Descrição
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Este trabalho de investigação musical concentra-se num aspecto muito específico da Cultura Saloia:
A MÚSICA SALOIA PALACIANA
OBERVAÇÃO INICIAL: Ver as danças do filme ORGULHO E PRECONCEITO
O apogeu económico de Portugal deu-se no séc, XVIII, de D. João V, quando as riquezas provenientes dos Descobrimentos permitiram à Nobreza de Lisboa expandir-se para a periferia marítima do eixo Oeiras – Cascais – Sintra – Mafra.
Erguem-se aí grandes projectos de nobreza e luxo, com relevo para os chalés e palácios, que ornamentam a base do estatuto de Património Mundial atribuído a Sintra em 1995, e, actualmente, atraem a admiração de milhões de turistas de todo o mundo ().
Era essencial a mão-de-obra dos habitantes, que se multiplicaram rapidamente, atraídos pelo prestígio do emprego, que também lhes dava acesso ao fausto dos salões e, portanto, das roupas, culinária, músicas e danças, provenientes de toda a Europa monárquica através de grandes artistas contratados à compita.
Os espécimes musicais aqui apresentados constituem uma tentativa de reposição das versões originais (cravo > piano) dos salões da nobreza do séc. XVIII.
As exibições sociais (casamentos, concertos com músicos europeus) da aristocracia proporcionavam inéditas aprendizagens à numerosa empregadagem.
O actual folclore saloio – em vez do cravo ou do piano originais da Europa – começou por usar instrumentos de corda e percussão: com a chegada do séc. XX e das concertinas/acordeões, para tocar músicas originariamente aristocratas, como o minuete, o grogé, as valsas, a country danse, a polca, a mazurca, o trocato, a chotice (scottish), a gavota, o passecate (pas de quatre)…*
Isto é: Esta dezena de títulos ou géneros musicais ainda na actualidade demonstram a ausência de músicas tradicionais já seculares e específicos das outras zonas do País.
É que Sintra, populacionalmente, não existia antes da construção dos palácios pelos lisboetas beneficiários dos rendimentos coloniais, nomeadamente das especiarias do Oriente e do ouro do Brasil. O Convento de Mafra é o maior exemplar desse monumental ‘boom’.
A população actual (2020) de Sintra é de uns 400.000 habitantes; mas ainda no ano de 1900 era de uns diminutos 20.791. Viviam do produto da terra; possuíam gados: Cabras-655 Ovelhas-12.837 Suínos- 1.213 Bovinos-3.418. As vendas do leite, da fruta e da hortaliça eram feitas pelas ruas da Capital e nos domicílios das casas ricas, sob um chorrilho de nomes dos criados (uns fracos que só comiam alfaces…) que os desprezavam pela pestilenta sujidade que deixavam. Mas nomes em francês (salauds-salaudes) por medo dos varapaus ferrados…
Além da agricultura e pecuária apenas aferiam rendimentos na construção dos palácios e respectivos serviços familiares: pedreiros, jardineiros, cocheiros, cozinheiras, criadas de dentro e de fora… etc. etc. etc..
A mobilidade da linha férrea – de Sintra (1886) a Alcântara-terra (2-Abril-1887) – proporciona uma rápida empregabilidade e consequente povoamento, com núcleos populacionais em redor das estações, como ainda hoje.
- Os meus livros [MÚSICAS SALOIAS PALACIANAS, CANCIONEIRO SALOIO, MUSEU SALOIO] transcrevem espécimes de todas estas variedades europeias.
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O epíteto SALOIO
In: https://mariaalmiramedina.weebly.com/biografia-altino-cardoso.html
Segundo Altino Cardoso, o professor, escritor, musicólogo e investigador, a partir da análise do Foral de D. Afonso Henriques a Sintra e da caracterização demográfica no séc. XVI, XIX e XX, situa no séc. XVIII o surgimento do epíteto “saloio”, atribuído aos habitantes rurais que abasteciam a população snob lisboeta, deixando as ruas cheias de fezes dos animais e os patamares das moradias de lixo hortícula. Os rurais consideravam os mordomos lisboetas, designados “alfacinhas“ uns fracos, mal alimentados; que carregados, cheios de quilómetros nos pés e odor corporal (salauds) os recebiam com desprezo . Para além de outras marcas da ruralidade, estas e outras imagens de sujidade laboral, alcunha esta gente rude e simples de Saloios. São estes ditos saloios, que pela procura Alfacinha de alimentos, abasteciam a Cidade provenientes dos arrabaldes, num raio de cerca de 35km a norte (Torres Vedras ) e também a sul, como até hoje, aliada à tradição religiosa centenária do “Círio“ de N. Srª do Cabo Espichel. Mas o epíteto saloio da margem sul esbateu-se pelo atraso e obstrução que o Tejo proporcionava à concorrência comercial.
A
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NOTA de Altino Cardoso: Ser SALOIO é ter a dignidade bíblica de “ganhar o pão com o suor do seu rosto”.
Ler em Cesário Verde (uma visão carinhosa da heróica Mulher Saloia):
___________________________ NUM BAIRRO MODERNO – Cesário Verde _________________ […] E rota, pequenina, azafamada, Notei de costas uma rapariga, Que no xadrez marmóreo duma escada, Como um retalho de horta aglomerada, Pousara, ajoelhando, a sua giga. E eu, apesar do sol, examinei-a: Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos; E abre-se-lhe o algodão azul da meia, Se ela se curva, esguedelhada, feia, E pendurando os seus bracinhos brancos. Do patamar responde-lhe um criado: «Se te convém, despacha; não converses. Eu não dou mais.» E muito descansado, Atira um cobre lívido, oxidado, Que vem bater nas faces duns alperces. […] O sol dourava o céu. E a regateira, Como vendera a sua fresca alface E dera o ramo de hortelã que cheira, Voltando-se, gritou-me, prazenteira: «Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!...» Eu acerquei-me dela, sem desprezo; E, pelas duas asas a quebrar, Nós levantámos todo aquele peso Que ao chão de pedra resistia preso, Com um enorme esforço muscular. «Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!» E recebi, naquela despedida, As forças, a alegria, a plenitude, Que brotam dos excessos de virtude Ou duma digestão desconhecida. E enquanto sigo para o lado oposto, E ao longe rodam umas carruagens, A pobre afasta-se, ao calor de Agosto, Descolorida nas maçãs do rosto, E sem quadris na saia de ramagens. […] E pitoresca e audaz, na sua chita, O peito erguido, os pulsos nas ilhargas, Duma desgraça alegre que me incita, Ela apregoa, magra, enfezadita, As suas couves repolhudas, largas. E, como grossas pernas dum gigante, Sem tronco, mas atléticas, inteiras, Carregam sobre a pobre caminhante, Sobre a verdura rústica, abundante, Duas frugais abóboras carneiras. ___________ Cesário Verde pode ser considerado um 'poeta de Linda-a-Pastora'
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Actualmente, os ranchos folclóricos utilizam concertinas e acordeons para executar as músicas do cancioneiro saloio, originais ou trazidas dos palácios.
MAS COMO SOAVAM ALGUMAS DESTAS MÚSICAS NOS SALÕES DESSE TEMPO (séc. XVIII >)?
Admitimos várias hipóteses, desde música profissional e de câmara (ex. no palácio de Queluz) a instrumentistas individuais, nomeadamente de cravo (>piano).
De cravo ou piano apresentamos algumas hipóteses de reconstituições
(Identificação, arranjos e gravações em MP3, Wave e SVG de Altino M. Cardoso).
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EXEMPLOS
Exemplifico com um exemplo de uma música – PASSECATE (PAS DE QUATRE) Concertina/acordeão com arranjo de piano-cravo do salão palaciano… Curiosamente a beleza da música e a mestria rítmica da concertina de agora desperta a magia do salão original…
a. Passecate (Identificação, escrita e arranjo: Altino M Cardoso)
b. Passecate (Identificação, escrita e arranjo: Altino M Cardoso) (Rancho Flc MTBA)
c. Passecate (Identificação, escrita e arranjo: Altino M Cardoso) (Outra versão-arranjo)
d. Passecate (Identificação, escrita e arranjo: Altino M Cardoso) (uma pauta)
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Contradança (Identificação, escrita e arranjo: Altino M Cardoso)
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Dança palaciana (Identificação, escrita e arranjo: Altino M Cardoso)
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Minuete (Identificação, escrita e arranjo: Altino M Cardoso)
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Valsa antiga (Identificação, escrita e arranjo: Altino M Cardoso)
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Valsa a dois passos (Identificação, escrita e arranjo: Altino M Cardoso)
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NOTA: Para se obter um melhor enquadramento nos contextos históricos, sócio-económicos, culturais, etc. da Região Saloia, neste site/livro apenas esboçados, convém consultar:
– CARDOSO, Altino Moreira – CANCIONEIRO SALOIO, 170 pautas (músicas e letras), 2005;
– CARDOSO, Altino Moreira – MUSEU SALOIO – Memória Imaterial, 2016;
– CARDOSO, Altino Moreira – MÚSICAS SALOIAS PALACIANAS (2020)
– CARDOSO, Altino Moreira – HINO DE SINTRA PATRIMÓNIO MUNDIAL (2022)
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