CANCIONEIRO SALOIO

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CANCIONEIRO SALOIO

Reúne 170 canções (pautas) recolhidas na zona saloia – grosso modo originariamente toda a zona agrícola fornecedora dos mercados de Lisboa, até ao Cabo Espichel. Actualmente ainda se chama Zona Saloia ao noroeste de Lisboa Oeiras, Cascais, Sintra, Mafra… sensivelmente até Caldas e Rio Maior.

Num estudo introdutório (PREÂMBULO), Altino M Cardoso faz uma abordagem pluridisciplinar dos contornos poético-musicais, recreativos, geográficos, históricos, sociológicos e económicos dessa zona, em que a ruralidade funciona como satélite da Capital e dos seus mercados.

Transcrevemos alguns excertos do PREÂMBULO 
do livro CANCIONEIRO SALOIO:

– (2) Pão saloio, queijadas saloias, azeite saloio, enchidos saloios, pedras ornamentais saloias, vinho e água-pé saloios, castanhas saloias, fruta saloia … Mas não há peixe saloio: a Ericeira não é saloia.

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(3) Sobre as execráveis ‘pulhas’ de alguns saloios (até 1957), ver livro do MTBA: Sintra e as suas Quatro Aldeias. Ver, ainda, as notas à cantiga Ó ai, ó linda (p. 86)

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(4) “À grande e à francesa” é expressão do tempo de D. João V, cognominado ‘o Magnânimo’. O Francês era a língua do mundo civilizado, como o Latim o fora no quinhentismo e o Castelhano no século dezassete (quando ambas as metades do Mundo de Tordesilhas caíram nas mãos de Castela, depois de Alcácer-Quibir).

Para D. João V o ouro era o material normal de todo o recheio e utensílios: poltronas, copos, taças, salvas, fivelas (com diamantes), pentes, escovas, cálices, pratos e bandejas… além de sedas e veludos, arreios de ouro e prata para cavalos importados a peso de ouro, incenso, procissões…

Merecia todo o seu cuidado o desenho a lápis de um ou dois sinais postiços. Visitava damas de alto gabarito, utilizava piropos em francês – ao mesmo tempo que… ia, embuçado, para a saída das igrejas apalpar o rabo a donas de casa anónimas. Veja-se O Judeu, de Bernardo Santareno.

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(5) Lembro que o português está cheio de vocábulos de origem francesa: tablier, capot… Os linguistas actuais têm mesmo gasto precioso tempo a nacionalizar para português vernáculo palavras como sutiã ou dossiê, enquanto até nas aldeias há boutiques de tudo, até de pão…

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(6) Os saloios, hostilizados e com o dinheiro das vendas no bolso, andavam sempre armados com o ‘pau ferrado’. N’Os Maias: “com um chicote, dispersara na estrada três saloios de varapau que lhe tinham chamado palmito”. Isto é: o pequeno herói é elevado à categoria dos que são capazes de vencer não apenas um, mas três saloios! Trata-se de um… romance, saído da fantasia de Eça de Queirós (e do coração revigorado de um avô: Afonso da Maia).

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(7) Leia-se Cesário Verde (in: Num Bairro Moderno) e medite-se no ‘cobre lívido’ do desprezo do criado e na ternura humilde do trabalho saloio em Lisboa:
E, rota, pequenina, azafamada,
Notei, de costas, uma rapariga,
Que no xadrês marmóreo de uma escada,
Como um retalho de horta aglomerada,
Pousara, ajoelhando, a sua giga. (…)
Do patamar responde-lhe um criado:
«Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais». E, muito descansado,
Atira um cobre lívido, oxidado,
Que vem bater nas faces de uns alperces.
(…) E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E dera o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me, prazenteira:
«Não passa mais ninguém!… Se me ajudasse?!…»

NOTA: É uma visão carinhosa da heróica Mulher Saloia:

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(9) Cesário Verde deve ser lido como poeta de Lisboa e, por antítese, da região saloia (tinha uma quinta em Oeiras/Linda-a-Pastora) para onde a família fugia da capital.
“Tínhamos nós voltado à capital maldita (…)
Pois a Coroa, o Banco, o Almirantado,
Não as [parreiras moscatel] têm (…)
Pradarias de um verde ilimitado (…)
Anglo-saxónios [além dos lisboetas], tendes que invejar!
Ricos suicidas, comparai convosco!
Aqui, tudo espontâneo, alegre, tosco,
Facílimo, evidente, salutar!
Oponde às regiões que dão os vinhos
Vossos montes de escórias inda quentes!
E as febris oficinas estridentes
às nossas tecelagens e moinhos! (…)
Aspiro um cheiro a cozedura, e a lar
E a rama de pinheiro! Eu adivinho
O resinoso, o tão alegre pinho
Serrado nos pinhais, à beira-mar.
E sinto, se me ponho a recordar (…)
As tradições antigas, primitivas,
E a formidável alma popular!
Oh! Que brava alegria eu tenho, quando
Sou tal qual como os mais! E, sem talento,
Faço um trabalho técnico, violento,
Cantando, praguejando, batalhando!

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(10) Os saloios trabalhavam imenso e duro: grandes viagens a pé para Lisboa, grandes carregos na luta contra a pobreza. Hoje dir-se-ia, em linguagem familiar e futebolística: ‘davam o litro’ (de suor) e produziam o correspondente odor corporal. Mas ninguém se lembra de publicitar (muito menos depreciar e achincalhar!) os cheiros nos balneários depois de um jogo, por respeito pelo trabalho dos Atletas que profissionalmente se empenham e são grandes pelo seu esforço, capazes de atrair multidões e assumir-se como Mitos dos Tempos Modernos.

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(11) Os primeiros e mais sensíveis descobridores da Região Saloia foram os poetas (não só Byron), que não toleravam Lisboa e adoravam a pureza dos espaços e das gentes de Sintra, Oeiras, Mafra…. Além de Cesário, o nosso Fernando Pessoa:
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites [em Lisboa],
O meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo, (…)
À porta do casebre,
O meu coração vazio (…)
Álvaro de Campos

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NOTA FINAL ….porque todos somos poucos perante a urgência na preservação, estudo e difusão da Cultura Popular, que é nosso Património. E só com a conjugação dos materiais em volume se tornará esta herança histórica acessível aos jovens, cada vez mais solicitados e desviados da Tradição pelos grandes média.

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Musicalmente, o livro  CANCIONEIRO SALOIO é uma selecção dos mais típicos espécimes musicais em uso pelos principais ranchos folclóricos da Região Saloia.

E aqui Altino Cardoso deixa uma homenagem de gratidão aos grandes folcloristas que conheceu e admira. Entre eles, salienta, pelo seu dinamismo e continuidade, verdade e espírito de missão cultural, no concelho de Sintra:

Herculano Rosário Busca

Rancho Vendedeiras Saloias
– Algueirão-Mem Martins;

 

 José Júlio Melo

– Rancho Folclórico da Rinchoa
– Rio de Mouro;

 

Jacinto Carloto

Rancho Folc. dos R.D.A.
– Recreios Desportivos do Algueirão;

 

 Adelaide Saraiva

Rancho dos Recreios da Venda Seca
– Belas.

 

José Vidal

Rancho do M.T.B.A.

– Magoito+Tojeira+Bolembre+Arneiro dos Marinheiros);

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Um MAPA DAS PRINCIPAIS DANÇAS SALOIAS

Analisando o MAPA DAS PRINCIPAIS DANÇAS SALOIAS – uma tabela de danças e géneros musicais saloios que elaborou e apresenta no final de obra – Altino Cardoso conclui que, seguindo os critérios de autenticidade aplicáveis, o actual repertório musical saloio está dividido em três categorias:

Música saloia autóctone e tradicional, com instrumentos populares originais (flautas, clarinetes, violinos, violas, bombos, ferrinhos, reque-reques…) – muito mais tarde os aerofones: harmónicos, concertinas (diatónicas>cromáticas), acordeões… );
Música (saloia) importada do Brasil, com temáticas e ritmos mais exóticos e maior variedade de instrumentos de percussão;
Música (saloia) ‘palaciana’ – captação de músicas dos salões e cortes da Europa (Versalhes…), trazidas por músicos profissionais (para os salões aristocratas de Mafra, Oeiras, Belas e Queluz, por exemplo) na época de ouro oitocentista dos palácios e quintas. Daí transitaram para o ouvido da mão-de-obra rural dos servidores (criadas, cozinheiros, cocheiros, pedreiros, carvoeiros, trolhas, jardineiros…).

Ver mais, do mesmo autor: MUSEU SALOIO – PATRIMÓNIO IMATERIAL

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EXEMPLOS

Bailarico saloio (Recolha – Gravação)

Bailarico saloio 2 (Recolha, arranjo instrumental AMC)

Bico e tacão (Recolha – Gravação)

Bico e tacão (Recolha, arranjo instrumental AMC)

Chotice saloia (Recolha – Gravação)

Chotice saloia (Recolha, arranjo instrumental AMC)

Polka e Mazurka (Recolha – Gravação)

Polca e mazurca (Recolha, arranjo instrumental AMC)

Valseado (Recolha – Gravação)

Verde gaio batido (Recolha – Gravação)

Verde gaio batido (Recolha, arranjo instrumental AMC)

Vira de três (Recolha – Gravação)

Valsa a dois passos (Recolha, arranjo instrumental AMC)

Desgarrada saloia (Recolha, arranjo instrumental AMC)

Corridinhas do Baleia (Homenagem ao acordeonista João Baleia) (Recolha, arranjo instrumental AMC)

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