GCAD_Palavreados

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GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO – Palavreados

 [GCAD Vol III - pg  1.855 > 1.864]

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Expressões Populares

Existem vários níveis de linguagem, uns acima do nível a que se convenciona chamar NORMA e outros mais ou menos desviados, quer acima quer abaixo da norma.

Vamos exemplificar alguns casos de desvios, eruditos, metafóricos, simbólico, etc., outros mais ou menos ‘criativos’… terminando com uns exemplos de desvios no fundo da tabela, ou lá perto: os piropos dos trolhas.

(…) A nossa civilização, incluindo a popular, está cheia de simbolismos e conotações herdadas das mais remotas e inauditas culturas. (…) As letras das cantigas e suas conotações podem ser formas literárias de um conteúdo muito mais rico e civilizacional do que as aparências fariam prever. [Cf as cantigas de amigo do galego-português].

Mas a própria linguagem do dia-a-dia popular (e não apenas a expressão literária ou culta) encerra conotações e ligações históricas dignas de serem inventariadas, sistematizadas e estudadas a fundo. Vão aqui apenas alguns exemplos, que parecem significativos dessa riquíssima intertextualidade com outras épocas e civilizações:

À grande e à francesa = viver com luxo e ostentação.

Relativa aos modos luxuosos do general Jean Andoche Junot, auxiliar de Napoleão, que chegou a Portugal na primeira invasão francesa, e dos seus acompanhantes exibicionistas, que se passeavam vestidos de gala pela capital.

Andar à toa = andar sem destino, despreocupado, passando o tempo.

Toa é a corda com que uma embarcação reboca a outra. Um navio que está “à toa” é o que não tem leme nem rumo, indo para onde o navio que o reboca determinar.

Ave de mau agouro = diz-se de pessoa portadora de más notícias ou que, com a sua presença, anuncia desgraças.

O conhecimento do futuro é uma das preocupações inerentes ao ser humano. Quase tudo servia para, de maneiras diversas, se tentar obter esse conhecimento. As aves eram um dos recursos que se utilizava. Para se saberem os bons ou maus auspícios (avis spicium) consultavam-se as aves. No tempo dos áugures romanos, a predição dos bons ou maus acontecimentos era feita através da leitura do seu voo, canto ou entranhas. Os pássaros que mais atentamente eram seguidos no seu voo, ouvidos nos seus cantos e aos quais se analisavam as vísceras eram a águia, o abutre, o milhafre, a coruja, o corvo e a gralha. Ainda hoje perdura, popularmente, a conotação funesta com qualquer destas aves.

Acordo leonino = contrato desproporcionado, aquele em que um dos contratantes aceita condições desvantajosas em relação a outro contratante que fica em grande vantagem.

É, pois, uma expressão retórica sugerida nomeadamente pelas fábulas em que o leão se revela como todo-poderoso.

Coisas do arco-da-velha = coisas inacreditáveis, absurdas, espantosas, inverosímeis.

A expressão tem origem no Antigo Testamento; arco-da-velha é o arco-íris, ou arco-celeste, e foi o sinal do pacto que Deus fez com Noé: “Estando o arco nas nuvens, Eu ao vê-lo recordar-Me-ei da aliança eterna concluída entre Deus e todos os seres vivos de toda a espécie que há na terra.” (Génesis 9:16). Arco-da-velha é uma simplificação de Arco da Lei Velha, uma referência à Lei Divina.

Há também diversas histórias populares que defendem outra origem da expressão, como a da existência de uma velha no arco-íris, sendo a curvatura do arco a curvatura das costas provocada pela velhice, ou devido a uma das propriedades mágicas do arco-íris – beber a água num lugar e enviá-la para outro, pelo que velha poderá ter vindo do italiano ‘bere’ (beber).

Cair da tripeça = qualquer coisa que, dada a sua velhice, se desconjunta facilmente.

A tripeça é um banco de madeira de três pés, muito usado na província, sobretudo junto às lareiras. Uma pessoa de avançada idade aí sentada, com o calor do fogo, facilmente adormece e tomba.

Comer muito queijo = ser esquecido; ter má memória.

A origem desta expressão portuguesa pode explicar-se pela relação de causalidade que, em séculos anteriores, era estabelecida entre a ingestão de lacticínios e a diminuição de certas faculdades intelectuais, especificamente a memória.

A comprovar a existência desta crença existe o excerto da obra do padre Manuel Bernardes “Nova Floresta”, relativo aos procedimentos a observar para manter e exercitar a memória:

«Há também memória artificial da qual uma parte consiste na abstinência de comeres nocivos a esta faculdade, como são lacticínios, carnes salgadas, frutas verdes, e vinho sem muita moderação: e também o demasiado uso do tabaco».

Sabe-se hoje, através dos conhecimentos provenientes dos estudos sobre memória e nutrição, que o leite e o queijo são fornecedores privilegiados de cálcio e de fósforo, elementos importantes para o trabalho cerebral. Apesar do contributo da ciência para desmistificar uma antiga crença popular, a ideia do queijo como alimento nocivo à memória ficou cristalizada na expressão fixa «comer (muito) queijo».

Do tempo da Maria Cachucha = muito antigo.

Origem: A cachucha era uma dança espanhola a três tempos, em que o dançarino, ao som das castanholas, começava a dança num movimento moderado, que ia acelerando, até terminar num vivo volteio. Esta dança teve uma certa voga em França, quando uma célebre dançarina, Fanny Elssler, a dançou na Ópera de Paris. Em Portugal, a popular cantiga Maria Cachucha (ao som da qual, no séc. XIX, era usual as pessoas do povo dançarem) era uma adaptação da cachucha espanhola, com uma letra bastante gracejadora, zombeteira.

Dose para cavalo = quantidade excessiva, demasiada.

Dose para cavalo, dose para elefante ou dose para leão são algumas das variantes que circulam com o mesmo significado e atendem às preferências individuais dos falantes.

Supõe-se que o cavalo, por ser forte; o elefante, por ser grande, e o leão, por ser valente, necessitam de doses exageradas de remédio para que este possa produzir o efeito desejado.

Com a ampliação do sentido, dose para cavalo e suas variantes é o exagero na ampliação de qualquer coisa, sobretudo aquelas que só se tornam desagradáveis com o exagero.

Dar um lamiré = sinal para começar alguma coisa.

Trata-se da forma aglutinada da expressão «lá, mi, ré», que designa o diapasão, instrumento usado na afinação de instrumentos ou vozes; a partir deste significado, a expressão foi-se fixando como palavra autónoma com significação própria, designando qualquer sinal que dê a uma actividade um começo sincronizado. Historicamente, a expressão «dar um lamiré» está, portanto, ligada à música (cf. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).

Nota: Escreve-se lamiré, com o r pronunciado como em caro.

Erro crasso = erro grosseiro.

Na Roma antiga havia o Triunvirato: o poder dos generais era dividido por três pessoas. No primeiro destes triunviratos, tínhamos: Caio Júlio, Pompeu e Crasso. Este último foi incumbido de atacar o pequeno povo dos Partos. Confiante na vitória, resolveu abandonar todas as formações e técnicas romanas e simplesmente atacar. Ainda por cima, escolheu um caminho estreito e de pouca visibilidade. Os partos, mesmo em menor número, conseguiram vencer os romanos, sendo o general que liderava as tropas um dos primeiros a cair. Desde então, sempre que alguém tem tudo para acertar, mas comete um erro estúpido, dizemos tratar-se de um “erro crasso”.

Embandeirar em arco = manifestação de alegria.

Na Marinha, em dias de gala ou simplesmente festivos, os navios embandeiram em arco, isto é, içam pelas adriças ou cabos (vergueiros) de embandeiramento galhardetes, bandeiras e cometas quase até ao topo dos mastros, indo um dos seus extremos para a proa e outro para a popa. Assim são assinalados esses dias de regozijo ou se saúdam outros barcos, que se manifestam da mesma forma.

Fazer tábua rasa = esquecer completamente um assunto para recomeçar em novas bases.

A tabula rasa, no latim, correspondia a uma tabuinha de cera onde nada estava escrito. A expressão foi tirada, pelos empiristas, de Aristóteles, para assim chamarem ao estado do espírito que, antes de qualquer experiência, estaria, em sua opinião, completamente vazio. Também John Locke (1632-1704 ), pensador inglês, em oposição a Leibniz e Descartes, partidários do inatismo, afirmava que o homem não tem nem ideias nem princípios inatos, mas sim que os extrai da vida, da experiência:

«Ao começo», dizia Locke, «a nossa alma é como uma tábua rasa, limpa de qualquer letra e sem ideia nenhuma. Tabula rasa in qua nihil scriptum. Como adquire, então, as ideias? Muito simplesmente pela experiência.»

Fazer tijolo = morrer

Segundo se diz, existiu um velho cemitério mouro para as bandas das Olarias, Bombarda e Forno do Tijolo. O almacávar, isto é, o cemitério mourisco, alastrava-se numa grande extensão por toda a encosta, lavado de ar e coberto de arvoredo. Após o terramoto de 1755, começando a reedificação da cidade, o barro era pouco para as construções e daí aproveitar-se todo o que aparecesse. O cemitério árabe foi tão amplamente explorado que, de mistura com a excelente terra argilosa, iam também as ossadas para fazer tijolo. Assim, é frequente ouvir-se a expressão popular em frases como esta: ‘Daqui a dez anos já eu estou a fazer tijolo ‘.

Fila indiana = enfiada de pessoas ou coisas dispostas uma após outra.

Forma de caminhar dos índios da América que, deste modo, tapavam as pegadas dos que iam na frente.

Gatos-pingados = tem sentido depreciativo usando-se para referir uma suposta inferioridade (numérica ou institucional), insignificância ou irrelevância.

Esta expressão remonta a uma tortura procedente do Japão que consistia em pingar óleo a ferver em cima de pessoas ou animais, especialmente gatos. Existem várias narrativas ambientais na Ásia que mostram pessoas com os pés mergulhados num caldeirão de óleo quente. Como o suplício tinha uma assistência reduzida, tal era a crueldade, a expressão ”gatos pingados” passou a denominar pequena assistência sem entusiasmos ou curiosidade para qualquer evento.

Já a formiga tem catarro = diz-se a quem pretende ser mais do que é, sobretudo dirigido a crianças ou inexperientes, que engrossam a voz para impor os seus caprichos.

Lágrimas de crocodilo = choro fingido.

O crocodilo, quando ingere um alimento, faz forte pressão contra o céu da boca, comprimindo as glândulas lacrimais. Assim, ele chora enquanto devora a vítima.

Mal e porcamente = muito mal; de modo muito imperfeito e sujo.

Inicialmente, a expressão era “mal e parcamente”. Quem fazia alguma coisa assim, agia mal e eficientemente, com parcos (poucos) recursos. Como parcamente não era palavra de amplo conhecimento, o uso popular tratou de substituí-la por outra, parecida, bastante conhecida e adequada ao que se pretendia dizer; e ficou “mal e porcamente”.

Meter uma lança em África = conseguir realizar um empreendimento que se afigurava difícil; levar a cabo uma empresa difícil.

Expressão vulgarizada pelos exploradores europeus, principalmente portugueses, devido às enormes dificuldades encontradas ao penetrar o continente africano. A resistência dos nativos causava aos estranhos e indesejáveis visitantes baixas humanas. Muitas vezes retrocediam face às dificuldades e ao perigo de serem dizimados pelo inimigo que eles mal conheciam e, pior de tudo, conheciam mal o seu terreno. Por isso, todos aqueles que se dispusessem a fazer parte das chamadas “expedições em África”, eram considerados destemidos e valorosos militares, dispostos a mostrar a sua coragem, a guerrear enfrentando o incerto, o inimigo desconhecido. Portanto, estavam dispostos a ” meter uma lança em África”.

Não poder com uma gata pelo rabo = ser ou estar muito fraco; estar sem recursos.

O feminino, neste caso, tem o objectivo de humilhar o impotente ou fraco a que se dirige a referência. Supõe-se que a gata é mais fraca, menos veloz e menos feroz em sua própria defesa do que o gato. Na realidade, não é fácil segurar uma gata pelo rabo, e não deveria ser tão humilhante a expressão como realmente é. No passado, os chineses costumavam satisfazer as suas necessidades sexuais com gansos. Pouco antes de ejacularem, os homens afundavam a cabeça da ave na água, para poderem sentir os espasmos anais da vítima.

Passar a mão pela cabeça = perdoar ou encobrir um erro cometido por algum protegido.

Costume judaico de abençoar cristãos-novos, passando a mão pela cabeça e descendo pela face, enquanto se pronunciava a bênção.

Que massada! = exclamação usada para referir uma tragédia ou contra-tempo.

Origem: É uma alusão à fortaleza de Massada na região do Mar Morto, Israel, reduto de Zelotes, onde permaneceram anos resistindo às forças romanas após a destruição do Templo em 70 d.C., culminando com um suicídio colectivo para não se renderem, de acordo com relato do historiador Flávio Josefo. Também pode relacionar-se com ‘maçada’ (de maço), o que é menos cultural, mas mais lógico e directo.

Queimar as pestanas = estudar muito.

Usa-se ainda esta expressão, apesar de o facto real que a originou já não ser de uso. Foi, inicialmente, uma frase ligada aos estudantes, querendo significar aqueles que estudavam muito. Antes do aparecimento da electricidade, recorria-se a uma lamparina ou uma vela para iluminação; a luz era fraca e, por isso, era necessário colocá-las muito perto do texto quando se pretendia ler o que podia dar azo a “queimar as pestanas”, mesmo.

Ter para os alfinetes = ter dinheiro suficiente para viver.

Em outros tempos, os alfinetes eram objecto de adorno das mulheres e daí que, então, a frase significasse o dinheiro poupado para a sua compra porque os alfinetes eram um produto caro. Os anos passaram e eles tornaram-se utensílios, já não apenas de enfeite, mas utilitários e acessíveis. Todavia, a expressão chegou a ser acolhida em textos legais. Por exemplo, o Código Civil Português, aprovado por Carta de Lei de Julho de 1867, por D. Luís, dito da autoria do Visconde de Seabra, vigente em grande parte até ao Código Civil actual, incluía um artigo, o 1104, que dizia:

«A mulher não pode privar o marido, por convenção antenupcial, da administração dos bens do casal; mas pode reservar para si o direito de receber, a título de alfinetes, uma parte do rendimento dos seus bens, e dispor dela livremente, contanto que não exceda a terça dos ditos rendimentos líquidos.»

Ter memória de elefante = ter boa memória; recordar-se de tudo.

O elefante fixa tudo aquilo que aprende, por isso é uma das principais atracções do circo.

Ter ouvidos de tísico = ouvir muito bem.

Antes da II Guerra Mundial (l939 a l945), muitos jovens sofriam de uma doença denominada tísica, que corresponde à tuberculose. A forma mais mortífera era a tuberculose pulmonar. Com o aparecimento dos antibióticos durante a II Guerra Mundial, foi possível combater este doença com muito maior êxito. As pessoas que sofrem de tuberculose pulmonar tornam-se muito sensíveis, incluindo uma notável capacidade auditiva. A expressão «ter ouvidos de tísico» significa, portanto, «ouvir tão bem como aqueles que sofrem de tuberculose pulmonar».

Verdade de La Palisse = uma verdade de La Palice (ou lapalissada / lapaliçada) é evidência tão grande, que se torna ridícula.

O guerreiro francês Jacques de Chabannes, senhor de La Palice (1470-1525), nada fez para denominar hoje um truísmo. Fama tão negativa e multissecular deve-se a um erro de interpretação. Na sua época, este chefe militar celebrizou-se pela vitória em várias campanhas. Até que, na batalha de Pavia, foi morto em pleno combate. E os soldados que ele comandava, impressionados pela sua valentia, compuseram em sua honra uma canção com versos ingénuos:

“O Senhor de La Palice
Morreu em frente a Pavia;
Momentos antes da sua morte,
Podem crer, inda vivia.”

O autor queria dizer que Jacques de Chabannes pelejara até ao fim, isto é, “momentos antes da sua morte”, ainda lutava. Mas saiu-lhe um truísmo, uma evidência. Segundo a enciclopédia Lello, alguns historiadores consideram esta versão apócrifa. Só no século XVIII se atribuiu a La Palice um estribilho que lhe não dizia respeito. Portanto, fosse qual fosse o intuito dos versos, Jacques de Chabannes não teve culpa.

Disfemismos

O ritmo instintivo e sempre alerta do pensamento do nosso povo revela-se na fala popular, que está cheia de expressões pitorescas e atrevidas! Será oportuno referir aqui mais alguns espécimes, além dos que aparecem nas cantigas, tenções (de maldizer) e rimances  populares, por ex. nos rimances de cordel e, sobretudo, nos de caserna, transcritos ao longo desta obra.
Muitos dos ditos e maneiras de traduzir as complexas realidades da vida vêm directamente dos instintos primários do povo.
Era frequente (ainda será?) ouvir, lá do alto de umas cepas, uma mãe berrar, para o próprio filho, que se esqueceu das horas do ‘jantar’ [= almoço]:
– Ó Manel, quando é que vens pra lebar o jantar ó teu pai à binha? Se te apanho, ponho-te um pé na morca, que até botas a merda pla boca, meu filho da puta!
Um camponês zangado dirá «estou arreliado!». Se estiver mais zangado, já dirá «estou cozido!» Mas, se estiver mesmo zangado, a sério, só dirá «estou fodido!»! E não faltam razões ao camponês para se irritar: é com a vinha, é com a bola, é com a mulher, é com os filhos, é com a falta de dinheiro, é com a ‘puta da vida’…
Veja-se esta historieta, que creio se contava no tasco do Napoleão (ou no Medeiros? ou na Cataninha? ou no Cá te espero?):
Um caixeiro-viajante do Porto vem ao Douro em trabalho, perde na estação da CP de Godim-Régua os transportes para Vila Real, já a tarde ia adiantada. De maleta na mão, quer chegar a Vila Real ainda de dia.
Dizem que, ali no ‘tanque redondo’, a uns 100 metros da estação, pergunta a um homenzinho que andava a rapar umas ervas ao pé do matadouro [hoje está por lá o quartel da GNR]:
– Olhe lá, ó senhor, daqui a Santa Marta é longe?
– Poijé! é loinge comó catano! Primeiro é em recta até ó Ribeiro da Meia Légua, mas despois é sempre a assubir prós Incambelados!
– E daqui a Vila Real?
– A Bila Riali?! A pé?! Porra!… isso é loinji como o caralho! Vosmecê não chega lá huije com de dia, nem que se foda!
Com efeito, a expressividade profunda da Língua não se manifesta nas tiradas dos escritores (sobretudo os ditos “regionalistas”, mas que nunca pisaram bosta de vaca nem escutaram uns/umas aldeões irritados/as); manifesta-se, sim, nestas expressões, a que muitas vezes nem se dá atenção, nem os dicionários as catalogam, porque os dicionaristas, pudicamente, não têm coragem para as mostrar ‘en su sitio’.
Algumas estão perfeitamente situadas na norma, mas contêm ou conotam hipóteses de desvio para sentidos ou compreensões diferentes, devido a um fenómeno da ambiguidade. Estas hipóteses são sinal de criatividade e vitalidade linguística: só as conservam as línguas vivas, sujeitas a uma dinâmica de progresso e, até, explosão,
social que as força a adaptações urgentes a factos, objectos e realidades em constante evolução. Veja-se a chegada dos computadores: de um momento para o outro a Língua ficou crivada de bites, draives, printes, baikapes… e, até, um rato novo, electrónico!
Assim se fixam os disfemismos e, até, o calão asneirento, que, de tão utilizados, são como a roupa muito lavada e, de tão batidos, perderam a brejeirice, ou, até, a maldade – pois o povo ‘tem dias’ de um realismo muito cru.
Os trabalhos do campo, juntam as pessoas e as pessoas conversam, segundo o meio e a condição.
Tal como o musicólogo que quer recolher cantigas, nenhum estudioso da língua pode dispensar a fonte rural campesina, em que a alma popular anda à solta e se desata em músicas e ditos, instintivos, naturais e verdadeiros.
Mas a aproximação ao mundo rural exige Cultura – a mesma palavra pode conter-se no significado da norma ou expandir-se em conotações, até ofensivas, que requerem atenção e bases. Por vezes nem toda a gente percebe todo o alcance do que se está a dizer, nomeadamente as crianças, a quem a experiência ainda não facultou a chave dos
segredos e meandros da vida.

Talvez seja boa metodologia tentar agrupar estas formas marginais de dizer em duas grandes categorias ou situações:

A – Situação de MALDIZER:
– CHUPA-PITOS
Um chupa-pitos é um homem de aparência frágil, sem força e também sem personalidade. A parte essencial de toda a estratégia do acasalamento (de que as danças são montra muito importante) é que as mocetonas rurais escolham os melhores exemplares de homens, mancebos, machos, com capacidade para procriar e gerir uma lavoura, um negócio. Ficar apurado para a tropa era, por ex., uma prova de hombridade e motivo de festa. Quando, por isso, as moças viam um homem sem altura, de aparência engelhada, sem porte e personalidade, um fracotes (e ainda por cima sem dinheiro…) cochichavam entre elas, com risinhos cruéis e chamavam-lhe desdenhosamente isso mesmo: ‘chupa-pitos’. Ora o ‘pito’ é uma denominação popular da vulva. Ainda por cima, uma laranja ‘com pito’ nem se pode comer. Nem toda a gente saberá o que é o ‘pito’ de uma laranja…
Um ribatejano, para se exibir perante a moça mais linda da terra, devia atrever-se a arriscar uma pega de caras com um toiro, ou, ao menos, a apanhar uma cornada de uma vaca mais atrevidota e atravessada; um pescador travar uma luta de vida e morte com as ondas do mar; um homem do Douro devia ter o porte altivo de um mancebo, capaz de ir aos cestos na vindima (uns 70kg às costas) e mostrar todo esse potencial às raparigas.
– VAI MORDÊ-LA! VAI LAMBER SABÃO! VAI LEVAR NO CU! VAI PRÁ CONA (COISA) DA TUA MÃE (OU DA TUA AVÓ)! VAI TE FODER! VAI PRÓ CARALHO! VAI BODAMERDA!
BERDAMERDA!
São respostas bastante ofensivas em resposta a outra ofensa. As expressões ‘Vai mordê-la!’, ou ‘Vai lamber sabão!’ estão muito relacionadas com sexo oral, como em ‘chupa-pitos’.
Ofendem a partir da insinuação de impotência, geralmente masculina, embora também se apliquem a mulheres. Quando alguém se sente incomodado com alguma insinuação, atira, em resposta:
– MORDE AQUI, A VER SE EU DEIXO! e aponta para o pénis. Também se levanta e aponta um dedo da mão: o mais pequenino, o mindinho (repare-se bem na antítese!). A impotência está mais directamente expressa em: PANELEIRO. Também de diz AZEITEIRO. Não se usa muito no Douro o termo MARICAS, ou MARICONÇO. Mas todos os termos arrastam o abandalhamento da atitude homossexual.
A resposta a uma ofensa pode ser procurada em outro campo que não o sexual:
– MERDA-SECA, por ex. exprime o desprezo por quem não vale nada: e, pelos vistos, se é seca, a merda ainda é mais desprezível do que a merda ‘fresca’. Também se lhe chama ‘frasca’ – e não parece que ‘frasca’ signifique essa ‘frasca’ em outra região. Também se diz simplesmente: ó seu MERDEIRO!
O medo é criticado. De forma hiperbólica diz-se:
– BORRADO DE MEDO; e do medroso também se diz MERDOSO, TER UM CAGAÇAL, SER CAGUINCHAS… Indo mais além, o desprezo, real ou fingido, nas discussões menos engalfinhadas, está contido na expressão:
– CARA DE CU, ou um ‘cara de cu do caraças’, é uma pessoa antipática. Muito usada no Douro, indiscriminadamente, é
– FILHO-DA-PUTA. Até as mães chamam isso aos próprios filhos, numa hora de grande irritação; e, quando assim era, ‘chovia porrada como cisco’! [Ver, acima, a fala daquela mãe para o Manel ir ‘à binha lebar o jantar’ ao pai…]
A fama de garanhão era associada por vezes ao cognome
PICHA DE BURRO e, também, PICHA DE PORCO.
Uma grande admiração, espanto, por causa de algo escandaloso merece que o aldeão (e a aldeã) duriense diga:
OLHA O CARALHO!
Mas, se há circunstâncias atenuantes, ou a presença de crianças, modula-se para uma fórmula mais suave: OLHA O CARELHO! ou, ainda, para uma forma mais esbatida: OLHA O VERGALHO! Uma zanga com alguém de má pinta originaria: “Ó seu cara de caralho!”
Uma expressão em que ‘caralho’ é superlativo é: ‘fica longe como o caralho!’
Tudo derivado de ‘pénis’, mais conhecido por ‘gaita’. Mas com muitas conotações!
– Chamar BANDALHO a alguém tem, sobretudo, a ver com falhas de honra ou moralidade.
Chama-se ‘bandalho’ a uma puta, e também a um homem que, com certa gravidade, não cumpre os seus deveres sociais, familiares… Mas, originalmente, ‘bandalho’ é um elemento de um ‘bando’.
Curiosamente, um elemento de uma BANDA (de música) é totalmente isento de ser ‘bandalho’.
Curiosamente, ainda, um TUNANTE é muito parecido com esse ‘bandalho’ de que estávamos a falar. Então, os tocadores das TUNAS são mais bêbedos e bandalhos do que os das próprias BANDAS?
Havia mulheres notáveis pela sua personalidade irascível. Uma mulher assim,
FERVIA EM POUCA ÁGUA, expressão transposta da culinária. Ou ainda.

– TEM PÊLO NA BENTA.

Mas o nosso Povo duriense diz ainda melhor, de uma forma inexcedível em imagística e pitoresco: tal mulher é
ENXERTADA EM CORNO DE CABRA.
Se uma mulher dessas mantinha o marido obediente e submisso, dizia-se que lhe tinha dado
ÁGUA DO CU LAVADO. Dava-se como mezinha aos homens por ocasião da PINGADEIRA, para os fidelizar.
A propósito do mando das mulheres, há o dito:
VARÃO – manda ele e ela não; VARUNCA – manda ela e ele nunca; VARELA – manda ele, quando não manda ela.

B – Situação de IRONIA
A sedução sempre foi e será uma arte, difícil, cujo fim, afinal, é o utilitário acasalamento para a propagação da espécie. Haja ou não pelo meio cantigas e poemas, pois ‘de poeta e louco todos nós temos um pouco’…
PINGA-AMOR é aquele que nunca mais se decide a avançar, chegando a fazer enjoar aquela, ou aquelas, que escolheu para fazer uma corte choradinha, mesmo sem lágrimas a pingar.
Curiosamente, o ‘pinga-amor’ também se chama ao conquistador, ao ‘don Juan’. E aqui cabe a etimologia desse ‘pingar’, que está ligado aos sonhos [e ‘partes’] húmidos, às gotas de ‘esporra’ adiantada…
– É o que significa a expressão DERRETER-SE TODO (ou TODA), aplicada à atracção entre um homem e uma mulher, que facilmente dá nas vistas. Daí passou a um estado de adulação, também chamado ‘dar graxa’ ou ‘lamber as botas’, sinal de dependência exagerada.
– A expressão PRESO PELO BEICINHO também se inter-relaciona com este tema da dependência amorosa: é sabida a ansiedade com que um namorado (ou uma namorada) anseia pelo primeiro beijo, e pelos seguintes… É um ‘estado de graça’ de enorme espectativa, felicidade e prisão (= compromisso).
DAR-LHE A VOLTA, ou PASSAR-LHE A PERNA são expressões sinónimas que se devem situar basicamente numa linguagem de cama. Ela mostra-se (instintivamente? fingidamente?) esquiva, mas ele, com arte e jeito, lá consegue o que quer: ‘dá-lhe a volta’ ou ‘passa-lhe a perna’… Depois a situação generalizou-se a outras situações, de muito maior disputa e muito menos amores.
IMBELA-ME! (=embala-me) é uma expressão que se usa para identificar e afastar os exageros laudatórios (‘graxa’ e outros piropos). A pessoa que os recebe, faz saber que não está a ser aliciada e a estratégia não resulta, embora por dentro esteja a gostar e, até, disposta a ceder. As raparigas bonitas do Douro costuma(va)m incluir este ‘imbela-me’ nas suas reacções (iniciais) aos piropos dos pretendentes.
Uma expressão também muito conhecida é
À RASCA. ‘Rascas’ são os restos da lenha, os chamiços. A lenha para a lareira do inverno tinha de ser cortada, recolhida e preparada com tempo, a fim de a cozinha e o aquecimento do lar ficarem desde logo prevenidos, incluindo tempo para secar. Se havia descuido, a ida à lenha era ir ‘à rasca’, pois os outros já tinham levado os melhores nacos.
Para o fim fica uma expressão muito típica da gíria popular:
COAR AS CASTANHAS.
Aos testículos chama(va)m-se vários nomes, nomeadamente ‘bolas’, ‘sacos’, ‘tintins’,colhos’, ‘colhões’ e, sobretudo, ‘tomates’. Mas há quem lhes chamasse ‘castanhas’, associadas à expressão que significa ‘mijar’: COAR AS CASTANHAS.
Claro que se trata de uma expressão fácil numa região de castanheiros; mas parece exagero machista associar implicitamente os picos dos ouriços a a essas castanhas.
Observação:
Muitos outros vocábulos e expressões (de carácter disfemístico ou eufemístico), circulam no Alto Douro! Apenas se seleccionou meia dúzia para publicar.., o que basta para agitar curiosidades ou espantos (até aos gatos e gatas…).

3. Versos de Escárnio e Maldizer
Um investigador amigo, Manuel Leal Freire, compilou no seu livro TROVAS DE ESCÁRNIO EM VERNÁCULO muitos versos e ditos pitorescos, em que o carácter jocoso, atrevido e satírico do nosso povo se exprime livremente, não sendo necessário sequer falar da literatura licenciosa de cordel, que circulava libertária e anonimamente no ‘bas-fonds’ de marinheiros de Lisboa e do Porto. E explica:
“…os chorrilhos de disparates que atravessam a colectânea, mesmo as expressões com palavras banidas do linguajar das pessoas de boa educação, são de genuina criação popular, e quando empregam o palavrão o fazem, umas vezes, num espírito de catarse, outras na convicção de que não haverá vocábulo capaz de transmitir com igual força essa ideia, outras ainda na pressuposição de que se trata de vocábulo bem nascido, mas transviado pelos baldões da semântica.
O ‘pisces foderunt conas’ é uma construção latina inocentíssima que apenas traduz as consequências da excessiva pressão dos peixes sobre as fragilidades da rede. E, no entanto, todos aqueles três termos do mais clássico latim acabaram por cair no caldeirão das obscenidades. O particípio passado do verbo que se enunciava pelos vocábulos fodio, fodis, fodere, fossi, fossum e que neste último termo veio a tornar-se muito usual na terminologia militar – sendo cova aberta em torno de praça forte, pelo lado de fora, para que o atacante não chegasse facilmente ao muro, o que se dificultava ainda mais, transformando a cova em canal alagado, não esconde a génese. De resto, há regiões, onde o verbo, nos seus diferentes modos e tempos significa atribulação, sofrimento:
– Senhor Compadre, disse-me uma velhinha extraordinariamente virtuosa – depois que morreu a sua afilhada, ando para aqui fodidinha de cansaço, que o trabalho da horta e cortelhos é muito…
“No que concerne à poesia popular, escabrosa ou simplesmente lírica, é difícil extrair uma certidão de idade. Quanto à erudita, tributária de Eros e Sátiro, encontramo-la logo nos primitivos cancioneiros – Vaticana e Colocci-Brancuti – e podemos acompanhá-la depois no de Garcia de Resende e em sucessivas antologias, mais ou menos divulgadas, mais abertas, clandestinas ou semi-clandestinas (…). Os filólogos, os folcloristas, os amantes de poesia, a gente de bem que aprecia uma boa risada, certamente que rejubilarão com a antologia que não ofende os moralistas que sejam indemnes ao farisaísmo.”

Escolhemos deste livro vernáculo uma pequeníssima amostra, apenas três quadras:

As mulheres são o diabo
Parentes do Inimigo
Que nos fazem estender
O que temos encolhido.

As mulheres são o diabo
Levam às penas eternas
Basta que abanem o rabo
E finjam que abrem as pernas

Toda a mulher que se escapa
À meia-noite prá rua
O que ela quer à socapa
É um palmo de carne crua.

4. Poesia de andaime, ou a arte do piropo popular
O trolha típico tradicional (do Douro e de qualquer lado) era [ah! já não é?] uma instituição etilizada, se não logo depois da aguardente e broa do mata-bicho, pelo menos depois daquela litrada de tinto ao ‘jantar’. As tardes eram animadas: não havia frio ou calor que entrasse em competição com uma boa anedota, um bom Benfica-Porto de bancada, ou… um bom piropo às mulheres transeuntes.
Desde tempos primatas, onde um cru puxão de cabelos simbolizava a paixão selvagem do macho pela fêmea, passando pelas serenatas estudantis à janela da amada e pelas tradicionais cartas de amor [e agora os sms e os emails…], o homem sempre procurou cativar o sorriso da sua amada de tantas formas quantas as que a imaginação permite.
Quando o poeta diz:
O amor é fogo que arde sem se ver,
o povo distorce:
O que é bom é para se ver.
Hoje, tempo de ‘chavalos’ e ‘garinas’, quando a mulher modernaça se deleita com os seus passeios vespertinos, pode escutar a voz da admiração e do desejo bradar, de improviso, fulgurantemente, do alto poleiro de um andaime:
Eh, carapau!
Eh, fanequinha!
Se o andaime e a crueza da frase sugerem o primata latente e trepador, que não raro se faz acompanhar de um porno-calendário no local de trabalho e incomoda a mulher séria (e também as pessoas normais), já a poética de muitas tiradas indicia algo do ‘homo sapiens sapiens’ virtual. De facto, há piropos que são autênticos versos, baseados num engenhoso trocadilho ou numa criativa metáfora, apuradas por uma ou outra hipérbole e com um ritmo aceitável.
A improvisação da oralidade aumenta-lhes o impacto; e, talvez, lhe dê, não raro, a graça de um encanto misterioso, selvático e apelativo. Não precisam de muito, estes poetas – pedreiros, trolhas, carpinteiros – basta-lhes uma simples rima, ou um trocadilho, para ‘embrulhar’, ou ‘metaforizar’, a inspiração:
– Ó flor, dá para pôr?
– Ó musa dás-me tusa.
– Ó bomboca, mostra a toca!
– Ó doce, era onde fosse.
– Ó beleza, deixas-ma tesa.
– Ó boneca, vai uma queca?
– És como um helicóptero: gira e boa.
– Ó febra, junta-te aqui à brasa.
– Ó jóia, anda aqui ao ourives.
– Ó “morcona”, comia-te o sufixo.
– Ó filha, aperta aqui que é mais fofo.
– Ó jeitosa, és mais apertadinha que os rebites de um submarino.
– Andas na tropa? É que marchavas que era uma maravilha.
– Tantas curvas e eu sem travões.
– A tua mãe só pode ser uma ostra para cuspir uma pérola como tu.
– Tens um cu que parece uma cebola, é de comer e chorar por mais.
– Só queria que fosses uma pastilha elástica para te comer o dia todo.
– Tanta carne boa e eu em jejum.
– Ó filha, agora já percebo porque é que tenho a talocha nas mãos.
– Belas pernas, a que horas abrem?
– A ti não te custava nada e a mim sabia-me tão bem.
– Até davas uma boa actriz mas és muito melhor atrás.
– Ainda dizem que as flores não andam.
– Ó filha, com um cuzinho desses deves cagar bombons.
– Só custa a cabeça que o resto é pescoço.
– Que rica sardinha para o meu gatinho.
– Ó filha, o teu pai devia ter a régua torta para te fazer com curvas assim.
É pena que alguns piropos, e dos poeticamente mais engenhosos, empreguem uma linguagem excessivamente ‘hard core’, que não cabe aqui, com pena nossa.
– Só queria que fosses um cavalinho de carrossel, para te montar todo o dia por 50 cêntimos.
– Contigo, filha, era até ao osso.
– Posso tocar no teu umbigo da parte de dentro?
– Caiava-te toda de branco por dentro.
– Contigo era até encontrar petróleo.
– És tão quente que até se me grelham os tomates.
– Diz-me quem é a tua ginecologista para eu lhe ir chupar o dedo.
– Ainda dizem que a fruta verde não se come.
– Ó boneca, era a estrear.
– Só a mim é que não me calha uma destas na rifa.
– Se cair, já sei onde me agarrar.
– Acreditas em amor à primeira vista, ou tenho que passar por aqui outra vez?
– Não te esqueças do meu nome, mais logo vais gritá-lo.
– Minha senhora, troco a sua filha por um piano, assim, podemos tocar os dois.
– És um bilhete de primeira classe para o pecado.
– Queria ser um patinho de borracha para passar o dia na tua banheira.
– Deves estar tão cansada, passaste a noite às voltas na minha cabeça.
– Com uma montra dessas, imagino como é o armazém.
– Ó filha, contigo era até partir os pés à cama.
– Ó doce, anda cá a cima fazer uma festinha ao tareco.
– Não és nada de se deitar fora, já tive pior e a pagar.
– Podes não ser a rapariga mais gira, mas com a luz apagada também é bom.
– Ó filha, tens carinha de Modelo mas o teu cu é um Continente.
– Com umas bóias dessas o Titanic não tinha ido ao fundo.
– Com um piso desses deves ser mais rodada que a 2ª Circular.
– Ó filha, anda cá dar um beijinho ao trolha.
– Ai, não queres? Eu vi logo, gorda como estás, é porque não suas muito.
– És mesmo esguia, pareces uma sereia: metade mulher, metade baleia.
– Ó filha, com esse atrelado só com carta de pesados.
– Sabias que te fica muito bem a cara?
– Ainda pensei levar-te no meu coração, mas depois topei que era muita areia para o meu camião!

Também há piropos destes com vocabulário de ‘inspiração’ religiosa:
– Ai, Jesus, que és tão boa!
– Diz-me lá como te chamas para te pedir ao Menino Jesus.
– Ó filha, queres ir ao céu? Sobe os andaimes que o resto do caminho é por minha conta.
– Ó filha, se não acreditas que Deus é feito de carne e osso sobe os andaimes.
– Abençoados pais que fabricaram esta coisinha linda.
– Por acaso és católica? É que tens um cu que valha-me Deus.

As chamadas «bocas foleiras»
Não se conhece documentação de reacções por parte das musas destinatárias destes poemas de andaime. Mas, num ambiente mais ‘bebido’, como uma discoteca, um concerto, ou um lugar público de arraial ou de festas populares, será possível escutar diálogos como estes, a que vamos chamar ‘bocas foleiras’:

1. Boca foleira: Como eu queria ser esse sorvete!
Resposta: Além de ser fresco, queres ter o pau enfiado no rabo também?
2. Boca foleira: Se a beleza desse cadeia você apanhava prisão perpétua.
Resposta: Se feieza fosse crime, você apanhava pena de morte.
3. Boca foleira: Gata, você é muito linda, só tem um problema: a sua boca tá muito longe da
minha!
Resposta: Questão de higiene.
4. Boca foleira: Qual o caminho mais rápido pra chegar ao seu coração?
Resposta: Cirurgia plástica, lavagem cerebral e uns 3 meses de porrada.
5. Boca foleira: Você é a mais bela das belas das flores, uma rosa. Quer florescer no meu
jardim ?
Resposta: Eu ia morrer de sede com o tamanho do seu regador!
6. Boca foleira: Eu não acreditava em amor a primeira vista; mas quando te vi mudei de
ideias.
Resposta: Que coincidência! Eu não acreditava em fantasmas.
7. Boca foleira: Você tem uma boca! Deve ter um gostinho… Posso provar?
Resposta: Pode… (cospe no chão e vira as costas)
8. Boca foleira: Se tivesse uma mãe como você mamaria até os 30 anos.
Resposta: Se eu tivesse um filho como você mandava-o pró circo!
9. Boca foleira: Olha, eu não sabia que uma boneca andava!
Resposta: E eu não sabia que um macaco falava!
10. Boca foleira: Olá, o cachorrinho tem telefone?
Resposta: Tem, porquê? A sua mãe está no cio?
11. Boca foleira: Este lugar está vago?
Resposta: Está, pois, e este aqui onde estou também vai ficar se você se sentar aí.
12. Boca foleira: Então, o que faz você na vida?
Resposta: Sou travesti.
13. Boca foleira: Será que eu já não te vi em algum lugar?
Resposta: Claro! Eu sou a recepcionista do hospital dos malucos… não se lembra?
14. Boca foleira: A gente já não se encontrou em algum lugar antes?
Resposta: Já! e é exactamente por isso que eu não vou mais lá.
16. Boca foleira: Eu gostava de te ligar, qual é o teu telefone?
Resposta: Está na lista.
Réplica: Mas eu não sei o seu nome.
Tréplica: Também está na lista, na frente do telefone.
17. Boca foleira: Ora, vamos parar com isso, nós dois estamos aqui neste baile pelo mesmo motivo.
Resposta: É, pra arranjar mulher…
18. Boca foleira: Eu quero me dar por completo a si.
Resposta: Sinto muito, eu não aceito esmola.
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