Este volume é uma separata do capítulo RIMANCES do GRANDE CANCIONEIRO DO ALTO DOURO, vol II – pgs 901 > 1.038.
OBS. – Esta Colectânea, com 137 páginas (um completo estudo inicial, letras e pautas) está registada na DIRECÇÃO GERAL DO PATRIMÓNIO CULTURAL, por iniciativa da Universidade do Algarve.
Ver também:
SUB Hamburg A/574342 – GBV
https://www.gbv.de/dms/sub-hamburg/687907675.pdf · Ficheiro PDF
Altino Moreira Cardoso RIMANCEIRO DO ALTO DOURO ÍNDICE Introdução 5 Estudo histórico, literário e musical do rimanceiro do Alto Douro 11 A CONTINUIDADE DOS RIMANCES 17 …
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São mais de uma centena os rimances que o autor coligiu e estudou durante anos, em conjunto com as cantigas tradicionais compostelanas ou galego-portuguesas.
Mais do que os próprios dados históricos permitem perpetuar, os rimances contêm importantes conotações e revelações da intimidade sócio-familiar e, ainda, da própria concepção de vida medieval.
O livro contém um exaustivo estudo histórico-literário preliminar, que abarca as grandes transformações e angústias inerentes às lutas pela expulsão dos infiéis da Península, desde o próprio Carlos Magno, já no século VIII)!…
É a mais completa colecção portuguesa de rimances, ainda mais porque cada um contém a respectiva pauta musical.
OBS – O autor optou por não sobrecarregar os textos ou as músicas com as inúmeras variantes encontradas, inserindo apenas as mais lógicas e significativas. Algumas músicas – em som mp3 – estão disponíveis em RIMANCES MEDIEVAIS (Ref Som mp3_RM).
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EXEMPLOS
Aldininha (Recolha e escrita musical: Altino M Cardoso)
– Aldininha, ó Aldinha, queres ser minha namorada?
Eu com ouro te vestia e com prata te calçava.
– Cale-se lá, ó meu pai, isso não pode ser;
Eu sou a sua filha e não sou sua mulher.
O pai, assim que soube, que Aldininha namorava,
Mandou fazer uma torre p’ra Aldininha ter fechada.
Esteve lá uns oito dias sem comer nem beber nada,
E aos fim dos oito dias já a sede lh’apertava.
Subiu-se a uma janela, à mais alta que a torre tinha,
E avistou a sua irmã na varanda da cozinha.
– Ó irmã da minha vida ó da minha infeliz sorte,
Trazes-me uma pinguinha d’ água, serei tua até à morte.
– Dava, dava mana minha, a mim pouco me custava;
O papá deixou escrito que o pescoço me cortava.
Subiu-se a outra janela, à mais alta que a torre tinha,
Avistou a sua mãe a bordar em prata fina.
– Ó mamã da minha vida ó da minha infeliz sorte,
Trazes-me uma pinguinha d’água, serei sua até à morte.
– Dava, dava filha minha, a mim pouco me custava;
O papá deixou escrito que o pescoço nos cortava.
Subiu-se a outra janela à mais alta que a torre tinha,
Avistou o seu irmão na janela da cozinha.
– Ó irmão da minha vida ou da minha infeliz sorte,
Trazes-me uma pinguinha d’ água, serei tua até à morte.
– Dava, dava mana minha, a mim pouco me custava;
O papá deixou escrito que o pescoço me cortava.
Mandou todos os caixeiros levar água Aldininha
E o primeiro a lá chegar casaria com Aldininha
O primeiro a lá chegar foi o caixeiro-viajante;
Ao dar água à Aldininha, ela morreu num instante!
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Antoninho (Recolha e escrita musical: Altino M Cardoso)
Antoninho lá na aula e uma pedrinha atirou,
ao brincar co’s estudantes o pavãozinho matou…
– Bons dias, ó meu papá, bons dias le quero dáre
matei o pavão do mestre, trate-o já de ir pagare.
– Está aqui dezoito libras, ou vinte que elas serão,
para pagar a valia do seu estimado pavão.
– Guarde lá esse dinheiro, para amigos não é nada;
mande o Antoninho à escola, inda tem a mesma entrada.
– Antoninho, vai prá escola, que precisas de aprendere.
– Eu não vou, meu pai, não vou, porque sei que vou morrere!
Antoninho vai prá i-aula, todo o caminho a choráre,
chegou à porta da intrada inda ia a soluçare…
e inda ia a soluçare, da sala para o salão.
– Assenta-te, ó Antoninho, e estuda a tua lição,
estuda a tua lição e sem pontinha de errore,
ó depois de estar estudada, tu falas co’o professore.
– Rapazinhos da escola, que é do meu Antoninho?
– Está no quarto dos livros, morto como um passarinho…
O seu pai, que isto oviu, meteu-lhe pena de horrore
meteu o revolv’ ò bolso: – vou matar o professore!…
Vou matar o professore, como se mata um cão:
matou-me o meu Antoninho, sem ter causa nem rezão!…
Vou manda-lo à justiça, vou mandá-lo à prisão,
que matou o meu António, com uma falsa razão,
e eu vou-me pôr à janela a ver passar o caixão!…
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A Nau Catrineta (Recolha e escrita musical: Altino M Cardoso)
Lá vem a nau Catrineta, que tem muito que contare:
Ouvi, agora, senhores, uma história de pasmare.
Passava d’ano e dia qu’iam em volta do mare…
Já não tinham que comer, já não tinham que manjar!
Deitaram sola de molho p’r’ó outro dia jantare,
Mas a sola era tão rija que a não puderam tragare!
Deitaram sortes à ventura, qual s’havia de matare;
Logo foi cair a sorte no capitão-general.
– Sobe, sobe, ó marujinho, àquele mastro real;
Olha s’enxergas Espanha ou praias de Portugal.
– Nem vejo terras d‘Espanha nem praias de Portugal;
Vejo sete espadas nuas qu’estão para te matar.
– Acima, acima, gajeiro, acima, ao mastro real;
Olha s’enxergas Espanha ou areias de Portugal.
– Não vejo terras d’Espanha nem areias de Portugal:
Mas enxergo três meninas debaixo de um laranjal:
Uma sentada a coser, outra na roca a fiar;
A mais formosa de todas ‘sta no meio a chorar.
– Pois todas três são minhas filhas, oh quem mas dera abraçar;
E a mais novinha de todas contigo hei-de casar.
– A vossa filha não quero, que vos custou a criar!
– Dou-te o meu cavalo branco, que o não sei governar.
– Dar-t’-ei a nau Catrineta para nela navegar.
Não quero a nau Catrineta, que a não sei governare.
– Então que queres tu, ó meu gajeiro, qu’alviçaras t’ hei-de dar?
– Capitão, quero a tua i-alma para comigo a levar.
– Minha i-alma dou-a a Deus, o corpo deito-o ao mar.
Tomou-o um anjo nos braços, não o deixou afogare;
Deu um estouro o demónio, calmou o vento e o mare,
E à noite a nau Catrineta estava em terra a varare.
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Condessa, Condessinha (Recolha e escrita musical: Altino M Cardoso)
– Condessa, ó condessinha, condessa do Aragão:
Venh’ te pedir uma filha de tantas que elas são.
– Minhas filhas não tas dou, nem por ouro nem por prata,
nem por sangue da lagarta, oh que belas qu’elas são.
– Tão contente como vinha, tão triste me vou a achar;
pedi uma filha minha, das mais belas que elas são.
– Minhas filhas não tas dou, nem por ouro nem por prata,
nem por sangue da lagarta, oh que belas qu’elas são.
– Tão contente como vinha, tão triste me vim a achar;
pedi uma filha tua, condessa não ma quis dar.
– Volta atrás, ó cavalheiro, serás uma mãe de mães;
darei-t’uma filha tua, se ma estimares bem.
– Estimo, estimarei, sentada numa almofada,
fiando continhas d’ouro; salta cá, ó minha amada!
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A Má Sogra (Recolha e escrita musical: Altino M Cardoso)
– Quem m’ dera naquel’ monte, ou mesmo naquele vale,
quem me dera mais além, nos palácios de meu pai.
– Se os desejos forem muitos, caminho para além vai.
– E se vier o meu Pedro, quem le há-de pôr o jantare?
– Se vier o teu D. Pedro, eu le porei de jantare
e da caça que trouxere, dela a ti te hei-de mandare.
Um por ua porta a saire, outro por outra a entrare.
– Donde está a minha Helena, que não me põe de jantare?
– A Helena, ó meu filho, foi pra casa de seu pai:
a mim chamou-me perra moira e a ti filho de mau pai.
– Ala, ala, meus criados, depressa e não devagare!
Jornadinha de três dias em três horas se há-de andare!
Aparelhem meu cavalo, que temos muito pra andare!
Apertem-lha bem a silha, alarguem-lhe o peitoral!
Jornadinha de três dias em três horas se há-de andare!
– Pelo meio do caminho encontrou o seu cunhado:
– Deus vos guarde, ó meu cunhado, tendes um filho varão!
– Prás alegrias que eu tenho, quer seja varão ou não!
– Onde está a minha Helena, que já a quero levare?
– Paridinha de hora e meia, como a queres tu levare?
– Quer parida, quer prenhada, comigo ela há-de marchare!
– Cale-se lá, minha mãe, já s’ devia ter calado:
mulher que é bem casada, faz o que o marido manda.
Deia-me o meu colete, que me quero apertare.
Subiu para o seu cavalo e tratou de caminhare.
Mas no meio do caminho suspirou e deu um ai.
– Porque suspiras, Helena, pois que dás tamanhos ais?
– Olha para o meu cavalo, se queres ver como ele vai
todo banhado em sangue, que deste corpo me sai!
Quem me dera aqui um clér’go, que me queria confessare!
– Confessa-te a mim, Helena, que Deus t’há-de perdoare
dos teus pecados pequenos: dos grandes não há vagare.
A quem deixas o teu ouro, que o haja de lograre?
– À minha mana mais nova, que bem o há-de estimare.
– A quem deixas os teus fatos, que os haja de gastare?
– À minha mana do meio, que bem nos há-de estimare.
– E a quem deixas o teu filho, que to haja de criare?
– À perra da tua mãe, causadora do meu mal.
Puxou por um punhal de ouro, e logo ali a matava.
Foge, foge o cavalheiro, nunca por ali passara.
Ao cabo de sete i-anos cavalheiro ali passou;
e então viu um pastorinho guardando sua ovelhada:
– De quem é aquela capela, de quem é aquela morada?
– Capela de Santa Helena, que um cavalheiro a matara.
– Perdoa-me, Helena, meu amor primeiro…
– Como perdoar-te, ladrão carniceiro?
mataste-me no monte, como o lobo a carneiro…
mas vais aqui ao teu filho, se ele perdoaria.
– Perdoa-me, filho, meu amor primeiro…
– Como hei-de perdoar, lobo carniceiro,
que matou minha mãe no monte, como lobo a cordeiro?
– Não dirás tu, filho, em que pena eu cairia?
– Condenado ao inferno, por causa de uma má língua!
– Mal hajam as más línguas e quem nelas lá se finta!
Por causa de uma má língua, matei a mulher querida!
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A Mulher Avarenta (Recolha e escrita musical: Altino M Cardoso)
Era um homem muito rico três vezes enviuvou;
Casou com uma mulher pobre, grande soberba se tornou.
Vem na Quinta-feira Santa, quinta-feira qu’há-de vire;
Está um pobre à sua porta, oh que lindo tem pedire.
Nem l’iam a dar esmola nem o iam despedire;
O pobre entrou p’ra dentro, tornou a repetire.
O homem, por ser dorido, dorido do coração,
Entrou para a cozinha, deu-lhe um bocado de pão.
A mulher, por ser ingrata, das mãos lho foi tirar;
Co’a soberba que levava à caldeira o foi deitare.
– Vem cá tu, ó meu marido vem cá tu, se queres vere.
Uma caldeira sem nada cheia de sangue a fervere.
-Vem cá tu mulher ingrata, ingrata do coração;
perdestes o corpo e alma por um bocado de pão!…
Era meia-noite em ponto quando estava a suspirare:
Os mosquitos eram tantos que a levantavam ao are!…
Os diabos eram centos em cima dela a voare!…
Foram-na a enterrare e não acharam qu’enterrare!…
Com isto, ó meus senhores, esmolas cada vez mais.
Isto foi assucedido numa terra de Vinhais.
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Juliana e Jorge (O Luisinho) (Recolha e escrita musical: Altino M Cardoso)
– Aonde vais, ó Luisinho, ai, ai, na tua bela montada?
– Venho ver-te, ó Joaninha, no camarote assentada.
– Disseram-me, ó Luisinho, que estavas pra te casar…
– É verdade, ó Joaninha, e venho-te convidar.
– Espera aí, ó Luisinho ,espera mais um bocado:
quero que proves do vinho que pra ti tinha guardado.
– Ai de mim, ó Joaninha, não sei que tinha o teu vinho,
ainda agora que o bebi já num enxergo o caminho!
– Deitei-lhe espinha de cobra e sangue de rosalgar (*)
pra que saibas, Luisinho, que já não te vais casar!
– E a minha mãe a cuidar que tem o seu filho vivo!
– Também a minha cuidava que te casavas comigo!
– Venha papel, venha tinta, venha também escrivão,
para eu deixar escrito o pago que as mulheres dão!
– Aqui está papel e tinta e também o escrivão,
para eu deixar escrito o pago que os homens dão!…
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(*) produto (ex. cogumelo) com sulfureto de arsénio
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