TEATRO – Os Bobos Durienses de D. Sancho I

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OS BOBOS DURIENSES DE D. SANCHO I E O INÍCIO DO TEATRO PORTUGUÊS

O estudo estabelece em tese que Bonamis e Acompaniado, os dois Bobos de D. Sancho I, iniciam o Teatro português – tal como o próprio D. Sancho I é o primeiro trovador da nossa Literatura, com o poema de amigo “muito me tarda / o meu amigo na Guarda“.

A continuidade dos espectáculos de Bobos na corte é uma tradição herdada já do Conde D. Henrique e proveniente das cortes senhoriais borgonhesas.

A escritura de doação de Canelas (Peso da Régua) aos Bobos mereceu a presença dos bispos de todas as dioceses de Portugal dessa altura.

Neste contexto assim estabelecido, Altino M Cardoso traça a linha evolutiva da Literatura e situa o nascimento do Teatro muito mais cedo do que o de Gil Vicente, aparecido apenas em 1502 com o “Monólogo do Vaqueiro”, no reinado de D. Manuel I (1469–1521), num contexto cultural privilegiado por sua esposa a Rainha D. Leonor de Áustria e, sobretudo, pela expansão do Renascimento através da Europa, a partir de Itália – tudo coroado com o aparecimento da imprensa de Gutemberg que, finalmente, tudo pôde gravar e divulgar para memória futura.

Veja-se o texto de D Ivo Cruz acerca deste assunto:

(…) a própria consagração da qualidade da obra vicentina em si mesma justificaria esta consagração iniciática de Gil Vicente, o que não significa, insista-se, que não haja antecedentes históricos e/ou estéticos. Basta nesse sentido evocar a potencialidade cénica de textos e espectáculos que estão sobretudo devidamente documentados pelo menos desde finais do século XII.

Recorda-se uma vez mais, designadamente, a doação, em 1193, de D. Sancho I aos histriões Bonamis e Acompaniado, de terrenos em Canelas de Poiares do Douro e da quitação que ambos agradeceram com um chamado arremedillho, texto-espectáculo que à época era consagrado e consagrador.
Diz Santa Rosa de Viterbo que os dois beneficiários da doação régia escreveram como uma espécie de documento de quitação:

“Nós, mimos acima referidos, / devemos ao Senhor nosso Rei / um arremedilho para efeito / de compensação”

E citamos agora Teófilo Braga na sua consagrada, mas hoje algo “esquecida”, História do Teatro Português:
“(…) começaria o teatro português pelas pantomimas rudes, e não conheceria nunca o nosso povo outra forma, por isso que a única designação dramática inventada por ele foi a palavra bonifrate (nome puramente português dos espectáculos a que os espanhóis chamaram títeres e os franceses “marionettes”.
Aliás, em rigor, essa constatação remete para muito antes do tantas vezes chamado “fundador” do nosso teatro (digamos assim) Gil Vicente, cujo iniciático “Monólogo do Vaqueiro” data de 1502.

E remete-se para a “História do Teatro Português” de Luciana Stegagno Picchio, para quem “o Arremedilum, longe de ser um sinónimo de entremez ou farsa e de provar a vetusta existência de um género típico dramático português equivalia, pelo contrário, no documento de 1193, a imitação burlesca prometida ao soberano por jograis remedadores, isto é, bobos, cuja especialidade consistia em ridicularizar o próximo, macaqueando-lhe o semblante”, nada menos!

(…)
“Tenhamos presente que o documento em causa qualifica o autor-actor de histrião ou bobo. A perspectiva abre caminho para duas grandes manifestações paradramáticas, onde, tal como certamente nos arremedilhos de Bonamis e Acompaniato, a criação de texto se misturava com a improvisação de espectáculo: fórmula aliás perene e essencial ao longo de toda a História do Teatro”.

Duarte Ivo Cruz

CONCLUINDO:
Apenas por comodismo, ou ignorância, ainda se atribui a Gil Vicente o título de Fundador do Teatro Português.
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