Descrição
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GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO
– 20 anos 2006-2026
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O GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO, do Dr. Altino M Cardoso é a “Bíblia Cultural do Alto Douro”
– reconhece o Dr Manuel Silva Marques, Médico, Historiador, Fundador e Presidente do CICDAD
(Círculo de Cultura e Desenvolvimento do Alto Douro)
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ÍNDICE GERAL DO LIVRO
AS GRANDES TEMÁTICAS 8
A – O ALTO DOURO 23 9
B – HISTÓRIA 169 10
C – LITERATURA 194 10
D – MÚSICA 203 11
E – POESIA 300 12
F – TEATRO 313 12
G – JORNALISMO 337 12
H – PEDAGOGIA 12
Algumas opiniões sobre o autor 13
O SITE 32
https://amadora-sintra-editora.pt 32
Canções de introdução ao site 32
(SINE MUSICA NULLA VITA) 32
CONTEXTOS CURRICULARES 33
O DOURO – RAIZ 33
TEMÁTICAS de ESCRITA 33
SINTRA 34
VIAGENS 35
PEDAGOGIA 36
a Infância, 37
Poetas portugueses, 37
Amália Rodrigues, 37
História de Portugal, 37
Contos Tradicionais, 37
“MENSAGEM” de Fernando Pessoa 37
(44 músicas – 3 edições)… 37
OBRAS MAIS RECENTES DO AUTOR 38
PERSPECTIVAS GLOBAIS DO G.C.A.D. 41
Primeiro Volume – 640 p 41
Cantigas da Vinha 41
Contextos histórico-literários das cantigas 41
Estudo das raízes dos cantares tradicionais: 41
O contexto histórico galego-português, 41
a geografia, 41
a formação de Portugal, 41
os temas, 41
os géneros, 41
a sociologia, 41
s formas literárias, 41
as simbologias… 41
ENQUADRAMENTO HISTÓRICO-LITERÁRIO DAS CANÇÕES 41
Segundo Volume – 640 p 43
Tunas Rurais 43
Natal . Reis 43
Cantares de Embalar 43
Rimances 43
Cantares Religiosos 43
Cantares de Trabalho 43
Cantares de Desafio 43
As quintas e os caseiros 44
AS TUNAS RURAIS 46
Terceiro Volume – 640 p 47
Contexto histórico, duriense, poético, musical e europeu 47
Géneros poético-musicais 49
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Raízes medievais:
CONTINUIDADE DO GALEGO-PORTUGUÊS
CANTIGAS PARALELÍSTICAS
Toma lá beijinhos 50
Toma lá beijinhos GCAD I 565
Refrão: Toma lá beijinhos,
ó ai, toma pinhões;
ai, toma lá beijinhos,
ai, chi-corações. (bis tt)
Fui-me confessar e disse
que num tinha amor ninhum:
deram-me de penitência
que arranjasse ó manos um!
Fui-me confessar e disse
que andaba a namorare,
deram-me de penitência
que debo continuare.
Fui-me confessar à serra,
comungar ós capuchinhos;
deram-me de penitência
dar abraços e beijinhos.
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Ambas as versões, que apresento no site e no GCAD, são graciosas do ponto de vista poético e musical, de que destaco o animismo presente no diálogo com o vento, considerado mensageiro de amor…
O humor religioso torna a versão secundária muitíssimo original, já que os camponeses costumam ser muito reservados ‘nessas coisinhas’ da confissão.
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Dom Solidom GCAD I – 185 57
Dom Solidom GCAD I – 185
Olha a doiradinha
ai, dom-solidom…
como vai airosa! (bis)
a mão na cabeça,
ai dom-solidom…
não lhe caia a rosa!… (bis)
Olha a doiradinha,
ai dom-solidom…
como vai contente! (bis)
a mão na cabeça,
ai dom-solidom…
não lhe caia o pente!… (bis)
Olha a doiradinha,
ai dom-solidom,
como vai bonita! (bis)
a mão na cabeça,
ai, dom-solidom,
não lhe caia a fita!…(bis)
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Há várias versões da letra, embora conservem várias características das cantigas medievais galego-portuguesas. Doiradinha’, em vez de ‘menina’ é uma variante duriense da cantiga, perfeitamente adequada à mulher do Douro sempre bonita e ciosa da sua beleza e compostura!
Formalmente, apresenta várias características do galego-português: além do paralelismo próprio do leixa-pren, um novo paralelismo interno ou intrínseco está presente nos dobres e mordobres do poema.
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Donde vens, Maria Rita? 51
Donde vens, Maria Rita? GCAD I – 188
Donde vens, Maria Rita,
Que vens tão arreliada? (bis)
– Venho da Ribeira Nova,
De lavar, toda molhada!… (bis)
De lavar, toda molhada,
De cumprir a obrigação (bis)
– Donde vens, Maria Rita,
Amor do meu coração? (bis)
Amor do meu coração,
Quanto tenho te darei: (bis)
Darei-t’a luz dos meus olhos,
Cego por ti ficarei! (bis)
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O sacrifício da esposa merece uma esplêndida confissão de amor do marido. Como em muitas outros poemas-letras das cantigas galego-portuguesas, está aqui documentado um dos trabalhos respeitantes à vida da casa e da família: lavar a roupa. Esta cantiga (tenção marido-mulher) associa também uma declaração de amor – conjugal – apaixonado, que sabe apreciar e, até, venerar o trabalho feminino da dona de casa: “darei-te a luz dos meus olhos/ Cego por ti ficarei!” E já não se trata de uma poética, ou metafórica, cegueira!… Tão lindo!
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Moda da Rita GCAD I – 302
Moda da Rita GCAD I – 302
Esta é que era a moda
que a Rita cantava (bis)
Lá na praia nova, olaré,
ninguém lhe ganhava! (bis)
Ninguém lhe ganhava,
ninguém lhe ganhou! (bis)
Esta é que era a moda, olaré,
que a Rita cantou! (bis)
Esta é que era a moda
que a Rita cantou (bis)
Lá na praia nova, olaré,
ninguém lhe ganhou! (bis)
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Esta cantiga apresenta jogos de palavras e de strings ou fraseados musicais que têm feito dela uma das mais cantadas, não só no Douro mas também em todo o País. A música adapta-se perfeitamente ao paralelismo semântico com as suas repetições ou insistências, tão ao jeito da lírica medieval, sobretudo se não esquecermos as técnicas poéticas do ‘dobre’ (repetição simples: esta é que era a moda) e ‘mordobre’ (repetição morfossintáctica, isto é nas formas de uma palavra ou em uma frase: cantava/cantou, ganhava/ganhou).
Curiosa é, também, a colocação do bordão (olaré) em fase não tónica (ou átona) da frase musical.
Estruturalmente, a cantiga apresenta um esquema: 3 estrofes/3versos+bordão+1 verso. As duas primeiras são paralelísticas dialógicas; a terceira encerra o diálogo numa síntese: cantou/ganhou. Semanticamente, existe a evolução gradativa do tempo verbal imperfeito (cantava/ganhava) para o perfeito (cantou/ganhou), que torna o facto completamente passado, conseguido.
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Aninhas GCAD I – 92 53
Aninhas GCAD I – 92
Ó Aninhas, ó Aninhas,
Ó Aninhas da varanda. (bis)
Se tens sono vai dormir,
Que o teu amor práqui anda…(bis)
Que o teu amor práqui anda
À espera de um beijo teu…(bis)
Dá-me ao menos um sorriso,
Porque o teu amor sou eu.(bis)
Porque o teu amor sou eu,
Anda cá minha amiguinha:(bis)
Anda dar-me muitos beijos,
Tu ainda hás-de ser minha!(bis)
Ó Aninhas, ó Aninhas,
Vem pra mim, vem m’abraçar:(bis)
Hei-de levar-te à igreja,
Para contigo casar!(bis)
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Está presente nesta cantiga de amor (como em muitas outras deste GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO) a técnica medieval do leixa-pren até à última estrofe.
A mesura social permite, quando muito, ao namoro da janela, ou da varanda, para a rua. Um abraço (ou até um toque mais prolongado de mãos…)? só no casamento (pelo menos nas convenções sociais – desse tempo…).
É de notar a mesura, uma das cacterísticas do trovadorismo de amor. A situação do namoro, ou escala amorosa, é de entendedor (já não de fenhedor nem precador). Também não será a de drudo, pois no amor galego-português (de amigo e iniciativa feminina) não existe a situação de adultério. Como a iniciativa é masculina, trata-se de uma serenata, uma cantiga de amor e não de amigo. Também chama carinhosamente amiga (“amiguinha”) à namorada.
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À Horta GCAD I – 48 54
À Horta GCAD I – 48
Quando vou à horta,
quando vou e venho,
já me não importa
do amor que tenho! (bis)
Do amor que tenho
já me não importa:
quando vou e venho,
quando vou prà horta. (bis)
O meu amorzinho
anda carrancudo
por lhe não falar
vezes amiúdo. (bis)
Vezes amiúdo
não lhe hei-de falar:
se anda carrancudo,
deixá-lo andar! (bis)
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Algumas características do paralelismo:
Está presente a ruralidade e a confissão do amor disfarçado na iniciativa feminina da expressão sentimental e poética. O sujeito poético narra, com graciosa ironia (“já me não importa”) e certeza de felicidade, um arrufo do namorado, pela prova de um amor correspondido… por querer que ela lhe fale “vezes amiúdo”.
Formalmente: além do leixa-pren (múltiplo), jogo de palavras, dobre e mordobre. Em “andare” etc. transcreve-se a versão fónica silábica para a correspondência com as sílabas musicais.
Recolha: Constantim e Pegarinhos, Agosto de 1959)
Esta música é actualmente muitíssimo utilizada nos convívios, com uma coreografia em fila imitativa… mas a letra está longe de respeitar a dignidade poética da mensagem original: “Apit’o comboio, lá vai apitar/ Apit’o comboio, à beira do mar/ À beira do mar, mesmo à beirinha/ Apit’o comboio, no centro da linha….” No entanto… notem-se os restos do leixa-pren…
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A perdiz anda no monte GCAD I – 53 55
A perdiz anda no monte GCAD I – 53
A perdiz anda no monte,
O perdigão no valado. (bis)
A perdiz anda dizendo:
– «Anda cá meu namorado…»(bis)
Anda cá meu namorado,
Qu’estás nas bandas de além.(bis)
Anda cá dá-me um abraço,
Que eu te quero tanto bem.(bis)
Que eu te quero tanto bem,
Que eu te quero até morrer:(bis)
Até debaixo da terra,
Meu amor, podendo ser!…(bis)
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Algumas características desta paralelística:
Trata-se de uma cantiga de amigo, tendo como principais caracerísticas:
Ruralidade – animismo (natureza animal: ela=perdiz – ele=perdigão). Leixa-pren. Iniciativa confessional feminina. Valor do imperativo/súplica. Sugestão de trabalho distante, talvez de emigração… mas as rogas para as vindimas englobavam sempre marido e mulher, ou namorados. Notável a sugestão de paixão escatológica de perdição e de morte de amor: “até debaixo da terra…”
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Delaide, Delaidinha GCAD I – 173 56
Delaide, Delaidinha GCAD I – 173
Ó Delaide, ó Delaidinha,
tua mãe está-te a chamar:(bis)
eu bem sei o que ela quer:
não me deixa namorar!(bis)
Não me deixa namorar,
ela também namorou:(bis)
minha mãe já não se lembra
do tempo que já passou.(bis)
Do tempo que já passou,
do tempo que já lá vai:(bis)
minha mãe já não se lembra
quando namorou meu pai.(bis)
Quando namorou meu pai
tinha ela a minha idade:(bis)
minha mãe já não se lembra
do tempo da mocidade! (bis)
‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑
Pouco falta para que esta cantiga apresente uma forma poética galego-portuguesa perfeita.
Há outras versões da letra, com novos nomes (Aidinha, Deolinda, Adelaide…) mas o mesmo conteúdo: a mãe que não é confidente, mas oposição à vontade da filha. Existe subjacente uma problemática igual à encontrada nas cantigas de amigo nas relações mãe-filha – de solidariedade e cumplicidade, ou, como aqui, de oposição.
Note-se o completo leixa-pren, até à última estrofe. Note-se, ainda mais, e além do paralelismo semântico correspondente, a alternância vocálica das tónicas rimáticas: ‘namorar<>namorou’.
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