2022-CANTIGAS PARALELÍSTICAS Douro

Descrição

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CANTIGAS PARALELÍSTICAS (Alto Douro)

Alguns exemplos: letras e som mp3

 

 

 

 

EXEMPLOS

À Horta | GCAD – Vol I – p. 48 [Recolha e harmonização: Altino M Cardoso]

À HORTA

Quando vou à horta,
quando vou e venho,
já me não importa
do amor que tenho!

Do amor que tenho
já me não importa:
quando vou e venho,
quando vou prà horta.

REFRÃO:

O meu amorzinho
anda carrancudo
por lhe não falare
vezes amiúdo.

Vezes amiúdo
não lhe hei-de falare:
se anda carrancudo,
deixá-lo andare!
(Recolha: Constantim e Pegarinhos, Agosto de 1959)

Algumas características do paralelismo:
Está presente a ruralidade e a confissão do amor colocada na iniciativa feminina da expressão poética. O sujeito poético narra, com graça (“já me não impotrta”) e felicidade, um arrufo do namorado… por querer que ela lhe fale “vezes amiúdo”.
Formalmente: Leixa-pren (múltiplo), jogo de palavras, dobre e mordobre.

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A perdiz anda no monte – GCAD – Vol I – p. 53 [Recolha e harmonização: Altino M Cardoso]

A PERDIZ ANDA NO MONTE
1. A perdiz anda no monte,
O perdigão no valado. (bis)
A perdiz anda dizendo:
– «Anda cá meu namorado…»(bis)

2. Anda cá meu namorado,
Que estás nas bandas de além. (bis)
Anda cá dá-me um abraço,
Que eu te quero tanto bem. (bis)

3. Que eu te quero tanto bem,
Que eu te quero até morrer: (bis)
Até debaixo da terra,
Meu amor, podendo ser!… (bis)

Algumas características do paralelismo:

Trata-se de uma cantiga de amigo, tendo como principais caracerísticas:

Ruralidade – animismo (natureza animal: ela=perdiz – ele=perdigão). Leixa-pren. Iniciativa confessional feminina. Valor do imperativo/súplica. Notável a sugestão de paixão escatológica de perdição e de morte de amor: “até debaixo da terra…”

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Aninhas – GCAD – Vol I – p. 92 [Recolha e harmonização: Altino M Cardoso]

ANINHAS

1.Ó Aninhas, ó Aninhas,
Ó Aninhas da varanda, (bis)
Se tens sono vai dormire,
Que o teu amor práqui anda… (bis)

2.Que o teu amor práqui anda
À espera de um beijo teu… (bis)
Dá-me ao menos um sorriso,
Porque o teu amor sou eu. (bis)

3.Porque o teu amor sou eu,
Anda cá minha amiguinha: (bis)
Anda dar-me muitos beijos,
Tu ainda hás-de ser minha! (bis)

4.Tu ainda hás-de ser minha
Vem pra mim, vem me abraçar: (bis)
Hei-de levar-te à igreja,
Para contigo casar! (bis)

Algumas características do paralelismo:
Está presente nesta cantiga de amor (como em muitas outras deste GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO) a técnica medieval do leixa-pren até à última estrofe. 
A mesura social obriga, quando muito, ao namoro da janela, ou da varanda, para a rua. Um abraço (ou até um toque mais prolongado de mãos…)? só no casamento (pelo menos nas convenções sociais).

Como a iniciativa é masculina, trata-se de uma serenata, uma cantiga de amor e não de amigo. Mas também chama carinhosamente amiga (“amiguinha”) à  namorada.

É de notar a mesura, uma das cacterísticas do trovadorismo de amor. A situação do namoro, ou escala amorosa, é de entendedor (já não de fenhedor nem precador). Também não será a de drudo, pois no amor galego-português não existe a situação de adultério.

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4 Aqui aqui aqui – GCAD – Vol I – p. 100 [Recolha e harmonização: Altino M Cardoso]

AQUI, AQUI, AQUI
Aqui, aqui, aqui,
aqui é que eu hei-de estar (bis)
toda a noite a dar paleio,
toda a noite a palear… (bis)

Toda a noite a dar paleio,
toda a noite a palear, (bis)
toda a noite assentadinha,
toda a noite a namorar… (bis)

Toda a noite a namorar,
toda a noite a dar paleio, (bis)
é um regalo andar
com meu amor ao passeio! (bis)

Versão 2 – OUTRA LETRA
Aqui, aqui, aqui,
Aqui, agora, agora, (bis)
Aqui, neste recantinho,
É aqui que se namora. (bis)

Aqui, aqui, aqui,
Aqui é qu’eu hei-de estar, (bis)
Aqui, neste recantinho,
Toda a noite a namorar! (bis)

Toda a noite a namorar,
Toda a noite a dar paleio, (bis)
É um regalo andar
Com seu amor ao passeio! (bis)

Com seu amor ao passeio
Seu amor a passear, (bis)
É um regalo na vida
Noite e dia a namorar! (bis)

Aqui, aqui, aqui,
Aqui é que se está bem, (bis)
Ai ao pé do meu amor,
Só com ele e mais ninguém! (bis)

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5 Aqui moças | GCAD – Vol I – p. 101 [Recolha e harmonização: Altino M Cardoso]

AQUI, MOÇAS

Aqui, moças, aqui, moças,
aqui, moças a bailare, (bis)
foi aqui onde eu perdi
o meu lenço de assoare. (bis)

O meu lenço de assoare
inda não foi à barrela: (bis)
é só pra dizer adeus
quando me eu for desta terra. (bis)

Quando me eu for desta terra
duas coisas vou pedire: (bis)
firmeza e lealdade
até eu tornar a vire. (bis)

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6 Arraial de Lamego | GCAD – Vol I – p. 103 [Recolha e harmonização: Altino M Cardoso]

ARRAIAL DE LAMEGO

– Ó minha mãe, deixe, deixe,
ó minha mãe, deixe-me ire (bis)
ó arraial de Lamego,
que eu vou e torno a vire. (bis)

– Tu vais e tornas a vire?
ó filha, virás ou não: (bis)
o arraial de Lamego
é a tua perdição! (bis)

– Se é a minha perdição,
ó minha mãe deixe sere: (bis)
eu não vou co’o meu amore,
que ele deixou de me vere. (bis)

Ele deixou de me vere,
deixou de me acompanhare: (bis)
ó minha mãe, deixe-me ire,
que eu, se for, hei-de voltar! (bis)
NOTA
Como nas cantigas de amigo, a mãe tem cuidado com o comportamento da filha (e esta já tem certa ‘folha de serviço’…). Existe leixa-pren e tenção entre mãe e filha.
O arraial de Lamego é antiquíssimo.

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12 Coradinha, olá, olá | GCAD – Vol I – p. 156 [Recolha e harmonização: Altino M Cardoso]

CORADINHA OLÁ, OLÁ!

1.Coradinha, olá, olá!
coradinha, olá, limão! (bis)
dá-me cá esses teus braços,
darei-te o meu coração! (bis)

REFRÃO:

Fala-me, rosa,
a mim sozinha,
v’rás como ficas
coradinha!

2.Darei-te o meu coração
e a chave pró abrir: (bis)
não tenho mais que te dar,
nem tu mais que me pedir! (bis)

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Ai, ai, ai, minha machadinha – Recolha e harmonização de Altino M Cardoso

AI, AI, AI, MINHA MACHADINHA

Ai, ai, ai, minha machadinha! (bis)
Quem te pôs a mão, sabendo que és minha? (bis)
Sabendo que és minha também eu sou tua
Salta machadinha pró meio a rua.
No meio da rua não hei-de eu ficar,
Eu hei-de ir à roda escolher o meu par,
Escolher o meu par bem escolhidinho,
Salta machadinha deita-te ao caminho.

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14 Delaide, Delaidinha – GCAD – Vol I – p. 173 [Recolha e harmonização: Altino M Cardoso]

DELAIDE, DELAIDINHA

Ó Delaide, ó Delaidinha,
tua mãe está-te a chamar: (bis)
eu bem sei o que ela quer:
não me deixa namorar. (bis)

Não me deixa namorar,
ela também namorou: (bis)
minha mãe já não se lembra
do tempo que já passou. (bis)

Do tempo que já passou,
do tempo que já lá vai: (bis)
minha mãe já não se lembra
quando namorou meu pai. (bis)

Quando namorou meu pai
tinha ela a minha idade: (bis)
minha mãe já não se lembra
do tempo da mocidade! (bis)

Há outras versões da letra, com novos nomes (Aidinha, Deolinda, Adelaide…) mas o mesmo conteúdo: a mãe que não é confidente, mas oposição à vontade da filha.

Existe subjacente uma problemática igual à encontrada nas cantigas de amigo nas relações mãe-filha – de solidariedade e cumplicidade, ou, como aqui, de oposição.
Note-se o completo leixapren, até à última estrofe.

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Dom-solidom – GCAD – Vol I – p. 185 [Recolha e harmonização: Altino M Cardoso]

DOM-SOLIDOM

Olha a doiradinha
ai, dom-solidom…
como vai airosa! (bis)
a mão na cabeça,
ai dom-solidom…
não lhe caia a rosa!… (bis)

Olha a doiradinha,
ai dom-solidom…
como vai contente! (bis)
a mão na cabeça,
ai dom-solidom…
não lhe caia o pente!… (bis)

Olha a doiradinha,
ai dom-solidom,
como vai bonita! (bis)
a mão na cabeça,
ai, dom-solidom,
não lhe caia a fita!… (bis)

Doiradinha’, em vez de ‘menina’ é uma variante duriense da cantiga, perfeitamente adequada à mulher do Douro sempre bonita e ciosa da sua beleza e compostura!

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14 Donde vens, Maria Rita? I 187

DONDE VENS, MARIA RITA?

– Donde vens, Maria Rita,
Que vens tão arreliada? (bis)
– Venho da Ribeira Nova,
De lavar, toda molhada!… (bis)

De lavar, toda molhada,
De cumprir a obrigação (bis)
– Donde vens, Maria Rita,
Amor do meu coração? (bis)

Amor do meu coração,
Quanto tenho te darei: (bis)
Darei-t’a luz dos meus olhos,
Cego por ti ficarei! (bis)

NOTA: Os trabalhos respeitantes à vida da casa e da família associados a um amor apaixonado, que sabe apreciar o trabalho feminino da dona de casa.

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15 Idália, flor da Idália II 1162

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16 Moda da Rita | GCAD – Vol I – p. 302 [Recolha e harmonização: Altino M Cardoso]

MODA DA RITA

Esta é que era a moda
que a Rita cantava (bis)
Lá na praia nova, olaré,
ninguém lhe ganhava! (bis)

Ninguém lhe ganhava, (bis)
ninguém lhe ganhou!
Esta é que era a moda, olaré,
que a Rita cantou! (bis)

Esta é que era a moda
que a Rita cantou (bis)
Lá na praia nova, olaré,
ninguém lhe ganhou! (bis)

Esta cantiga apresenta jogos de palavras e de strings ou fraseados musicais que têm feito dela uma das mais cantadas, não só no Douro mas também em todo o País. A música adapta-se perfeitamente ao paralelismo semântico com as suas repetições ou insistências, tão ao jeito da lírica medieval, sobretudo se não esquecermos as técnicas poéticas do ‘dobre’ (repetição simples: esta é que era a moda) e ‘mordobre’ (repetição morfossintáctica, isto é nas formas de uma palavra ou em uma frase: cantava/cantou, ganhava/ganhou).

É de sublinhar a alternância vocálica das tónicas -a- e -o-  e, até, o eco -ó- -ó- da rimas. 
Curiosa é, também, a colocação do bordão (olaré) em fase não tónica (ou átona) da frase musical.
Estruturalmente, a cantiga apresenta um esquema: 3 estrofes/3versos+bordão+1 verso. As duas primeiras são paralelísticas dialógicas; a terceira encerra o diálogo numa síntese: cantou/ganhou. Semanticamente, existe a evolução gradativa do tempo verbal imperfeito (cantava/ganhava)>perfeito (cantou/ganhou), que torna o facto completamente passado.

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17 Ó Ana sacode a saia I 88
18 Ó Elo da Videirinha II 1125
19 Oliveira da Serra I 451

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20 Peneireiro | GCAD – Vol I – p. 478 [Recolha e harmonização: Altino M Cardoso]

PENEIREIRO

Mais um peneireiro (*)
que na roda entrou (bis)
deixai-o bailare,
se ainda não bailou. (bis)

Ó do rouba-rouba
e torna a roubar: (bis)
rapaz deixa a moça,
vai pró teu lugar! (bis)

Vai pró teu lugare,
vai prá tua rua! (bis)
rapaz, deixa a moça,
que ela não é tua! (bis)

Que ela não é tua,
não é tua, não! (bis)
rapaz, deixa a moça
do meu coração! (bis)

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(*) variantes:
Mais uma estrela…
Mais um papo-seco…)
(Constantim, 1950)

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21 Pombinhas da Catrina | GCAD – Vol I – p. 483 [Recolha e harmonização: Altino M Cardoso]

AS POMBINHAS DA CATRINA

As pombinhas da Cat’rina
Andaram de mão em mão, (bis)
Foram ter à Quinta Nova
E ao pombal de São João. (bis)

Ao pombal de São João
À Quinta da Roseirinha, (bis)
Minha mãe mandou-me à fonte
E eu quebrei a cantarinha. (bis)

Ó minha mãe não me bata
Que eu inda sou pequenina (bis)
Não te bato porque achastes
As pombinhas da Catrina. (bis)

NOTA

Esta cantiga é própria da menina de treze anos, que Castilho tão bem retratou no seu poema “A Menina de Treze Anos”.
Ela vai fazer os recados à mãe, mas já olha para os rapazes e, por vezes, ‘quebra a cantarinha’ – bela e poética simbologia da secreta desobediência e do primeiro segredo de amor.
A pomba-pombinha (e também o pombo-pombinho) faz parte do subconsciente sexual, desde o florescimento das hormonas.
Esta é uma das modas populares do nosso imaginário (diria, até, mitologia) de Portugueses: em todo o Mundo da nossa Expansão (África, Américas, Oceania…), são ainda cantadas e dançadas em roda, como provas vivas e históricas das raízes culturais portuguesas e europeias: “Ai, ai, ai, minha machadinha”, “As Pombinhas da Cat’rina”, “Giró-flé giró-flá” e algumas outras.

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22 Tenho brincos, tenho anéis II 1209
23 Toda a moça que é bonita II 1210