LEONARDUS – Rimances D’ouro

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Descrição

Trata-se de uma separata dos rimances de autor (AMC) integrados na narrativa épico-lírica desenvolvida no primeiro volume do livro

LEONARDUS, O PROFETA - CANÇÕES E HISTÓRIAS DA PÁTRIA ANTIGA

O miradouro com nome e capela de S. Leonardo (Galafura-Régua), celebrado pelo grande Torga pela sua mística grandiosidade e beleza, é agora associado à infância e juventude de D. Afonso Henriques (o Afonsinho da narrativa), passada em casa do Aio D. Egas Moniz, na povoação de Britiande (Lamego), no fronteiro lado sul do rio Douro.

Assim, S. Leonardo está associado ao início do Sonho que é um novo País (Portugal), sem sujeição a uma condessa bastarda e promíscua (D. Teresa, a mãe de D. Afonsinho) muito sujeita a perigosos ventos galegos dos Travas de quem tinha já uma filha, em breve pronta a disputar a herança com o meio irmão, futuro Rei Primeiro.

Depois de vencer a mãe e os galegos em S. Mamede (1128) D. Afonso Henriques pôde cortar definitivamente com o Condado do Norte vimaranense e estabelecer a sua Capital em Coimbra (1132), a primeira do novo País independente, institucionalizado pela Bula  “Manifestis Probatum”, do papa Alexandre III, com data de 1179.

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EXEMPLOS

Rimance de S. Leonardo de Galafura (33) [L e M: Altino M Cardoso]

1. Era um menino
Com um sonho antigo:
Ter um barquinho
E Jesus como amigo.

Quando cresceu
Veio à procura do mar
E de um cantinho
Onde parar e ficar…

2. Veio pelo Minho
Da doce verdura
Até ao Douro
Na sua aventura.

Entrou no Porto
Para subir a distância
E vê agora
Os seus sonhos da infância.

3. O seu barquinho
Ancorou nos penedos
E a natureza
Abre-lhe os seus segredos.

Quando o Inverno
Faz as cepas chorar
Leonardo sabe
Que o sol vai regressar

4. Depois o Azul
Enche as paisagens d’ ouro
E o rio fala
De um antigo tesouro…

E quando os vales
Todos cantam em Agosto,
Leonardo pode
Perfumar-se de mosto.

5. Vendo a Folgosa
Ao fundo, a vindimar
Leonardo escuta
As cantigas ao luar…

Sonhos e danças,
Raparigas e riso…
Que melhores mimos
Terá o Paraíso?

6. Quando é chamado
Para o céu de menino,
Vai devagar
Aceitando o destino…

No alto das fragas
Nasceu uma rosa
Talvez, quem sabe?
Um amor na Folgosa…

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Rimance de Dona Mirra (38)  [L e M: A M C]

Era uma princesa moura
E um dia pela manhã, (bis)
Quando vinha da capela,
Seu pai viu que era cristã. (bis)

O pai berra em desespero,
Jura que a não quer ver mais:
– “Minha filha, minha filha,
Que desonraste os teus pais!”

Com esses gritos horríveis
Lança-lhe uma maldição:
– “Maldita sejas para sempre
Encantada no Fragão!”

Fecha-se a fraga medonha,
Tudo em silêncio profundo
A princesa já nem sonha
Ver outra vez este mundo.

Um pastor que andava perto
Com pena da donzelinha,
Punha sempre uma florzinha
A enfeitar a capelinha.

Chegando o Dia de Reis,
Por aquele mesmo lugar
Passavam os Três Reis Magos
E quiseram descansar.

Quando pousaram a mirra
Num cantinho do Fragão,
Ouviram-se batidinhas
Como que as de um coração.

Afastando os pedregulhos,
Ficaram com a certeza
Que era mesmo um coração:
O coração da Princesa…

Tinha na fronte uma cruz
Os seus olhinhos fechados
E estava escrito Jesus
Nos seus bracinhos cruzados.

Ninguém sabia o seu nome
Mas Gaspar deu o parecer:
– “Se pela mirra foi achada,
D. Mirra então vai ser.“

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Rimance da Princesa Ardínia (40)  [L e M: AMC]

A princesa estava apaixonada
Por D. Tedo, fidalgo cristão,
Mas o rei de Lamego, seu pai,
Nunca iria aprovar a união. (bis)

Uma noite a princesa fugiu
E ao mosteiro das Águias foi dar,
Onde um monge bondoso a acolheu
E instruíu para se baptizar.

Mas seu Pai, batalhando na guerra,
(Que cruel, esse Rei Alboazar!)
Ao saber o refúgio da filha,
A mandou ali mesmo matar!

Ao chegar das batalhas a casa,
O D. Tedo então foi sabedor
E fez votos de nunca casar
Em memória desse grande Amor.

Do Castelo, com lua mais pura,
Vê-se a pomba no céu da cidade:
É a alma de Ardínia à procura
De D. Tedo e da felicidade.

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Rimance do Milagre de Cárquere (42)  [L e M: AMC]

1. Egas Moniz só pedia
À virgem Sta Maria
Um milagre divino:
Que as santas almas eternas
Viessem curar as pernas
Do seu querido menino.

2. Muitas rezas e novenas
Conseguiram apenas
Matar a esperança:
Pois se a terra não sabia
Também o céu não queria
Curar essa criança.

3. Deram ao principezinho
Uma cura pelo vinho
Ainda a ferver no lagar…
Mas o mosto milagroso
Não foi todo poderoso
Para o menino curar.

4. Mas o Aio era teimoso
E também muito engenhoso
A encontrar a solução:
Depois de muito rezar
Começou a imaginar
Arranjar substituição.

4. No altar de Cárquere o poisou
E em segredo o trocou
Pelo seu filho mais novo…
Como o menino tolheito
Já estava escorreito,
É um milagre para o povo.

5. O verdadeiro Afonsinho
Tomou o caminho
Do esquecimento:
Ou na campa rasa e chã
Da capela da Quintã,
Ou fechado num convento.

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Rimance de Dona Constancinha (47)  [L e M: AMC]

– Pelos socalcos da vinha
Pelos carreiros e montes
Bebia água das fontes,
Tanta alegria que eu tinha!
Os dias de romaria
Acordavam os meninos
Desde que rompia o dia
Com foguetes e violinos.
Menina esperta e ladina,
Quando eu era pequenina.
Com foguetes e violinos.
Menina esperta e ladina,
Quando eu era pequenina.
– Iam grupos combinados,
Com a música adiante,
Açafates recheados
E também vinho cheirante…
Antes de comer as migas
No areal junto ao rio,
Rapazes e raparigas
Eram mesmo um corrupio!
Coisa linda de se ver,
Acabada de nascer.
Eram mesmo um corrupio!
Coisa linda de se ver,
Acabada de nascer.
– Constancinha olhava as águas
Do Douro ali a passar
E cismava… ah sim!… cismava:
“Quando é que ‘ele’ vai chegar?
E… quem se chega mais perto?
Com quem irei eu dançar?
Nada servirá decerto
Ter-me eu estado a alindar,
Vestir rendinhas e folhos,
Inda mal abria os olhos…”
Ter-me eu estado a alindar,
Vestir rendinhas e folhos,
Inda mal abria os olhos…”
– Mas, chegando a hora sexta,
E estando o sol bem quentinho,
Chegou um grupo a cavalo
E à frente o D. Afonsinho!…
Por aquele trato fino
E o seu olhar fatal
Essa presença era um hino
Ao nome de Portugal!…
…Todos vénias a fazer…
Já era para te ver!
Ao nome de Portugal!
…Todos vénias a fazer…
Já era para te ver!

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Rimance de Soror Leonarda (49)  [L e M: AMC]

– E pela tarde adiante
Só se viu ali bailar.
Bailado muito galante
Que era função de encantar.
Chega a hora vespertina
Já todos para abalar,
D. Afonso, rosa ao peito,
Me quis, mesmo ali, beijar!
Guardo seca essa rosinha
Até mesmo já velhinha.
Guardo seca essa rosinha
Até mesmo já velhinha.
– Eu, porém, casta donzela,
Ao responder com um “Não”
Dei D. Afonso ao destino
De fundar uma Nação,
Uma sorte de ser Rei
Primeiro de Portucale.
Pela Pátria tudo vale!
Ser rainha não serei!
E a esperança de o ser…
Acabada de morrer!
E a esperança de o ser…
Acabada de morrer!
– Escolhi ir para o convento.
Aqui, tudo me resguarda!
Em honra de S. Leonardo,
Serei Sóror Leonarda.
Passam-se mais de 8 lustros
Com enfermos a tratar
Chega grande comitiva
Com o Rei a agonizar!
Ao vê-los desesperados,
Rezo, c’ os olhos fechados.
Ao vê-los desesperados,
Rezo, c’ os olhos fechados.
– D. Afonso que trazeis
Tantas feridas a tratar,
A mais antiga – dizeis –
Espinho no peito a sangrar!
Conheço estas mãos constantes!
Não me houvera de lembrar!
Vinde a Coimbra em instantes
Que vos quero aí honrar.
As rosas estão a crescer
E ainda te estão a ver!
As rosas estão a crescer
E ainda te estão a ver!

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Rimance de São Bernardo (58)  [L e M: AMC]

– Ó Bernardo, ó Bernardo,
Que procuras neste mundo?
– Quero dedicar a Cristo
O meu amor mais profundo.

– Então vai e deixa tudo
Aos pobres da tua terra
Põe o teu amor a Cristo
Ao serviço da sua guerra.

– Se na guerra da Cruzada,
Ó meu Deus, Vós me quereis,
Eu serei logo o primeiro
Na luta contra os infiéis!

– Vais colher a cem por um
Todo o bem que lá pratiques;
Manda os irmãos de Cister
Ajudar teu primo Henriques.

E Bernardo logo veio
Com seus irmãos de Cister
E o reino de Portugal
Ajudaram a crescer.

Em Tarouca ou Alcobaça,
Cada granja ou cada frade
Construíram Portugal
Para toda a Eternidade.

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Rimance de Geraldo Sem Pavor (53)  [L e M: AMC]

Nasceu rico e donairoso
Nas terras de Montemuro,
Era forte e corajoso
Cheio de ideal belo e puro.
Vizinho de Egas Moniz
Pelo Ribadouro andava
E com D. Afonso Henriques
Convivia e cavalgava.

Honra a Geraldo Sem Pavor!
Honra a Geraldo Sem Pavor!

Empenhados em fundar
A nova Pátria nascente
Bastava o seu Rei chamar,
Geraldo estava presente.
Irmanados a lutar
Tinham o mesmo desejo
De o País alargar
‘Inda além do Alentejo.

Honra a Geraldo Sem Pavor!
Honra a Geraldo Sem Pavor!

Évora, pérola fina,
Foi subjugada em beleza,
Acedendo pela muralha
Conquistou-a de surpresa.
Tantas terras ocupou
Que o seu rei e amigo
Esqueceu qualquer castigo,
E só o honrou e estimou.

Honra a Geraldo Sem Pavor!
Honra a Geraldo Sem Pavor!

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Rimance do Cego (Santa Iria) – GCAD Vol II [L e M: AMC]

Era meia noite, quando o cego veio,
bateu três pancadas na porta do meio.
– Abra-me essa porta, abra-me esse postigo,
venha dar a esmola ao pobre mendigo,
– Minha mãe, acorde do doce dormir,
venha ouvir o cego cantar e pedir!
– Se ele canta e pede, dá-lhe pão e vinho;
se ele não quiser, mostra-lhe o caminho!
– Não quero o seu pão, não quero o seu vinho,
quero que a menina me ensine o caminho.
– Pega, minha filha, na roca e no linho,
vai acompanhar o triste ceguinho…
– Acabou-se a roca, acabou-se o linho,
vá com Deus, ó cego, já está no caminho.
– Leve-me, ó menina, até mais além:
sou curto de vista, não enxergo bem…
– Diga-me, ó menina, minha bem amada,
lá na sua terra como era chamada?
– Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;
por aqui, agora, Iria, a coitada!…
De condes e duques eu fui cortejada,
e, agora, de um cego estou cativada!…
– Cala-te, ó Iria, não digas mais nada,
que eu sou o mesmo conde que te desejava.
– Adeus, minha casa, com trinta janelas,
adeus, minha mãe, que tão falsa me eras,
adeus, ó varandas, adeus, ó quintais,
adeus, meus irmãos, para nunca mais!

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