GCAD – RIMANCES medievais

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Descrição

RIMANCES MEDIEVAIS

RIMANCEIRO DO ALTO DOURO

 

 

 

 

 

EXEMPLOS

Aldininha 931

Aldininha, ó Aldinha, queres ser minha namorada?
Eu com ouro te vestia e com prata te calçava.
– Cale-se lá, ó meu pai, isso não pode ser;
Eu sou a sua filha e não sou sua mulher.
O pai, assim que soube, que Aldininha namorava,
Mandou fazer uma torre p’ra Aldininha ter fechada.
Esteve lá uns oito dias sem comer nem beber nada
E aos fim dos oito dias já a sede lh’apertava.
Subiu-se a uma janela, à mais alta que a torre tinha,
E avistou a sua irmã na varanda da cozinha.
– Ó irmã da minha vida ò da minha infeliz sorte,
Trazes-me uma pinguinha d’ água, serei tua até à morte.
– Dava, dava mana minha, a mim pouco me custava;
O papá deixou escrito que o pescoço me cortava.
Subiu-se a outra janela, à mais alta que a torre tinha,
Avistou a sua mãe a bordar em prata fina.
– Ó mamã da minha vida ó da minha infeliz sorte,
Trazes-me uma pinguinha d’água,serei sua até à morte.
– Dava, dava filha minha, a mim pouco me custava;
O papá deixou escrito que o pescoço nos cortava.
Subiu-se a outra janela à mais alta que a torre tinha,
Avistou o seu irmão na janela da cozinha.
– Ó irmão da minha vida ou da minha infeliz sorte,
Trazes-me uma pinguinha d’ água, serei tua até à morte.
– Dava, dava mana minha, a mim pouco me custava;
O papá deixou escrito que o pescoço me cortava.
Mandou todos os caixeiros levar água Aldininha
E o primeiro a lá chegar casaria com Aldinhinha
O primeiro a lá chegar foi o caixeiro-viajante;
Ao dar água a Aldininha… ela morreu num instante!

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Condessa, condessinha 943

– Condessa, ó condessinha, condessa do Aragão:
Venh’ te pedir uma filha de tantas que elas são.
– Minhas filhas não tas dou, nem por ouro nem por prata,
nem por sangue da lagarta, oh que belas qu’elas são.
– Tão contente como vinha, tão triste me vou a achar;
pedi uma filha minha, das mais belas que elas são.
– Minhas filhas não tas dou, nem por ouro nem por prata,
nem por sangue da lagarta, oh que belas qu’elas são.
– Tão contente como vinha, tão triste me vim a achar;
pedi uma filha tua, condessa não ma quis dar.
– Volta atrás, ó cavalheiro, serás uma mãe de mães;
darei-t’uma filha tua, se ma estimares bem.
– Estimo, estimarei, sentada numa almofada,
fiando continhas d’ouro; salta cá, ó minha amada.

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A Juliana (915)

– Tu que tens, ó Juliana, que andas tão triste a chorar?
– Que hei-de ter, ó minha mãe, D. Jorge vai-se casar!…
– Bem te disse, minha filha, não quiseste acreditar:
o namorar de Dom Jorge era só pra te enganar.
Já lá baixo vem Dom Jorge, montado no cavalinho:
– Bons dias, ó Juliana! – Vem com Deus, ó Dom Jorginho!
Disseram-me ali, Dom Jorge, que estavas para casar…
– É verdade, Juliana, eu te venho convidar:
no dia do casamento, tu irás acompanhar
a minha bem querida noiva até junto do altar.
– Espera um pouco, ó Dom Jorge,enquanto eu vou ao sobrado
buscar vinho de há sete anos, que te tinha reservado.
– Eu não queria, Juliana, que venho muito suado;
mas aceito um poucochinho, pra agradecer o teu cuidado.
– Que fizeste, ó Juliana? que deitaste neste vinho?
Tenho já a vista escura, nem vejo o meu cavalinho…
e a minha mãe, lá em casa, a julgar seu filho vivo!
– Também a minha julgava que te casavas comigo!…

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O soldado (Tu que tens, ó soldadinho?)  1028

– Tu que tens, ó soldadinho, qu’andas tão triste na guerra?
Ou te morreu pai ou mãe ou gente da tua terra?
– Não me morreu pai nem mãe nem gente da minha terra;
Ando triste por a amada, que eu deixei e vim p’r’à guerra.
– Monta lá naquele cavalo, soldadinho, vai à terra;
ao cabo de sete i-anos, soldadinho volta à guerra.
Lá no meio do caminho, má figura encontrou.
– Que fazes, ó soldadinho? Que fazes agora aqui?
– Vou ver a minha amada, dias há que não a vi.
– Tua amada é morta, é morta, que eu bem na vi.
– Dize-me as sinas que levava, para m’eu fintar em ti.
– Levava meias de seda, sapatinhos de chàgrim,
e o cabelo entrançado, que ela o pediu assim.
– Anda, i-anda, meu cavalo, qu´inda tens muito p’r’andar;
na campa da minha amada tens tempo de descansare.
Abre-te, campa sagrada, minha amada quero ver;
quero-le beijar o rosto antes da terra a comer.

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A Juliana ou O Luisinho 998

– Aonde vais, ó Luisinho, ai, ai, na tua bela montada?
– Venho ver-te, ó Joaninha, no camarote assentada.
– Disseram-me, ó Luisinho, que estavas pra te casar…
– É verdade, ó Joaninha, e venho-te convidar.
– Espera aí, ó Luisinho, espera mais um bocado:
quero que proves do vinho que pra ti tinha guardado.
– Ai de mim, ó Joaninha, não sei que tinha o teu vinho,
ainda agora que o bebi já num enxergo o caminho!
– Deitei-lhe espinha de cobra e sangue de rosalgar (*)
pra que saibas, Luisinho, que já não te vais casar!
– E a minha mãe a cuidar que tem o seu filho vivo!
– Também a minha cuidava que te casavas comigo!
– Venha papel, venha tinta, venha também escrivão,
para eu deixar escrito o pago que as mulheres dão!
– Aqui está papel e tinta e também o escrivão,
para eu deixar escrito o pago que os homens dão!…
(*) produto (ex. cogumelo) com sulfureto de arsénio.

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Rimance do cego 1 (Santa Helena) 1009

Çaramago verde, verde çaramago
Vou para a Galiza, vou pra o Santiago
– Acorda, Helena desse teu dormir,
Vai ver o cego à porta a pedir.
– Se o cego toca dá-lhe pão e vinho,
Se o cego não toca dá-lhe pão sozinho.
– Nem quero do pão nem quero do vinho,
Só quero que a Helena me ensine o caminho.
– Pega esta roca, carrega-a de linho,
E vai, Helena, ensina o caminho
Vês aqui, ó cego, vês aqui o caminho.
– Adiante, adiante mais adiantinho,
– Adiante, cego, lá vai o caminho.
– Sou curto de vista, não vejo o caminho
– Valha-me Deus e a Virgem Maria;
Quanta gente passa de cavelaria!
– Esconda-se, Helena debaixo da minha capinha;
– Ai, Nunca vi cego com tanta anergia,
Nunca he visto capas de tanta valoria:
Por fora remendonas e por dentro floridas
Com um cinto d’ouro e uma espada assassina.
De condes e duques eu fui pretendida
E agora de um cego me vejo vencida!…

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A má sogra (Santa Helena)  917

– Quem m’ dera naquel’ monte, ou mesmo naquele vale,
quem me dera mais além, nos palácios de meu pai.
– Se os desejos forem muitos, caminho para além vai.
– E se vier o meu Pedro, quem le há-de pôr o jantare?
– Se vier o teu D. Pedro, eu le porei de jantare
e da caça que trouxere, dela a ti te hei-de mandare.
Um por ua porta a saire, outro por outra a entrare.
– Donde está a minha Helena, que não me põe de jantare?
– A Helena, ó meu filho, foi pra casa de seu pai:
a mim chamou-me perra moira e a ti filho de mau pai.
– Ala, ala, meus criados, depressa e não devagare!
Jornadinha de três dias em três horas se há-de andare!
Aparelhem meu cavalo, que temos muito pra andare!
Apertem-lha bem a silha, alarguem-lhe o peitoral!
Jornadinha de três dias em três horas se há-de andare!
– Pelo meio do caminho encontrou o seu cunhado:
– Deus vos guarde, ó meu cunhado, tendes um filho varão!
– Prás alegrias que eu tenho, quer seja varão ou não!
– Onde está a minha Helena, que já a quero levare?
– Paridinha de hora e meia, como a queres tu levare?
– Quer parida, quer prenhada, comigo ela há-de marchare!
– Cale-se lá, minha mãe, já s’ devia ter calado:
mulher que é bem casada, faz o que o marido manda.
Deia-me o meu colete, que me quero apertare.
Subiu para o seu cavalo e tratou de caminhare.
Mas no meio do caminho suspirou e deu um ai.
– Porque suspiras, Helena, pois que dás tamanhos ais?
– Olha para o meu cavalo, se queres ver como ele vai
todo banhado em sangue, que deste corpo me sai!
Quem me dera aqui um clér’go, que me queria confessare!
– Confessa-te a mim, Helena, que Deus t’há-de perdoare
dos teus pecados pequenos: dos grandes não há vagare.
A quem deixas o teu ouro, que o haja de lograre?
– À minha mana mais nova, que bem o há-de estimare.
– A quem deixas os teus fatos, que os haja de gastare?
– À minha mana do meio, que bem nos há-de estimare.
– E a quem deixas o teu filho, que to haja de criare?
– À perra da tua mãe, causadora do meu mal.
Puxou por um punhal de ouro, e logo ali a matava.
Foge, foge o cavalheiro, nunca por ali passara.
Ao cabo de sete i-anos cavalheiro ali passou;
e então viu um pastorinho guardando sua ovelhada:
– De quem é aquela capela, de quem é aquela morada?
– Capela de Santa Helena, que um cavalheiro a matara.
– Perdoa-me, Helena, meu amor primeiro…
– Como perdoar-te, ladrão carniceiro?
mataste-me no monte, como o lobo a carneiro…
mas vais aqui ao teu filho, se ele perdoaria.
– Perdoa-me, filho, meu amor primeiro…
– Como hei-de perdoar, lobo carniceiro,
que matou minha mãe no monte, como lobo a cordeiro?
– Não dirás tu, filho, em que pena eu cairia?
– Condenado ao inferno, por causa de uma má língua!
– Mal hajam as más línguas e quem nelas lá se finta!
Por causa de uma má língua, matei a mulher querida!

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A mulher avarenta  920

Era um homem muito rico três vezes enviuvou;
Casou com uma mulher pobre, grande soberba se tornou.
Vem na Quinta-feira Santa, quinta-feira qu’há-de vire;
Está um pobre à sua porta, oh que lindo tem pedire.
Nem l’iam a dar esmola nem o iam despedire;
O pobre entrou p’ra dentro, tornou a repetire.
O homem, por ser dorido, dorido do coração,
Entrou para a cozinha, deu-lhe um bocado de pão.
A mulher, por ser ingrata, das mãos lho foi tirar;
Co’a soberba que levava à caldeira o foi deitare.
– Vem cá tu, ó meu marido vem cá tu, se queres vere.
Uma caldeira sem nada cheia de sangue a fervere.
-Vem cá tu mulher ingrata, ingrata do coração;
perdestes o corpo e alma por um bocado de pão!…
Era meia-noite em ponto quando estava a suspirare:
Os mosquitos eram tantos que a levantavam ao are!…
Os diabos eram centos em cima dela a voare!…
Foram-na a enterrare e não acharam qu’enterrare!…
Com isto, ó meus senhores, esmolas cada vez mais.

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A donzela apaixonada  908

Namorou-se um cavaleiro da filha dum lavradore
despois que a namorou longos meses se ausentou
Donzela, como discreta, ao caminho se deitou
lá no meio do caminho bandeiras encontrou.
– Oh Deus vos guarde, lavadeiras,Deus vos saiba guardare
dos trabalhinhos do mundo e das areias do mare
Cavaleiro de armas brancas viram por aqui passare?
– Esse homam, ó menina, aqui passou ò jantare.
Chegou a mais um pinheiredo, cavaleiro vira estare
numa banquinha a escrevere numa janela a notar.
– Donzelinha, de tão longe, quem te trouxe a este lugare?
– Os amores do cavaleiro, que são maus de ausentare.
– Quando eu quis, tu não quiseste, agora tens de deixare.
Donzela, como discreta, morta se deixou ficare.
Nem com vinho nem com água a pôde ressuscitare.
– Ressuscitai-a, mãe do céu, que só vós podeis obrare.
Minha mãe, que sois mais velha, um conselho me há-des dare.
– Agarra-a pelos cabelos e deita-a ao muladar.
– Isso não, ó minha mãe, que isso não é ser leale.
Mando-le fazer o enterro com pedrinhas de cristale,
que digam os passageiros que aqui está gente reale.

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Antoninho   934

Antoninho lá na aula e uma pedrinha atirou,
ao brincar co’s estudantes o pavãozinho matou…
– Bons dias, ó meu papá, bons dias le quero dáre
matei o pavão do mestre, trate-o já de ir pagare.
– Está aqui dezoito libras, ou vinte que elas serão,
para pagar a valia do seu estimado pavão.
– Guarde lá esse dinheiro, para amigos não é nada;
mande o Antoninho à escola, inda tem a mesma entrada.
– Antoninho, vai prá escola, que precisas de aprendere.
– Eu não vou, meu pai, não vou, porque sei que vou morrere!
Antoninho vai prá i-aula, todo o caminho a choráre,
chegou à porta da intrada inda ia a soluçare…
e inda ia a soluçare, da sala para o salão.
– Assenta-te, ó Antoninho, e estuda a tua lição,
estuda a tua lição e sem pontinha de errore,
ó depois de estar estudada, tu falas co’o professore.
– Rapazinhos da escola, que é do meu Antoninho?
– Está no quarto dos livros, morto como um passarinho…
O seu pai, que isto oviu, meteu-lhe pena de horrore
meteu o revolv’ ò bolso: – vou matar o professore!…
Vou matar o professore, como se mata um cão:
matou-me o meu Antoninho, sem ter causa nem rezão!…
Vou manda-lo à justiça, vou mandá-lo à prisão,
que matou o meu António, com uma falsa razão,
e eu vou-me pôr à janela a ver passar o caixão!…

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