MÚSICAS para 30 poemas de AM Pires Cabral

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MÚSICAS PARA 30 POEMAS DE AM PIRES CABRAL

Desde muito jovem, Altino M. Cardoso tem criado várias composições musicais baseadas em poemas de Autores clássicos consagrados, como A. Garrett, A. Sardinha, A. Nobre, Guerra Junqueiro, Gomes Leal, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Poesia trovadoresca e renascentista….

Essas canções estão publicadas na sua obra 400 MÚSICAS PRÓPRIAS REUNIDAS.

A partir de agora, as composições terão pauta com harmonização de piano e poderão ser compiladas em cadernos dedicados a um Poeta específico.

Esta compilação é dedicada a AM Pires Cabral, homem de formação coimbrã, escritor multifacetado e criador de uma poesia intensa e com mensagens de um lirismo existencial sóbrio e sínteses métricas musicalmente estimulantes.

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EXEMPLOS:

A gaveta do fundo (Música: Altino M Cardoso)

A GAVETA DO FUNDO

A gaveta do fundo: onde guardava
brasas e jóias de família –
ou seja, reservas de calor
para os dias do frio que aí vêm.

A gaveta do fundo:
forçada a fechadura, saqueada,
desmantelada em tábuas e ferragens.

Dada a beber às altas labaredas
que, bebendo, multiplicam a sede,
em vez de a extinguir.

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A luz dos teus olhos  (Música: Altino M Cardoso)

A LUZ DOS TEUS OLHOS

Eu fui o que disse ao sol
que não tornasse a nascer.
Se tenho a luz dos teus olhos,
que vem o sol cá fazer?

Eu fui o que disse ao sol
coisas que o sol no calou;
agora todo o céu sabe
caminhos por onde vou.

Um sol assim melhor fora
que não tornasse a nascer;
que a noite esconde melhor
o que houver para esconder.

Por negra que seja a noite,
não temo muro nem lama,
se tenho a luz dos teus olhos
a guiar-me à tua cama.

Já vai o céu arruçando
e tanto amor por fazer!
Sendo a noite o nosso dia –
que vem o sol cá fazer?

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As torres de Bragança  (Música: Altino M Cardoso)

AS TORRES DE BRAGANÇA

Altas torres tem Bragança,
Eu a todas tenho ido;
Só ainda não pude ir
Às torres do teu sentido.

Altas torres tem Bragança,
altas muralhas também;
nem Bragança sabe as torres
e as muralhas que tern…

Eu a todas tenho ido,
as vezes que me apetece;
quem de torres faz passeio
tanto sobe como desce.

Só ainda não pude ir,
de tão íngreme o caminho,
a certa torre cimeira,
irmã do mel e do vinho.

As torres do teu sentido
só sobe quem tu deixares.
Quem me visse a subir nelas,
entre pressas e vagares… (bis)

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Amores além do rio  (Música: Altino M Cardoso)

AMORES ALÉM DO RIO

Coitadinho de quem tem
seus amores além do rio: (bis)
quer ir vê-los e não pode,
do coração faz navio. (bis)

Coitadinho de quem tem
à distância seus cuidados:
não tira os olhos do longe
e o longe lhos faz dobrados.

Quem tem água de permeio,
e amores além do rio,
ou tem ponte ou tem bateira –
ou tem lágrimas em fio.

Amores, só nesta margem;
quem na outra os semear
quer regá-los e não pode,
por fora lhe hão-de secar.

Do meu lenço já fiz xaile
para te guardar do frio.
Guarda-me tu da lonjura:
do coração faz navio.

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Chico carpinteiro  (Música: Altino M Cardoso)

CHICO CARPINTEIRO

Estás em tua casa,
Chico Carpinteiro,
vestido de tábua,
fato domingueiro.

Deixas a cabaça,
Chico Carpinteiro?
Quem tanto bebeu –
sóbrio a tempo inteiro!

Quem carpinteirou,
Chico Carpinteiro,
tanto carro lento –
morrer num ligeiro!

Pregaste no tempo,
Chico Carpinteiro,
o inarrancável
prego derradeiro.

Leva a ferramenta,
Chico Carpinteiro,
para algum biscato
ao senhor porteiro.

Após tanta guerra,
Chico Carpinteiro,
paz comprada por
tão pouco dinheiro!

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De volta a casa  (Música: Altino M Cardoso)

DE VOLTA A CASA ou INFÂNCIA REVISITADA

De volta a casa, repetes os gestos
adequados ao Iugar donde jamais
devias ter saído.

Mas a casa já não tem
os ecos de antigamente.
Já não responde, não resguarda,
Já são só paredes sem sentido.

Tudo mudou, percebes?, e és agora
um sem-abrigo abrigado
na tua própria casa.

O filho pródigo para cujo regresso
o pai não matou o melhor cabrito.

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Fui à fonte  (Música: Altino M Cardoso)

FUI À FONTE

Fui à fonte beber água,
debaixo duma ramada;
foi pra ver o meu amor,
que a sede não era nada.

Fui à fonte beber água.
Se sede levei, mais trouxe:
dos beijos que me daria
a tua boca escusou-se.

Debaixo duma ramada
foi que ajeitámos a cama.
Queira Deus que no Inverno
não seque a ramada a rama.

Foi pra ver o meu amor
que abri esta janelinha
onde no meu coração
nem sequer parede tinha.

A sede não era nada,
inda que fosse de mês,
comparada com a guerra
que a tua trégua me fez.

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Natais distantes  (Música: Altino M Cardoso)

NATAIS DISTANTES

Pergunto-me o que ficou
desses Natais distantes
que eram vagarosos e tingiam
da cor e do sabor de frutos estivais
os frios dias de então.
De cada um desses Natais
que aboliam a noite,
instituíam a luz – o que ficou?
Pouca coisa: incertos
farrapos de memórias
que nada resgatam
e nada ressuscitam –
apenas doem.
Talvez uma abelha na janela,
perdida do seu tempo,
sofrendo a chuva,
violentando a vidraça –
e o meu irmão a rir-se disso.
Talvez a descoberta
de um frasco esquecido com doce de ginja
no armário do canto,
e a boca e os dedos sujos do doce
e um caroço engolido sem querer
e a vigilância das fezes.
Talvez o eco das vozes
dos que ceavam lá em baixo
desatentos do braço que parti na neve –
e eu sem encontrar posição para dormir.
Talvez uma gota de champanhe
no fundo da taça – a mais doce
porque era a do fundo e na garrafa
não havia mais
e foi a minha Mãe que ma trouxe à cama.
Talvez o borralho, as faúlhas,
depois apenas cinza. Talvez sal.

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