Egas Moniz (Baião-Amarante-Mesão Frio e Cinfães-Resende-Castro Daire-Lamego:
Pelos caminhos das aldeias dessas serras, andava um homem a pedir, com o ar mais desgraçado do mundo. Mas corria o boato de que era um fingido e teria, até, um bom pecúlio escondido debaixo de umas fragas numa serra ali perto.
Ora esta situação chocava com as preocupações morais do Zé do Telhado, que tinha como ponto de honra proteger os pobres dos maus tratos e da avareza dos ricos.
Numa noite de luar encontrou-o e resolveu tirar as coisas a limpo. Palavra daqui, palavra dali, o mendigo, já com um grão na asa, não mediu o perigo e ofendeu o Zé.
Que não puxou da faca nem do bacamarte: não valia a pena sequer sujar as mãos com esse miserável velho sebento. Tirou-lhe o próprio pau de caminhante e deu-lhe umas valentes porradas no serro.

Eis senão quando… o chão fica a tilintar de belas libras amarelinhas! O pau, afinal, era uma cana bem grossa que estava recheada de libras.
… bem, o velho pôde ficar com uma, mas, como castigo – para quando olhasse para ela se lembrar do malandro que tinha sido, enganando as pessoas pobres, obrigadas a trabalhar de sol a sol, mas que, por caridade cristã, lhe davam às vezes o que lhes fazia falta.

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Lenda da Caninha Verde

Em tempos que já lá vão, nos primeiros tempos da Reconquista, vivia num palácio em Fataunços, perto de Vouzela, o nobre guerreiro El Haturra, descendente do famoso chefe mouro Cid Alafum (em que entronca o actual topónimo Lafões). El Haturra era velho e feio e nunca era visto sem a sua bengala, uma velha cana que vinha sendo transmitida na sua família, de geração em geração, entregue ao seu novo possuidor com umas palavras misteriosas…
Ora, o facto de El Haturra se fazer acompanhar por aquela cana negra e ressequida era objecto de troça de todos, a tal ponto que um seu amigo, o jovem português Álvaro, o aconselhou a desfazer-se dela. El Haturra confidenciou-lhe, então, que a vara tinha magia e que se um dia chegasse a ficar verde era o sinal sagrado do profético encontro de dois primos descendentes de Cid Alafum. Nesse dia esperado, as terras e os tesouros do antigo chefe mouro voltariam à posse da família e as formosas mouras seriam desencantadas. Uma condição essencial era que ambos os descendentes professassem a religião de Alá.
Um dia, passeavam El Haturra e o seu amigo Álvaro pelo campo, quando viram uma linda princesa, acompanhada por uma formosa aia, de cabelo negro e olhos azuis, que cavalgava um cavalo negro. De repente, a vara começou a ficar verde e El Haturra começou a rejuvenescer, tornando-se jovem e belo.
Ao primeiro olhar, El Haturra tinha reconhecido na aia a descendente de Cid Alafum e, juntamente com Álvaro, saiu atrás das duas jovens que se dirigiam à corte do rei de Portugal.
Diz a lenda que El Haturra conseguiu convencer a jovem aia a casar-se com ele e o rei de Portugal abençoou a união com uma condição: o baptismo de El Haturra. De início, o agora jovem El Haturra opôs-se veemente, mas por fim a sua paixão foi mais forte e aceitou o desejo real.

O baptismo ficou marcado para o dia do casamento e foi então que aconteceu algo de extraordinário: no momento em que estava a ser baptizado, El Haturra voltou a ser velho e feio como dantes. A magia da caninha verde só seria válida se ambos os nubentes professassem a religião de Maomé. A noiva desmaiou naquele mesmo momento e nunca mais quis ouvir falar no seu noivo que desapareceu para sempre, enquanto que a sua cana
verde foi guardada num sítio secreto.

Segundo a tradição, se alguém gritar “Viva o fidalgo da caninha verde!” no mesmo local e à mesma hora em que se deu o encontro entre os dois descendentes de Cid Alafum, ouvirá gargalhadas alegres das mouras encantadas que pensam que chegou a hora da sua libertação. [Sobre a cana verde, ver cap. III – Simbologias].

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Lenda da Senhora da Lapa

Tamanho Resultado de imagem para Sra da Lapa.: 176 x 170. Origem: fotografiaminhalma.blogspot.comDiz a lenda que a imagem de Nossa Senhora da Lapa apareceu num penedo de difícil acesso, junto às terras de Cister. Os devotos construíram-lhe um templo num local mais acessível, mas a imagem da Senhora fugia para o seu penedo sempre que a punham na nova capela.
Este facto insólito ocorreu tantas vezes que os devotos fizeram a vontade à Virgem e construíram-lhe uma capela no penedo. E a Senhora da Lapa lá está hoje, num sítio em que, para a ver, o crente tem de entrar de lado, por mais magro que seja.

Curiosamente, o crente mais gordo de lado entra sempre.
Um dos milagres atribuídos a esta Senhora é o que ocorreu com um caminhante que, adormecendo junto à capela, lhe entrou na boca entreaberta uma cobra. Aflito, o homem acordou e imediatamente invocou no seu pensamento a Senhora da Lapa. Conta a lenda que
a cobra imediatamente virou a cabeça para fora da boca, sendo depois apanhada e morta.

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Lenda do Mouro do Cabril

Beatriz era uma jovem camponesa que todos os dias pastoreava o seu rebanho junto da
ribeira do Cabril. Muito bonita, era disputada pelos jovens do lugar. Talvez fosse por isso que
ainda não se tinha decidido por nenhum, ou talvez por influência das histórias de pastoras e
príncipes encantados que a avó lhe contava.

Um dia junto à ribeira foi surpreendida por um príncipe encantado que a vinha buscar para a levar para o seu palácio de onde nunca mais
sairia. O encanto seria quebrado quando Beatriz tivesse um primeiro filho. Beatriz seguiu o seu sonho e nunca mais voltou a casa. As mulheres diziam que decerto tinha sido o mouro do Cabril que a tinha levado. Tinha fama de belo, poderoso e conquistador e noutros tempos já
tinha levado uma rapariga tão bela como Beatriz.

Passados anos, a mãe de Beatriz recebeu a visita de um mouro, que lhe pediu para ajudar Beatriz a ter o seu filho. A mãe seguiu o mouro até ao palácio encantado, prometendo sigilo contra a garantia de que o seu neto seria um homem livre. A mãe de Beatriz visitou-a durante anos, em segredo, até que um dia, em que estava marcada uma visita, o seu marido a obrigou a acompanhá-lo a uma feira numa terra vizinha. Contrariada, seguiu-o, e lá, por entre a multidão, encontrou o mouro com o seu neto ao colo. Sem se conter, deu-lhe um recado para Beatriz na presença de todos. O mouro e a criança desapareceram em fumo. A mãe de Beatriz ficou louca para sempre por causa, dizem, do desaparecimento da filha, levada pelo mouro encantado do Cabril.

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Lenda da Fundação do Mosteiro de Alcobaça por D. Afonso Henriques

Em 1147, a moura renegada Zuleiman apresentou-se nos paços de Coimbra na presença de
D. Pedro Afonso, irmão do primeiro rei de Portugal, surpreendendo o infante com a revelação que aquela seria a melhor altura para conquistar Santarém.

Zuleiman, despeitada por ter sido abandonada por Muhamed, o alcaide de Santarém, queria vingar-se dando aos cristãos as informações que tinha sobre a defesa do castelo. Entretanto, D. Afonso Henriques já tinha enviado o seu cavaleiro Mem Ramires a Santarém para estudar o inimigo; a astúcia e a cautela do cavaleiro foram fulcrais para a decisão do ataque.

Conta a lenda que foi na serra dos Albardos que o primeiro rei de Portugal fez a promessa de construir um mosteiro, se Deus lhe desse a vitória.

Mem Ramires segurou a escada contra as muralhas, por onde entraram os soldados e Santarém amanheceu cristã.

O mosteiro de Alcobaça foi construído em cumprimento de um voto do primeiro rei de Portugal, sendo (juntamente com a Batalha e os Jerónimos) uma das jóias mais preciosas do património arquitectónico português.

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ALGUMAS SUPERSTIÇÕES

Comichão: na palma da mão é sinal de dinheiro a receber. Se é na palma da mão esquerda é uma visita desconhecida. Na sola do pé é viagem ao exterior.
Objectos perdidos: para os recuperar, é dar três pulinhos para São Longuinho.
Guarda-chuva: o guarda-chuva deve ficar sempre fechado dentro de casa: abri-lo aí traz azares vários.
Brinde: se o seu copo contiver algum tipo de bebida alcoólica, não brinde com ninguém cujo copo contenha bebida sem álcool, senão os desejos serão pervertidos.
Visita: em algumas terras, quando uma mulher é recebida noutra casa por alguns dias, por estima recebe a chave da despensa.
Roupa por fora: colarinho da camisa fora da camisola: pedir alguém em casamento. Combinação a ver-se: rapariga já comprometida.
Noivos: No período de namoro, os namorados não poderiam ser padrinhos de casamento nem experimentar alianças de casamento de alguém, nem sentar ao canto de uma mesa, nem deixar varrer os pés.
É bom oferecer aos noivos um saco para guardar diariamente o pão.
Dois (duas) irmãos (irmãs) não se devem casar no mesmo dia, porque a felicidade pode “fugir” para um (a) deles (delas).
Também não poderia ver a noiva no dia do casamento: só na cerimónia.

A noiva não deve usar ouro, mas uma jóia da alguém que tenha vivido feliz, usar uma liga azul, uma coisa usada e outra emprestada, ou uma coisa nova e uma coisa velha.
Dá sorte atirar com arroz aos noivos e eles oferecerem lembranças de agradecimento aos convidados.
Finalmente, chegando à sua nova casa o noivo deve levar a noiva ao colo, deitando-se numa cama feita “à espanhola” e com uns grãozinhos de açúcar, simbolizando o princípio de uma nova etapa da vida, o matrimónio.
A lua-de-mel parece fugir às superstições: surgiu na antiguidade com este nome porque quando os casais se casavam e iam para casa na noite de núpcias, os vizinhos e parentes desenhavam uma lua, ou um coração, com mel na porta da casa para dar sorte com a ejaculação.

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 Ver mais sobre este assunto em:

https://amadora-sintra-editora.pt/produto/cantigas-da-vinha/

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https://amadora-sintra-editora.pt/produto/rimances-durienses/

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PROVÉRBIOS DURIENSES

(GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO, Vol III, pg. 1.884)

A cultura e experiências da vida eram transmitidas oralmente de geração em geração e sem necessidade de escolaridade organizada, embora existissem escolas particulares da Igreja: presbiteriais, monacais, episcopais… depois universitárias. A Universidade de Bolonha, fundada em 1088, é a primeira universidade da Europa: ministrava Direito, Medicina e Teologia. A Universidade de Coimbra foi fundada por D. Dinis em 1288 e é a primeira de Portugal).

Os dados da sabedoria experimental popular, sobretudo a rural, era transmitida ritmicamente, com rimas e versos (ritmos).

As temáticas são muito abrangentes ou diversificadas: a alimentação, a economia, a religião, a saúde, as relações humanas, o amor, o namoro, o casamento e os filhos, a guerra e a paz, a meteorologia e a agricultura, a vida e a morte, enfim…

A estabilidade doméstica da Mulher confere-lhe um estatuto cultural muito honroso, que perdura no dito universalmente aceite: “Quando morre uma Velha é uma Enciclopédia que se vai”. Esta ‘enciclopédia’… era analfabeta; mas, se não sabia ler, sabia ‘estreler’ (= tresler, ler de trás para a frente), pois “para bom entendedor meia palavra basta”.

As histórias da literatura verificam que esta técnica da transmissão ancestral rítmica e de prática oral (e mesmo a poesia em geral) é muito anterior ao aparecimento da prosa, fragilizada pela falta da musicalidade da rima e do ritmo. Ainda que seja provável a existência de formas rítmicas historicamente anteriores (a exemplo dos Salmos e outros textos bíblicos), os primeiros documentos literários conservados pertencem precisamente à lírica galego-portuguesa, desenvolvida entre os séculos XII e XIV.

Em Portugal os provérbios (ritmados, rimados e orais) e a literatura galego-portuguesa (poesia, música, trovadores…) situam-se comprovadamente nos contextos de Santiago de Compostela, que em meados do século XI já se havia tornado um lugar pan-europeu de peregrinação. Esse estatuto ainda (séc XXI !) hoje se mantém, apoiado pelas organizações dos Jacobeus (Jacob = Tiago).

A prosa, por seu lado, desenvolveu-se apenas durante o século XVI, integrada nas dinâmicas do Renascimento e centrada sobretudo na prosa histórica e científica, as crónicas de viagens (a Expansão iniciou-se em 1415) e os textos religiosos, moralistas e filosóficos.

É lícito, portanto, concluir que a sabedoria popular (moralista, utilitária…) expressa em Provérbios
Adágios, Ditados, Máximas, Aforismos e Frases Feitas (em forma rimada, para melhor fixação) antecipou em vários séculos a prosa (também utilitária) do próprio Renascimento – embora funcionassem alguns textos interinos específicos do mundo eclesiástico.

Os rimances populares medievais (ver neste Site), transmissores de Lendas, Fait-divers… e geralmente monórrimos, musicados ou não, também reforçam os parâmetros da prioridade da Poesia sobre a prosa.

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EXEMPLOS DE PROVÉRBIOS

Amigos:
A conselho amigo, não feches o postigo.
A falta do amigo há-de-se conhecer mas não aborrecer.
Amigo diligente, é melhor que parente.
Amigo disfarçado, inimigo dobrado.
Amigo que não presta e faca que não corta: que se percam, pouco importa.
Amigo verdadeiro vale mais do que dinheiro.
Amigo, vinho e azeite o mais antigo.

Amor:
Amor com amor se paga.
Amor de pais não há jamais.
Amor querido, amor batido.
Amores arrufados, amores dobrados.
As sopas e os amores, os primeiros são os melhores.
Escândalo aparta amor.
Filho sem dor, mãe sem amor.
Mais se tira com amor do que com dor.
Mãos frias amores todos os dias.

Dinheiro:
A quem do seu foi mau despenseiro, não fies o teu dinheiro.
Amigo verdadeiro vale mais do que dinheiro.
Calças brancas em Janeiro, sinal de pouco dinheiro.
Com a mulher e o dinheiro, não zombes companheiro.
Dinheiro compra pão, mas não compra gratidão.
Dinheiro e santidade, a metade da metade.

Tolos:
A vaidade é o espelho dos tolos.
Ao bebado e ao tolo, dá-se o caminho todo.
Com papas e bolos se enganam os tolos.
Quem deixa o certo pelo incerto, ou é tolo ou pouco esperto.
Quem não se ri ao mês, ou é tolo ou quem o fez.
Quem parte e reparte e fica com a pior parte, ou é tolo ou não tem arte.

Guerra:
Em tempo de guerra todo o buraco é trincheira.
Em tempo de guerra, não se limpam as armas.
Não há guerra de mais aparato do que muitas mãos no mesmo prato.
Quando se declara a guerra, o Diabo alarga o Inferno.
Quem compra terras, compra guerras.
Quem vai à guerra, dá e leva.
Vem a guerra, vai a guerra, fica a terra.

Economia:
É tarde para economia, quando a bolsa está vazia.

Carnaval (Épocas do ano)
Carnaval na eira, Páscoa à lareira.
No Carnaval nada parece mal.
Entrudo borralheiro, Páscoa soalheira.
Não há Entrudo sem Lua Nova nem Páscoa sem Lua Cheia.
Quem quiser o alho cachapernudo, plante-o no mês do Entrudo.

São Martinho:
A cada Bacorinho, vem seu S. Martinho (11/11).
Não há bacorinho sem seu S. Martinho.
No dia de S. Martinho (11/11) vai à adega e prova o vinho.
No dia de S. Martinho (11/11), mata o teu porco e prova o teu vinho.

No dia de S. Martinho (11/11): lume, castanhas e vinho.
Pelo S. Martinho (11/11) todo o mosto é bom vinho.
Pelo S. Martinho, deixa a água pró moinho.
Quem bebe no S. Martinho (11/11), faz de velho e de menino.
Queres pasmar o teu vizinho? Lavra e esterca p’lo S. Martinho.
Se o Inverno não erra caminho, têmo-lo pelo S. Martinho.

Horta:
Em Março, esperam-se as rocas e sacham-se as hortas.
Tão ladrão é o que vai à horta, como o que fica à porta.

Janeiro:
A Pescada de Janeiro, vale um carneiro.
Aproveite Fevereiro quem folgou em Janeiro.
Calças brancas em Janeiro, sinal de pouco dinheiro.
Cava fundo em Novembro para plantares em Janeiro.
Chuva em Janeiro e não frio, dá riqueza no estio.
Comer laranjas em Janeiro, é dar que fazer ao coveiro.

Fevereiro:
Água de Fevereiro, mata o Onzeneiro.
Ao Fevereiro e ao rapaz, perdoa tudo quanto faz.
Aproveite Fevereiro quem folgou em Janeiro.
Em Fevereiro, chega-te ao lameiro.
Em Fevereiro, chuva; em Agosto, uva.
Fevereiro é dia, e logo é Santa Luzia.
Fevereiro enxuto, rói mais pão do que quantos ratos há no mundo.

Março:
Bodas em Março é ser madraço.
Em Março, esperam-se as rocas e sacham-se as hortas.
Em Março, tanto durmo como faço.
Inverno de Março e seca de Abril, deixam o lavrador a pedir.
Março duvidoso, S. João farinhoso.
Março, marçagão, manhãs de Inverno e tardes de Verão.
Nasce erva em Março, ainda que lhe dêem com um maço.
Páscoa em Março, ou fome ou mortaço.
Poda-me em Janeiro, empa-me em Março e verás o que te faço.

Abril:
Abril frio e molhado, enche o celeiro e farta o gado.
Abril, Abril, está cheio o covil.
Em Abril águas mil.
Em Abril queima a velha o carro e o carril.
Em Abril, cada pulga dá mil.
Em Abril, lavra as altas, mesmo com água pelo machil.
Em Abril, vai onde deves ir, mas volta ao teu covil.

Maio:
A ignorância e o vento são do maior atrevimento.
As favas, Maio as dá, Maio as leva.
Boa cepa, Maio a deita.
Chovam trinta Maios e não chova em Junho.
Em Maio queima-se a cereja ao borralho.
Em Maio, já a velha aquece o palácio.
Em Maio, nem à porta de casa saio.

Junho:
Chovam trinta Maios e não chova em Junho.
Chuva de Junho, peçonha do mundo.
Dezembro com Junho ao desafio, traz Janeiro frio.
Feno alto ou baixo, em Junho é cegado.
Junho calmoso, ano formoso.
Junho floreiro, paraíso verdadeiro.
Junho, dorme-se sobre o punho.
Junho, foice em punho.
Maio frio e Junho quente: bom pão, vinho valente.

Julho:
Água de Julho, no rio não faz barulho.
Deus ajudando vai em Julho mereando.
Julho quente, seco e ventoso, trabalha sem repouso.
Não há maior amigo do que Julho com seu trigo.
Nevoeiro de S. Pedro, põe em Julho o vinho a medo.
Quem em Julho ara e fia, Ouro cria.

Agosto:
Quem quiser ver o seu marido morto, é dar-lhe caldo de berças em Agosto

Setembro:
Agosto tem a culpa, e Setembro leva a fruta.
Em Setembro, ardem os montes, secam-se as fontes.
Nuvens em Setembro: chuva em Novembro e neve em Dezembro.
Setembro, ou seca as fontes ou leva as pontes.

Outubro:
Em Outubro sê prudente: guarda pão, guarda semente.
Em Outubro, o fogo ao rubro.
Em Outubro, paga tudo.
Logo que Outubro venha, procura a lenha.
Outubro meio chuvoso, torna o lavrador venturoso.
Outubro quente traz o diabo no ventre.

Novembro:
Cava fundo em Novembro para plantares em Janeiro.
Em Novembro, prova o vinho e planta o cebolinho.
Nuvens em Setembro: chuva em Novembro e neve em Dezembro.
Tudo em Novembro guardado; em casa ou arrecadado.

Dezembro:
Dezembro com Junho ao desafio, traz Janeiro frio.
Dezembro frio, calor no estilo.
Em Dezembro, treme de frio cada membro.
Nem em Agosto caminhar, nem em Dezembro marear.
Nuvens em Setembro: chuva em Novembro e neve em Dezembro.

Inverno:
Dos Santos ao Natal, é Inverno natural.
Inverno de Março e seca de Abril, deixam o lavrador a pedir.
Março, marçagão, manhãs de Inverno e tardes de Verão.
Nem no Inverno sem capa, nem no Verão sem cabaça.
O Verão colhe e o Inverno come.
Primeiro de Agosto, primeiro de Inverno.
Se a Senhora das Candeias (02/02) rir, está o Inverno para vir.

Tempo:
Alto mar e não de vento, não promete seguro o tempo.
Assim como vires o tempo de Santa Luzia ao Natal, assim estará o ano mês a mês até final.
Bom é saber calar até ser tempo de falar.
Cesteiro que faz um cesto faz um cento, dando-lhe verga e tempo.
Em tempo de Figos, não há amigos.
Em tempo de guerra todo o buraco é trincheira.
Em tempo de guerra, não se limpam as armas.
Gaivotas em terra temporal no mar.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Trabalho:
Do trabalho e experiência, aprendeu o Homem a ciência.
Filhos criados, trabalhos dobrados.
Homem folgazão, no trabalho sonolento.
Não há atalho sem trabalho.
O trabalho do menino é pouco, mas quem o despreza é louco.
Quem ao comer sua, ao trabalho amua.
Quem se mete por atalhos, mete-se em trabalhos.

Pais:
Amor de pais não há jamais.
Casa de pais, escola de filhos.
Espera de teus filhos o que a teus pais fizeres.
Filho que pais amargura, jamais conte com ventura.
O que o juízo dos pais acumula, a loucura dos filhos desbarata.

Boi:
A preguiça morre à sede, andando a boiar.
Boi luzidio nunca tem fastio.
Boi velho com os ossos lavra.
Não ponhas o carro à frente dos bois.
P’lo S. Mateus, pega nos bois e lavra com Deus.
Quem não tem bois, não promete carrada.

Porco:
Em Janeiro, um Porco ao sol e outro ao fumeiro.
Morto por morto, antes a velha que o porco.
Mulher que assobia, ou capa porcos ou atraiçoa o marido.
No dia de S. Martinho (11/11), mata o teu porco e prova o teu vinho.
Porcos com frio e homens com vinho fazem grande ruído.
Quem com farelos se mistura, porcos o comem.

Fome:
A fome é a melhor cozinheira.
A fome é boa mostarda.
A fome é o melhor tempero.
A fome faz sair o lobo do mato.
Antes minha face com fome amarela, que vergonha nela.
Burro com fome, cardos come.

Provérbios sobre conceitos abstractos:

Liberdade:
Quem tem Saúde e Liberdade é rico e não sabe.

Inveja (imbejidade):
A Morte abre a porta da Fama e fecha a da Inveja.
Mais vale inveja que pena (ou: piedade).
Lágrimas de herdeiros, sorrisos sorrateiros.
Muito riso, pouco siso.

Sorte:
Ninguém está bem com a sorte que tem.
Quem tem sorte ao jogo não tem sorte aos amores.
Deus nos livre dos maus vizinhos de ao pé da porta.

Morte:
A Morte abre a porta da Fama e fecha a da Inveja.
Morte com honra, não desonra.
Morte desejada, é vida dobrada.
Quando é de morte o mal, não há médico para curar tal.
Macaco velho, não trepa galho seco.

Engano
Dos enganos vivem os escrivães.
O tempo em Fevereiro enganou a Mãe ao soalheiro.
Em Roma, faz como os Romanos.
Ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão.
Ramos molhados, anos melhorados.
Cada macaco no seu galho.

Aprender, saber
Mais viver, mais aprender.
Para ensinar, é preciso aprender.
A quem tudo quer saber, nada se lhe diz.
Bom é saber calar até ser tempo de falar.
O novo por não saber e o velho por não poder deitam tudo a perder.
O Saber não ocupa lugar.
Saber esperar é uma grande virtude.
Todo o burro come palha, é preciso é saber dar-lha.
Viver não custa, o que custa é saber viver.
Do trabalho e experiência, aprendeu o Homem a ciência.
De livro fechado, não sai letrado.
Um burro carregado de livros é um doutor.
Filho de peixe sabe nadar.
Nem tudo o que vem à rede é peixe.

Alguns preceitos de Medicina caseira
Onde sobeja a água, falta a saúde.
No Verão, torneira; no Inverno, padeira.
Com caracóis e figos lampos não bebas água.
Malvas e água fria fazem um boticário num dia.
A quem Deus quer dar a vida, água da fonte é mezinha.
Não comas caldo de nabos nem o dês aos teus criados.
Depois de jantar e depois de cear, assear.
Quem em Maio não merenda, à morte se encomenda.
Quem ceia e logo se vai deitar, má noite há-de passar.
A ceia quer-se sem sal, sem luz e sem moscas.
Quem bem ceia bem dorme.
Ceia pouco: dormirás como um louco.

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GCAD_História do Vinho-FOTOS

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HISTÓRIA DA VINHA E DO VINHO DO ALTO DOURO
PRESSUPOSTO LÓGICO INICIAL:
A história vitivinícola do Alto Douro tem início com a implementação do primeiro convento de Cister em Tarouca
no reinado de D. Afonso Henriques
[vinho era essencial às missas]

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DESDE CISTER, D. AFONSO HENRIQUES

E O AIO (EGAS MONIZ)

CISTER fundou no eixo Lamego-Tarouca vários conventos e respectivas granjas de agricultura de subsitência:

S. JOÃO DE TAROUCA – SALZEDAS – S. PEDRO DAS ÁGUIAS e, ainda, STA MARIA E AGUIAR.

Os eventuais vinhedos anteriores, na inóspita e montanhosa Região, foram destruídos pelos Árabes, a quem o álcool era interdito pelo Alcorão.

O Vinho de Missa era essencial à presença cristã. Os frades de S. Bernardo de Claraval, provenientes da famosa Região Vitivinícola da Borgonha, assim como a Primeira Dinastia (borgonhesa: Conde D. Henrique, D Afonso Henriques…) instalaram-se em Terras do Ribadouro, de Egas Moniz, sob a protecção do poderoso Castelo de Lamego.

Brevemente a zona foi saibrada e cultivada com pomares e plantada com vinhas, nomeadamente toda a encosta de Cambres, desde a beira do Douro e do Varosa, com início nos Varais e depois Mosteirô… É de 1142 (ou, mesmo, 1132)  escritura da compra dos Varais. (Ver livros: A MAGNA CARTA…, etc.)

As solenidades exigiam um vinho especial, licoroso, conservado nos armazéns, a enriquecer durante anos – como até às cooperativas acontecia nos normais armazéns das quintas do Douro.

O doce odor sentido à passagem, na rua, originou o cognome VINHO CHEIRANTE DE LAMEGO.

Foi este o primeiro vinho fino do nosso Douro. Apenas se chama “do Porto” por daí ser exportado desde a Idade Média, para Inglaterra, sobretudo após o casamento de D. João I com a princesa inglesa Dona Filipa de Lencastre, na Sé do Porto, em 1387.

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Sobre este assunto, ver:

TV – PORTO CANAL

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na Revista VISÂO:
AQUI NASCEU O ‘VINHO CHEIRANTE’ (de Lamego)

Na margem esquerda [do rio Douro], com vista para o casario estilo pato-bravo da Régua, João Azeredo também anda a matutar nas invejas que uma recente descoberta originou e que ameaça revolucionar a historiografia do Douro.

Segundo um estudo do investigador Altino Cardoso, a publicar pela Universidade do Porto, a secular Casa dos Varais ocupa o território onde, em 1142, os monges de Cister iniciaram a produção do “vinho cheirante de Lamego” a partir de castas da Borgonha, para usar nas missas, que viria a ser posteriormente denominado Vinho do Porto.

“Comprova-o um documento do Mosteiro de São João de Tarouca. A data, um ano antes da fundação da nacionalidade, até arrepia!”, confessa o proprietário da quinta que receberá este legado.

João Azeredo foi apanhado de surpresa. A princípio desconfiado, rendeu-se às evidências.

É uma grande responsabilidade, para mim e para a região. Mas vem sustentar uma convicção pessoal: o Vinho do Porto não é apenas obra de ingleses, da D. Antónia, do Barão de Forrester ou do Marquês de Pombal, como pretendem fazer crer. Foi obra de gente mais simples e humilde”, acentua.

A Casa dos Varais já tinha sido pioneira no turismo de habitação, mesmo enfrentando resistências familiares. João abandonou o Porto nos anos 1980, deixando para trás a escola agrícola, e evitando o esfarelar da herança familiar.

Transformou lagares, melhorou a qualidade das castas, apostou na comercialização. Na Casa dos Varais, manteve-se Maria Rosa, raro património duriense da safra de antigas cozinhas e encantamentos de levar ao lume, devidamente comprovados no arroz de pato e na doçaria. João também põe o avental, mas apenas nas ocasiões em que, fazendo uso do seu único segredo gastronómico, confecciona a Truta do Monge. “É fumada em barrica de vinho do Porto e leva sete ou oito horas a preparar”, refere, orgulhoso.

Da janela da sala de jantar, ainda atordoado com os efeitos da novidade recente, repousa o olhar nas águas do Douro e medita nos tortuosos caminhos da Região. (…)

Ler o artigo completo em:

https://visao.sapo.pt/atualidade/sociedade/2012-09-04-o-paraiso-esquecido-do-douro-e-as-historias-que-moram-laf683417/#&gid=0&pid=3

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VER AINDA MAIS, NA NET, por ex.:

https://dasorigensdovinhodoporto.blogspot.com/2016/05/as-primeiras-plantacoes.html

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 Altino M Cardoso, como investigador da História do Douro, é citado na revista VISÃO e em numerosas fontes de informação da Net.
Publicou estes estudos sobre o Alto Douro:

 

 

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MAIS IMAGENS HISTÓRICAS DO VINHO:

 

 

 

 

 

 

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GCAD_Instrumentos Musicais

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GCAD – Instrumentos Musicais

desde os primórdios aos aerofones mecânicos e electrónicos (concertinas, etc.)

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Ver: 
GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO 
- Vol III - pg 1731 >  1774:

- Fixação da notação musical (1731) 
- Canção (1747) 
- Instrumentos musicais (1750) 
- As danças (1774)

OBS – Apenas se transcreve uma pequena parte do texto e uma observação final relativa apenas às canções (pg 1747)

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A partir da invenção da imprensa e do esplendor dos salões, resultante da pacificação da Europa e da prosperidade colonial, reúnem-se grandes colecções de canções, cada vez mais sofisticadas poética e musicalmente.
No campo musical, a Alemanha e a Áustria desempenharam papel de relevo neste género, que aí toma o nome de Lied, sobretudo com Mozart, Beethoven e Schubert.
Em França, Fauré eleva a chanson ao nível do Lied alemão.
Com o advento do Romantismo, em Portugal, a canção perde a rigidez formal clássica, reaproximando-se das suas raízes populares.
A partir do Realismo, este género fragmentar-se-á, pois o verso livre e as estrofes assimétricas não se tornam muito compatíveis com as medidas matemáticas musicais, nomeadamente a quadratura.
Os diversos tipos de expressão musical ajudaram a uma maior diversificação das possibilidades da canção:
– Do ponto de vista erudito, por ex. na Ópera (árias, canto a solo);
– Quanto à música popular, a cançoneta (de charme, de protesto ou intervenção), a canção pop(ular)… com muitas variedades ou subespécies.

Conclusões (ver também as da Introdução do volume I):

A falta de músicas escritas é, em primeiro lugar, exponencialmente proporcional à própria falta de textos escritos.
Todas as tradições (musicais, poéticas, etnográficas, agrícolas, religiosas…) atravessavam as gerações através da comunicação oral, de pais para filhos, de geração em geração.
Em geral, só o clero sabia ler e escrever; e o clero não perdia tempo com as manifestações da música e da poesia popular, tantas vezes marginais e, até, contrárias às orientações conducentes a uma vida regrada e piedosa.
Nestas circunstâncias, foi exclusivamente a memória do povo analfabeto que pôde conservá-las em circunstâncias cíclicas da vida, tais como as festas (religiosas e profanas), os trabalhos do campo, as colheitas, os serões…
Por outro lado, acresce que a leitura-escrita, no caso específico das músicas, sempre foi difícil e reservada a poucos.

E, além disso, como vimos atrás, a notação musical normalizada apenas surge bastante depois do Renascimento, isto é, cerca de meio milénio depois da existência das cantigas galaico-portuguesas – que são sensivelmente contemporâneo de Santiago de Compostela (séc. XI).

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GCAD_Vida rural-fotos

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VIDA RURAL TRADICIONAL

NO ALTO DOURO

Ver: GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO - Vol III - Pg 1.819 > 1.828

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Ainda hoje recordo este violino na noite (…)

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Tradição – trabalhos e pessoas

Têm-se perdido várias ocupações e trabalhos, sobretudo manuais, devido ao progressivo aparecimento de máquinas. E se a vinha tem sempre de ser cavada, já não existe a velha enxada de dois bicos, a enxada de ganchos, tão exclusiva do cavador do Douro, com que era feita a escava, a cava, a redra…

Com a falta de mão-de-obra aparecem os machos a lavrar entre os bardos; e, apesar do solo íngreme e pedregoso, o desenvolvimento das máquinas vem completar a imagem de desumanização que o Douro tem sofrido nos últimos sessenta anos.

Daquele tempo quase só resta de manual a poda e a enxertia, esta com canudos de plástico a substituir o farrapo de serrapilheira que segurava a terrinha à volta do enxerto bébé: hoje já se faz a apanha da azeitona com máquinas e até já há máquinas de vindimar – mas os pulverizadores a motor foram os pioneiros, ao substituirem os manuais.

O plástico veio arruinar a profissão do cesteiro – lembro-me bem do Fima, da Gervide – que, como o enxertador, comia à mesa do caseiro. O cesteiro era um dos trabalhadores sazonais do Douro, bem como o tanoeiro, o enxertador, o capador, o sairreiro, o recoveiro, o compõe-louça e guardassóis,  o limpa-chaminés, o trapeiro…

O podador de árvores, sobretudo oliveiras, também era um ‘artista’ com certo estatuto superior ao simples cavador jornaleiro.

Antes das cooperativas, o produtor guardava nos tonéis o seu vinho, que fazia no seu próprio lagar: quando o lagar ficava cheio, as uvas eram pisadas na pousa (agora chamam-lhe lagarada) e, quando o mosto levantava manta, deitava-se a manta abaixo com macacos de pau.

As bombas eram ainda manuais e as mangueiras de borracha revestida de lona, como (salvo as devidas diferenças) ainda hoje existem nos bombeiros.

Nos lagares e armazéns havia pipetas e pesas, que indicavam o ponto de encuba, isto é, o grau alcoólico adequado para o mosto deixar de continuar exposto ao oxigénio do ar e ser encubado nos tonéis, que só com o cooperativismo deixaram se der exclusivamente de madeira para na sua construção empregarem o cimento e, depois, ainda, o inox – que hoje dá nas vistas entre as vinhas e quebra a tradição.

Vender o vinho era então a preocupação fundamental dos lavradores: disso dependia uma economia saudável de um ano inteiro, nem sempre garantida, perante despesas sempre certas, com pessoal, géneros, ferramentas e produtos da vinha (sulfato, enxofre…).

Do vinho dependia quase toda a gente, pois, devido à ‘prisão’ familiar, a construção civil e a emigração apenas absorviam um pequena parte dos homens válidos.

Os que ficavam, perante a dificuldade em garantir o pão dos filhos no Verão, iam como cardanheiros para a Terra Quente.

Mas o Douro não era apenas a aldeia, perdida entre uma dobra da ciclópica paisagem, sem estradas nem caminhos, sem água nem esgotos, quase sem electricidade, sem assistência médica…Também havia a Régua, Lamego, a Bila (Vila Real) e a Mesão Frio dos cobertores; para uma necessidade menos trivial, o recoveiro ia à grande Cidade: o velho e invicto Porto.

O isolamento, provocado pelo condicionalismo geográfico da conquista do pão de cada dia, era de vez em quando quebrado pelas promessas de foguetes, gigantones, tunas, bandas de música, procissões, missas cantadas, arraiais… mais música, mais cantigas, mais danças, mais uns copitos, mais umas compritas, mais uns namoricos… e a alegria das tradições ancestrais daquele Povo heróico e puro de antigamente não tem qualquer correspondência nem continuidade com a pimbalhada das músicas e danças enlatadas, que são a toda a hora impingidas às novas gerações, que, desenraizadas e sem cultura, pouco criam mas tudo consomem sem critério.

Para além das festividades geralmente estabelecidas pelo calendário religioso (Natal, Páscoa, Santos Populares, Entrudo, Socorro, Remédios, Viso, Srª da Serra…), a alegria popular tinha o seu normal apogeu na grande Festa da colheita do Vinho: as Vindimas.

Na região do Alto Douro, essa era a época mais animada, dando lugar a reminiscências provenientes de milénios de cultura dionisíaca e báquica e ainda presentes no inconsciente colectivo.

Então eram necessários muitos braços, e formavam-se rogas nos planaltos e serras de Trás-os-Montes e da Beira, que desciam ao vale do Douro.

Estes grupos de gente nova (sobretudo homens, para acartar os cestos vindimos) vinham não só pela paga mas também pela brincadeira e pelas uvas que comiam.

Muitos eram de regiões onde não havia uvas, nem mesmo fruta de qualquer espécie, como os das aldeias altas de Montemuro e do Marão.

As rogas iam-se formando conforme combinações feitas com antecipação e já levavam, em geral, o seu destino.

Pelo caminho também era frequente cantarem e às vezes transportavam o seu bombo, uns ferrinhos, um violino, uma concertina…

As vindimas atraíam as mulheres para a corta das uvas e rapazes para as cestas. Os homens acartavam os pesados cestos vindimos de sol a sol e davam ainda 4 horas de pousa à noite nos lagares (das 20:00h à meia-noite).

Numa vindima de duas semanas (havia-as bem mais demoradas) um casal comum filho (cortar, acartar cestas, acartar cestos e pousas) levava para casa um óptimo pecúlio, destinado a investir no arranjo da casita ou num sonho de mulher: umas roupas e ouro.

A dormida era num estrado revestido de roço (feno): as cardanhas.

A dos homens separada das mulheres, mesmo havendo casais. Com uma tábua suspensa do tecto por arames para guardar o pão (broa), trazido à conta do trabalhador.

As instalações sanitárias não existiam: demarcavam-se na noite uma ou duas fiadas de bardos para as mulheres e outras para os homens. Uma folha de videira, de couve, ou uma pedra serviam de papel higiénico, que ainda não tinha sido inventado para os pobres.

Curiosamente, hoje tenta-se no Alto Douro reconstruir a vivências desses tempos.

Mas nenhum ‘turista’ de nova cultura conseguirá acesso à magia de cair à cama como uma pedra, depois de vindimar, ou acartar, ou pisar as uvas… e, sobretudo, depois de gastar o resto das forças a ‘rasgar’ um Malhão ou uma Chula, mesmo ao som de uma gaita de beiços!

Por isso, o GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO não se preocupa como estabelecimento da origem das músicas: elas apareciam de todos os lados como andorinhas de Outono, para a Grande Festa do Vinho. Que, já desde a mais funda antiguidade bíblica de Noé, alegra o coração do homem:  “Vinum laetificat cor hominum”.

Muitos ‘serranos’ destas áreas eram elementos de famosas as bandas de música, como as da Gralheira, de S. Cipriano (Nova e Velha) e de Maqueija, nas imediações da Serra de Montemuro (que até iam a cavalo tocar às festas para que eram convidados); e levavam os instrumentos: clarinete, oboé, trompete… até um trombone de varas!

Nestas minhas recordações, também os de Barqueiros eram notados, pelas rabecas de braço curto, que animavam as longas pousas das grandes quintas da zona da Régua.

E ainda hoje recordo aquele violino na noite (trazido na roga do sr. Valentim, de Resende)…

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GCAD_CANÇÕES de EMBALAR

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GCAD_CANÇÕES DE EMBALAR

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O Vol II do GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO regista as letras e pautas de canções de berço, não apenas bonitas mas também muIto antigas e raras.
É de salientar a grande qualidade poética das letras, transmissoras de um amor e carinho delicados e encantadores, que vários cantores souberam apreciar e divulgar, sobretudo o Zeca Afonso.
Não deixa de transparecer em algumas cantigas a dolorosa amargura de uma Mãe doente ou Mulher sofredora…
Também de notar a ‘originalidade’ de alguns argumentos das mães para convencerem os rebentos a fechar os olhos: o papão, a raposa…

Transcrevemos algumas destas canções de embalar. [Pautas no GCAD II – págs. 881 – 897]
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EXEMPLOS:
Toda a mãe que tem meninos (GCAD_Vol II – pg 897) [Harm Altino M Cardoso]

Toda a mãe que tem meninos (bis)
não se le inore o cantare:
quantas vezes ela canta (bis)
com vontade de chorare!…

Dorme, dorme, meu menino,
este sono de amargura:
amanhã, por esta hora,
tens a mãe na sepultura.

Mama, mama, meu menino,
este leite de paixão:
amanhã, por esta hora,
tua mãe está no caixão…
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Acalanto  (GCAD_Vol II – pg 881) [Harm Altino M Cardoso]

Uma mãe que o filho imbela
todo o seu fim é chorar,
só por não saber a sorte
que Deus tem para le dar!

Sai-te daí, ó papão,
de cima desse telhado:
deixa dormir o menino
o seu sono descansado!

Bai-te imora, reixenol,
deixa a baga do loureiro,
deixa dormir o menino
que está no sono primeiro!

O meu menino é de oiro,
é de oiro o meu menino:
hei-de trocá-lo co’os anjos
por outro mais pequenino!

Dorme, dorme, meu menino,
dorme, dorme, meu amor,
os anjos do céu te imbelem
e a bênção do Senhor!

Dorme, dorme, meu menino,
fecha, fecha, o teu olhinho
que vem aí a raposa
que quer papar o menino.

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Cantiga de ingalhar   (GCAD_Vol II – pg 885) [Harm Altino M Cardoso]

Nana, nana, meu menino,
Que a mãezinha logo vem:
Foi lavar os teus paninhos
À fontinha de Belém…

Nana, nana, meu menino,
Nana, que eu nano também:
Quem o seu menino imbela
Só quer que ele druma bem…

Nana… nana…
Ru-ru… ru-ru..

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Dorme… dorme…      (GCAD_Vol II – pg 886) [Harm Altino M Cardoso]

Dorme, dorme, meu menino,
Que a mãezinha logo vem:
Foi lavar os teus paninhos
À fontinha de Belém…
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O meu menino é de oiro   (GCAD_Vol II – pg 890) [Harm Altino M Cardoso]

O meu menino é d’oiro,
É d’oiro é o meu menino;
Hei-de levá-lo aos anjos
Enquanto é pequenino.

O meu menino tem sono
E o sono não lhe quer vire;
Nossa Senhora lo mande
Para o menino dormire…

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Olha o bichinho   (GCAD_Vol II – pg 893) [Harm Altino M Cardoso]

Olha o bichinho
que anda no telhado:
– deixa dormir
o menino descansado!…

Olha o bichinho
que anda a passear:
– deixa dormir o menino
a descansar!…

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GCAD_MÚSICAS-Profissões Rurais

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GCAD_MÚSICAS-Profissões Rurais

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2. Não há Vinhas sem Cantigas (Ver: GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO, vOL III – pg 1.291)
Em proporção com a extensa azáfama nos campos e vinhedos, é grande e cíclico o movimento de trabalhos e rezas – cavas, sementeiras, mondas, colheitas, festas, missas, novenas, via-sacras, acções de graças, procissões… – tão propícios ao canto e, também, ao convívio gerador de calor humano, com músicas, danças e vinho.
Os cânticos das Horas (Matinas, Prima, Laudes, Tércia, Sexta, Noa, Vésperas e Completas) ecoaram nos campos, pelas várzeas e vessadas de todo o Vale do Varosa, a área do domínio familiar de Egas Moniz, quase a todas as três horas
do dia e da noite.

E na época das vindimas todas as músicas e danças dos arredores serranos convergiam no Douro, como andorinhas de Outono.

(…)

Como um eco secular das músicas religiosas e canónicas, nos campos havia, ainda, as cantigas populares trazidas dos campos galegos e do adro de Santiago – ver No adro
de Santiago (I,328) – para os saibramentos, as cavas ou as vindimas; também das vinhas francesas permaneceram algumas melodias nas grandes propriedades monásticas de
Mosteirô, Barrô, Paçô…

[ver nota de Eu fui ao jardim celeste  GCAD Vol I, 205)].
Era importante, nessa altura como um pouco ainda hoje, a importação de mão-de-obra, sobretudo para os saibramentos e vindimas; e se os franceses não se fixaram de
modo muito marcante, os Galegos do nordeste peninsular, por afinidade de sangue, partilharam connosco, em galego-português, no Douro e em Santiago, o seu belíssimo e
único folclore tradicional das cantigas populares de amigo, que a nossa Literatura estuda e de que o povo duriense conservou importantes traços em muitas das cantigas, que nos foi dado recolher e guardar nesta obra, para a posteridade, como herança e Património Imaterial nosso.

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O GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO recolhe canções que, embora associando maioritariamente um tema de amor, se inspiram em praticamente todos os níveis das diversas nuances familiares, sociológicas e profissionais do mundo rural.

Nas canções tradicionais encontramos a continuidade histórico-cutural desde o galego-português (cantigas de amigo, amor e maldizer), o trabalho e as estações do ano, os provérbios, a vida doméstica e social, a religião (a oficial católica e a popular), os rimances (alguns ligados a Carlos Magno – séc IX !), os lazeres dos bailes e das festas e romarias, os serões… e, até, os maldizeres…

A paisagem rural – purificada pelas águas do ribeiro, do rio, da chuva e banhada pelo sol, o vento, a geada, a neve, o mar… – oferece uma a convivência saudável e simpática, dada a grande variedade de fauna e flora (pássaros, animais domésticos, de companhia, vigilância, trabalho e transporte, flores, árvores, videiras…) e as pessoas distribuem-se pelas mais diversas actividades e profissões, quer masculinas (carpinteiro, barbeiro, taberneiro, sapateiro, lavrador, pescador…), quer femininas (rendeira, tecedeira, costureira, doméstica, segadeira, lavradora, cantadeira, cozinheira, vareira, padeira…). [Ver: GCAD – FOTOS]

Também é digna de nota a proximidade e interacção de classes, desde o criado e o senhor até ao clero e à nobreza tradicional.

OBS – A ruralidade está presente na generalidade das cantigas tradicionais ou folclóricas. Escolhemos apenas uma amostragem das que  (sobretudo no Vol II do GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO) citam explicitamente elementos da natureza ou dos trabalhos rurais.

 

 

EXEMPLOS:

Caninha verde do Marão  (GCAD Vol II – pg 1135)  [Rec e Harm Altino M Cardoso]

CANINHA VERDE DO MARÃO

Ó minha caninha verde ó Senhora do Marão,
linda cara, lindos olhos, eu dou-te o meu coração! (bis)
ó i ó ai,… meu coração, ó minha caninha verde, ó Senhora do Marão! (bis)
Ó minha caninha verde, verde cana de encanar,
aqui estou à tua beira, se estás bem deixa-te estar;
ó i ó ai,… deixa-te estar, ó minha caninha verde, verde cana de encanar!
A cana verde no mar anda à roda do vapor,
inda está para nascer quem vai ser o meu amor,
ó i ó ai,… o meu amor, a cana verde no mar anda à roda do vapor.
Ó minha caninha verde, ó meu rico São João,
quem não quer que o mundo fale, não lhe dê ocasião!
ó i ó ai,… ocasião, ó minha caninha verde, ó meu rico São joão!

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NOTA – É bem visível o carácter trovadoresco e paralelístico dos versos: refrão, repetições fónicas, morfológicas e semânticas, rimas alternadas….

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Ai que lindo passarinho  (GCAD Vol II – pg 1126)  [Recolha e Harm Altino M Cardoso]

AI QUE LINDO PASSARINHO!

Ai, que lindo passarinho
canta na tua janela! (bis)
alegrai-vos, camponesas,
que já vem a Primavera! (bis)
Já lá vem a Primavera
toda cheia de felores!
Alegrai-vos, raparigas,
que lá vêm vossos amores!
Que passarinho é aquele
que no ar faz ameaço?
Com o bico, pede um beijo,
com as asas, um abraço…
Ó arvoredo fichado,
onde cantam passarinhos!
A quem destes os abraços
dá-lhe também os beijinhos!…
Já os passarinhos cantam,
cantam à minha janela…
Alegrai-vos, raparigas,
que lá vem a Primavera!
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NOTAS:
1.Esta melodia encontra-se também transcrita na secção RIMANCES DE CEGO do Vol II do GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO. Mas é cantada em ritmo ternário, e não binário como aqui. É um caso curioso e creio que se trata de uma adaptação do cego, acompanhada à guitarra: a letra do seu trágico rimance é estática e meditativa, ao gosto geral do ternário, sem o dinamismo desta dança de primavera, logicamente em dinâmico binário.
2.A primavera conduzia às Festas Juninas com centralidade no mês de Junho, em que se celebrava o renascimento da Natureza e da Vida.
Vale bem a pena ver em pormenor as notas apendiculadas nas pautas do Vol I e II e o texto desenvolvido no Vol III do GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO, do mesmo autor deste sita.

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Abaixa-te, ó laranjeira  (GCAD Vol II – pg 1124)  [Rec e Harm Altino M Cardoso]

ABAIXA-TE, Ó LARANJEIRA
Abaixa-te, ó laranjeira,
que eu não quero a tua rama
só te quero uma felor
para dar a minha dama.
Para dar à minha dama,
para dar ao meu amor
…abaixa-te, ó laranjeira,
só te quero uma felor!
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NOTA – A flor da laranjeira é um dos principais símbolos da virgindade antes do casamento.
Ver mais símbolos das canções tradicionais populares no GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO – Vol I (Introdução) e Vol III SIMBOLOGIAS.
Formalmente o poema apresenta algumas das características medievais da época galego-portuguesa: paralelismo semântico e fónico, leixa-pren, dobre…

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As Segadeiras  (GCAD Vol II – pg 1131)  [Rec e Harm Altino M Cardoso]

AS SEGADEIRAS

As segadeiras, lá vão, lá vão,
todas contentes com seu patrão,
o seu patrão de trás da serra
e as segadeiras da nossa terra.

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NOTA – Assim como havia um rogador para angariar pessoal para as vindimas, também as segadas (na Terra Quente do Nordeste Trasmontano) precisavam de abundante mão-de-obra no pino do Verão, por coincidência quando as vinhas estavam tratadas (com sulfato e enxofre) e o trabalho escasseava no Douro até à vindima. 

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Bem cantava a lavadeira   (GCAD Vol II – pg 1132)  [Rec e Harm Altino M Cardoso]

BEM CANTAVA A LAVADEIRA

Bem cantava a lavadeira ao som da sua barrela;
Ela lavava no Douro, estendia lá na serra.
O sabão que le deitava era cravo e canela;
O sabão que le deitava era da flor de macela.
Ela lavava no Douro, a roupa estendia-a na serra
Ela lavava no rio estendia ao par da serra,
No gorgominho da silva em folhinha de marvela.
Bem cantava a lavadeira ao som da sua barrela;
A roupa que ela lavava era do rei de Castela.
O cesto onde coava era de verga amarela;
A caldeira era d’ouro, a i-asa de prata era.
Os panos que ela lavava eram do rei de Castela
A caldeira era d’ouro e a asa de prata era,
E o cesto donde coava era verguinha amarela.

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OBS – A estrutura formal, rítmica e fónica, é própria de rimance (monórrimo – vogal tónica – e – aberto) – mas com acentuadas influências do paralelismo  insistente trovadoresco. Este fragmento de texto pode ser muito antigo, mas não tanto a música, em meu entender. Para além da barrela, repare-se na técnica secular de usar um cesto para coar (torcer e escorrer) a roupa, diminuindo-lhe o peso antes de a transportar para a pôr a corar na serra, ao sol, acelerando a secagem, para antecipar novo uso, dado não haver muita roupa, nem facilidade de a lavar (as roupas da cama, por exemplo, só eram lavadas uma vez por ano (e a generalidade dos banhos gerais…), geralmente no Verão de Junho (as Festas Juninas).

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Carpinteiro não   (GCAD Vol II – pg 1137)  [Rec e Harm Altino M Cardoso]

CARPINTEIRO NÃO
– Ó Joaquininha (ó Joaquininha) que moras no oiteiro
Andas de namoro (andas de namoro) com o carpinteiro…
– Carpinteiro, não, (carpinteiro, não) que me tranca a porta;
– É um soldadinho (é um soldadinho) que anda na tropa…
– Soldadinho, não, (soldadinho, não) que anda a marchare;
– É um barbeirinho que sabe berbeare…
– Barbeirinho, não, que amola as navalhas;
– É um alfaiate, que nos talha as saias…
– Alfaiate, não, que é meio aldrabão;
– É um padeirinho que nos amassa o pão…
– Padeirinho, não, que amassa o farelo;
– É um ferreirinho que bate no martelo…
– Ferreirinho, não, que ele anda mui negro;
– É um pedreirinho, que racha o penedo…
– Pedreirinho, não, que pica na pedra;
– É um lavradore, que nos lavra a terra…
– Lavradore, não, que racha a nabiça;
– Há-de ser um padre, que nos diga a missa…
– Oh! homens, oh, homens, não devia havere!
São todos iguais, não há que escolhere:
Deitai-os no fogo, deixai-os ardere!…
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NOTA – Esta curiosa lengalenga mexeriqueira dialogada entre vizinhas, é também uma ilustração do ditado: “Quem desdenha quer comprar…”

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Costureirinha Bonita    (GCAD Vol II – pg 1149)  [Rec e Harm Altino M Cardoso]

COSTUREIRINHA BONITA

– Questureirinha bonita, tu que estás a questurar?(bis)
– Stou a bordar um lencinho para o nosso ginerale.(bis)
– Questureirinha bonita, tens agulha, tens didale,
só te falta a tisoirinha pra talhares o aventale…
Pra talhares o aventale pra talhares a belusinha,
tens agulha, tens didale, ó minha questureirinha.
Pra talhares o aventale, pra cortar a croa à cana…
tens um amor prós domingos outro pra toda a semana.
Questureirinha bonita, a tua agulha picou-me!…
Foi tão grande a picadela: stava a dromir, acordou-me!…
VARIANTE:
– Ó minha questureirinha, tu que estás a questurare?
– Um lencinho de três pontas pró meu amor se alimpare.
– Ó minha questureirinha, que é da cruz do teu cordãoi?
– Perdi-a no arraiale na noite de São João.
– Ó minha questureirinha, quem te há-de levar prá cova?
– Quatro rapazes solteiros que eu sou rapariga nova!
– Ó minha questureirinha, um beijinho te hei-de dare…
um beijinho não é nada: três ou quatro hás-de levare!…

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NOTA: A costureira, sempre bem vestida e sob tecto, sem ter de se molhar, apanhar frio ou sujar as mãos, beneficiava de uma situação de  charme que atraía os homens e, também, as ironias das mulheres (concorrentes). 

Formalmente, são de registar na letra as normais e antigas ligações à lírica galaico-portuguesa – como em parte muito significativa das cantigas recolhidas no Alto Douro, pelo mesmo autor.

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Ó elo da videirinha  (GCAD Vol II – pg 1175)  [Rec e Harm Altino M Cardoso]

Ó ELO DA VIDEIRINHA

Ó elo da videirinha,
põe-te a pé, dá-me um abraço:(bis)
eu nunca fiz a ninguém
carinhos como a ti faço.(bis)
Carinhos como a ti faço,
carinhos que a ti te fiz:
não digas que não me queres,
pois fui eu que não te quis.

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NOTA: Algumas características medievais formais das cantigas galego-portuguesas (resumo): leixa-pren, dobre, alternância vocálica, etc. Mas, na mensagem poética, o sentimento mais relevante é o animismo e a intimidade do amor à vinha. Cf o poema de Torga: “Meu pai a erguer uma videira como uma mãe que faz a trança à filha”

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Sapateiro que bate a sola   (GCAD Vol II – pg 1201)  [Rec e Harm Altino M Cardoso]

SAPATEIRO QUE BATE A SOLA

Sapateiro que bate a sola,
ai, pum! ai, pum! ai, pum!
Sapateiro que bate a sola,
tens cigarros, dá cá um!…

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NOTA – O sapateiro (como a costureira) tinha uma vida sem sujeição aos esforços e elementos da natureza: atraía também umas ironias… quer por não ter mais força além de bater a sola, quer por passar o dia sentado a fumar…  e, claro, levava caro aos fregueses, que nem “ganhavam p’ra tabaco” .

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Vem uma chuva que molha  (GCAD Vol II – pg 1216)  [Rec e Harm Altino M Cardoso]

VEM UMA CHUVA QUE MOLHA

Vem uma chuva que molha, não sei de donde ela vem: (bis)
vem lá de baixo, do Porto, de baixo dum almazém. (bis)
Stá o céu ineboado e mais não há-de chover!
Stá o meu amor doente e mais não há-de morrer!
‘Stá o céu ineboado, ‘stá pra chover e não chove!
‘Stá o meu amor doente, ‘stá pra morrer… mas não morre!…

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NOTA – É notável e profunda a interacção paralelística, animista, metafórica e, até, simbólica, entre a natureza (a chuva que afinal não virá) e o perigo de morrer do namorado (que afinal não morrerá). É uma esperança, quase certeza, retirada da experiência na previsão ancestral do tempo nos campos e vinhas.

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